Promessa de Fogo (Abismo livro 1) – Thiago D’evecque

Um livro de um autor independente que li como parte da campanha #LeiaNovosBR. Ele também tem um outro romance chamado Limbo, que possuiu uma
premissa bastante interessante.

Promessa de Fogo conta a história de Alícia, uma jovem guerreira que vive com  o pai numa vila de interior chamada Timóteo. As coisas mudam para ela quando assassinos realizam ataques insistentes a sua vila, