Essa história de ficção científica hard faz parte do universo ficcional Imortais Efêmeros, que explora um futuro distante em que a humanidade se tornou imortal e se desloca pela Via Láctea usando portais de teletransporte. Penso ser um pouco difícil falar em detalhes sobre a história e ao mesmo tempo, evitar spoilers. Então optei por fazer alguns comentários de natureza geral.
A imortalidade dos humanos deriva da tecnologia de teletransporte e essa ocupa uma condição mais evoluída também no campo moral, já tendo superado há tempos disputas mesquinhas e guerras.
A história narra o primeiro contato dos humanos como os Ilianos, uma espécie alienígena bastante peculiar que se desenvolveu numa lua, em ambiente aquático sob uma imensa crosta de gelo global. A primeira boa surpresa vem no primeiro capítulo, no qual o ponto de vista selecionado pelo autor é bem interessante, trazendo uma perspectiva única ao primeiro contato entre as espécies. Deste primeiro contato, nasce uma interessante relação entre humanos e Ilianos.
São exploradas questões de natureza individual e civilizatórias. É um pequeno épico que narra uma relação que se desenvolve ao longo de vários séculos.
A obra faz o leitor imaginar, em detalhes, um pouco dessa civilização humana do futuro, mas o mais notável é a rica concepção da espécie alienígena que escapa de muitos clichês que vemos em obras de ficção científica.
Você consegue imaginar uma espécie sem sentido de visão, tendo se devolvido sob a escuridão e em meio líquido, mas que conseguiu evoluir para se tornar uma civilização tecnologicamente avançada?
Essa é uma das questões intrigantes que a leitura pode trazer ao leitor.
Outra é: como salvar mundos inteiros da destruição a ser causada por uma anomalia solar?
Além dos temas e situações interessantes, contamos com a habilidade do autor para nos fazer imergir numa narrativa que imagina questões complexas e tão distantes da nossa realidade. Certamente uma das melhores obras já escritas da ficção científica brasileira.
Adquiri essa HQ no FIQ 2022, pelo financiamento do Catarse, e finalmente ela ficou pronta e chegou esses dias. Já vimos aqui duas outras obras do autor, Ilha dos Ratos, uma mistura de fábula, crítica social e história de investigação no estilo Noir, e Caxinã, uma HQ nacional e independente sobre Kaijus, monstros gigantes inspirados em filmes da cultura pop japonesa, como Godzilla.
Em sua mais recente obra, Vinícius Lobo nos leva a uma narrativa dividida em três episódios, inspirada pelo formato do filme Memories (1995) de Katsuhiro Otomo. Neste universo, sobre o qual temos um vislumbre por três episódios, vemos um pouco dos acontecimentos em torno do surgimento, estabelecimento e modificação de uma máquina/inteligência artificial conhecida como Arquivista.
O primeiro episódio ocorre no passado e mostra as origens da máquina/organização, talvez ali no período da revolução industrial. Tudo começa com a usurpação de uma pesquisa.
O segundo, ocorre num tempo análogo à nossa época contemporânea, e envolve um incidente de consequências terríveis envolvendo a tripulação de um navio, que reflete no “vazamento” de armas biológicas sobre em uma cidade.
O terceiro episódio ocorre num futuro distópico em que o Arquivista se estabeleceu como uma entidade que monitora e controla a sociedade. Aqui vemos aspectos negativos que podem ocorrer com a sociedade quando uma ferramenta de inteligência artificial sob o controle de grupos de interesse se estabelece.
Talvez, possamos ler como uma alusão ao sistema atual que vemos em partes do mundo e da influência de grupos econômicos e tecnológicos sobre a vida social. Aqui, temos uma guerrilheira e hacker insatisfeita com a situação de seu mundo, lutando para modificá-lo a partir de seu elemento chave, o próprio código-fonte da inteligência artificial que influencia e modera o funcionamento social.
Uma das coisas que aprecio nas obras do autor é que ver que ainda é adepto do processo analógico de produção. Vemos aqui seus traços cuidadosos e bom domínio da construção de cenas em preto e branco com o bom e velho nankin.
Além disso, o autor vem demonstrando um domínio crescente da própria forma da narrativa visual inerente e única à nona arte. Então, o Arquivista é uma ótima opção para os apreciadores de uma narrativa de ficção científica, repleta de ação e que nos dá um vislumbre de um universo fictício, bastante particular, com um toque tupiniquim e que emerge da mente do autor.
Há algum tempo não lia um livro de Brandon Sanderson, que normalmente escreve fantasia, como o romance Elantris, as séries Mistborn e Stormlight. Entretanto, Skyward é uma ficção científica! Foi uma leitura muito prazerosa e que deixou um gosto de quero mais… Skyward, 606 páginas (Editora Planeta) marca o início de uma quadrilogia (algo que meu bolso não agradece). 😕
Direcionada ao público jovem, a série apresenta uma narrativa leve e divertida, permeada por ação e humor. Em um contexto altamente tenso, a trama desenrola-se em Detritus, um planeta alienígena isolado, onde a humanidade enfrenta constantes ameaças dos Krell. Especificamente, destaca-se a possibilidade de ataques por bombas extremamente potentes, conhecidas como ‘destruidoras de vida’. Em resumo, a humanidade está à beira da extinção.
A protagonista, Spensa, é uma jovem determinada a superar as sombras do passado de seu pai, piloto que ficou estigmatizado por uma atitude covarde. Ela que provar seu valor como piloto de caça estelar e também limpar o nome do pai. A narrativa tem um bom ritmo e mantém o leitor fisgado.
Sanderson constrói um mundo fascinante, onde os descendentes de um naufrágio espacial lutam pela sobrevivência, estando sempre sob a sombra da derrota e extermínio. Um dos pontos fortes do livro são as batalhas espaciais entre os caças da resistência e as forças alienígenas. “Skyward” também destaca a habilidade única de Sanderson em criar sistemas de magia e ciência detalhados, mesmo que, neste caso, a ênfase esteja na tecnologia futurista e nas complexidades das batalhas no espaço.
Ainda sobre a ambientação, Detritus é cercado por um cinturão de “lixo espacial”, parte dele ainda operacional, que atrapalha as comunicações e impede que os Krell tenham uma vantagem definitiva sobre os humanos.
Spensa Nightshade é uma protagonista forte, resiliente, um pouco engraçada e com um temperamento explosivo. O elenco de suporte e antagonistas também são memoráveis, sendo os destaques ficam para M-Bot, uma inteligência artificial divertida e sarcástica. Jorgen, rival de Spensa na academia de pilotos, é alguém com quem ela desenvolve uma relação complicada, mas interessante de acompanhar. A Almirante Ironside, líder militar da Defesa da Humanidade, destaca-se como uma figura autoritária que constantemente desafia Spensa, tornando-se sua principal antagonista.
Cruzando a trama principal, o livro explora temas como identidade, preconceito e esperança. Skyward é uma história sobre encontrar seu lugar no mundo, superar os obstáculos e nunca desistir de seus sonhos.
Por outro lado, em comparação com outras obras de Sanderson, Skyward tem uma escala mais modesta. A história foca em um grupo reduzido de personagens e em um conflito relativamente limitado, ao contrário de seus outros livros que apresentam narrativas épicas com personagens e conflitos mais extensos e complexos.
Enfim, “Skyward” é uma boa adição ao catálogo de Brandon Sanderson, sendo capaz de cativar os leitores e sendo também uma boa leitura de entrada para o gênero de ficção científica. Uma leitura obrigatória para aqueles que buscam uma aventura espacial, do tipo space opera, repleta de reviravoltas emocionantes e personagens memoráveis. 🙂
Desta vez, Erick “Sama”, o autor das fantasias Guirlanda Rubra e Lâmina Celeste, nos traz uma ficção científica fortemente inspirada em jogos de nave, como Gradius, Starfox, Xevious, Twin Bee, R-Type, Axelay, entre outros SHMUPS. Ainda que a história tenha um grande foco nas espaçonaves, seus pilotos e suas missões, ela também aborda temas como a “coletividade vs indivíduos”, inteligência artificial, entre outros.
O início da leitura foi um pouco confusa, devido à escolha do autor em fragmentar a narrativa, não só em vários pontos de vista, mas também, em idas e vindas na linha temporal. Além disso, algumas coisas que ocorriam na narrativa, pareciam não ter um lastro de coerência clara. Com isso, nas primeiras páginas, tive uma impressão de que a história não teria um bom desenvolvimento, pela falta de coerência. No entanto, conforme o leitor avança na trama, percebe que há um aspecto engenhoso na forma que o autor introduz conceitos que começam a dar sentido e coerência para a trama como um todo. É uma história que se compõe com a sobreposição de diversas camadas, tanto no lado da trama, das referências aos jogos, temas, como a solidão, e presença da música, principalmente, o blues. Também não dá deixar de fora a inspiração em animes como Cowboy Bebop, Macross, entre outros. São elementos que se entrelaçam para composição da atmosfera da história.
A história segue a trajetória (errática) de Axel Vipero, um piloto de caça espacial e líder do esquadrão Raposas Estrelares. Ele e seus companheiros vivem numa recente colônia humana, chamada Eden. A humanidade que se desenvolve ali, já não é a mesma que vivia na Terra, uma notável diferença é a estrutura familiar. Muitos jovens são incubados e nascem por processos artificiais, sendo educados coletivamente em Centros de Criação, por muitos pais e mães. Assim, como Axel, seu melhor amigo, Luciano (Abelha) também não nasceu e cresceu numa família “tradicional”. Ele, Abelha, Gládio, Dário e Meadara são pilotos e os principais personagens da história. Destaque para a inteligência artificial, Coração, que é companheira íntima de Axel em sua jornada.
O conflito principal surge, quando alienígenas biomecânicos tentam invadir a colônia. A primeira tentativa é frustrada e dá oportunidade aos humanos de aprender sobre a tecnologia alienígena e compreender que estão condenados a serem destruídos ou assimilados brevemente. Neste contexto, é criada a Operação Salamandra, uma tentativa desesperada de resistir às forças superiores dos invasores.
Além do conflito de proporções épicas, há também os conflitos advindos da relação entre o elenco principal. Temos um típica trama conflituosa baseada num triângulo amoroso que envolve o protagonista e seu melhor amigo. E a relação do protagonista e do par amoroso com um simpático animal de estimação.
A narrativa é toda composta de cenas episódicas que se alternam no espaço, tempo e pontos de vista, mas que do meio para o final, começam a tomar mais corpo e coerência. Não quero dar spoilers, mas o autor introduz algumas ideias bem interessantes que explicam aspectos envolvendo as mortes e elos mentais entre os personagens.
Abro um parêntese para falar do ponto de vista de uma pessoa que foi muito fã de jogos de nave e jogou muitos deles. A maioria deles, não possuía uma camada de história muito bem desenvolvida, quando muito, sugeriam umas poucas linhas de texto e imagens. O jogador, talvez, pudesse unir os pontos entre o que estava expresso na história e o que se via visualmente nas fases para tirar algumas conclusões. Parece que o autor conseguiu encontrar inspiração, nas lacunas deixadas pelas histórias não contadas de tais jogos, para criar em cima de alguns conceitos “subentendidos”. Um salto dos pixels e sprites que compunham os jogos para a composição de uma história de ficção científica que aglutina muitos elementos já presentes em outras obras do gênero, mas totalmente alinhada ao seu principal tema da inspiração: uma ode aos “jogos de navinha”. Um dos resultados, que me surpreendeu, foi a criação de uma espécie alienígena “vilã” muito assustadora. Figura digna do horror cósmico e mais horrível que os Borg de Star Trek.
É um livro, curto, de poucos personagens, fortemente baseado na intenção de homenagear o construto cultural dos jogos de nave, amarradas por algumas ideias bem interessantes, que fazem a história transcender a simples dimensão de “história de ação espacial/combate de aeronaves”. Uma ficção científica que também traz suas reflexões sobre o impacto das tecnologias da informação e genética na vida humana, do indivíduo e sociedade, “teísmo vs ateimo”, amizade, amor, inveja e solidão.
Para completar, o autor nos deixa uma playlist, que ajuda ainda mais o leitor a mergulhar no universo da história. E ainda, para quem foi jogador desses jogos, é uma leitura muito nostálgica.
Gerson Lodi-Ribeiro, um veterano da ficção científica brasileira, nos presenteia com mais uma obra intrigante. Tendo subtítulo: um conto na tramas de Ahapooka, o e-book tem 60 páginas e me deu a sensação de ter o tamanho de uma noveleta.
A história é narrada por Clara, uma adolescente que vive num planeta bastante peculiar. Uma espécie de planeta zoológico. Nos termos colocados pelo autor, ela vive em: “uma cidade poliespecífica da Grande Planície Vermelha de Ahapooka, um planeta habitado por milhares de espécies alienígenas e centenas de culturas humanas, numa época futura tão remota que a humanidade já esqueceu sua origem e se questiona sobre o mito da existência de um mundo original chamado Terra”.
O pai da Clara é um predador. Uma espécie de mercenário-sucateiro especializado em recuperar equipamentos de naves que são atraídas e caem no estranho planeta.
Clara tem que deixar sua vida escolar (e o bullying dos colegas) para trás e partir em sua primeira (perigosa) jornada acompanhando a profissão do pai. Fora das muralhas e da proteção de sua cidade, ela e o pai encontram batalhas contra concorrentes e também precisam lidar com espécies de centauróides bárbaros e belicosos.
Mesmo em suas poucas páginas, a história mostra uma ambientação muito interessante na qual são abordadas diversas espécies alienígenas, várias culturas, idiomas, o próprio mistério por trás da existência daquele estranho mundo, etc.
É uma história que traz uma sensação de estranhamento constante, bastante imaginativa, bem escrita e de rápida leitura. Deixa o leitor querendo saber mais sobre a personagem e este universo. Ainda não li, mas descobri que Clara é a protagonista do Romance “A Guardiã da Memória”.
No geral, a obra de Lodi-Ribeiro oferece uma experiência literária que transcende os limites do comum, acenando para uma jornadas profundas e empolgantes. Do mesmo autor, veja também a resenha de Pecados Terrestres.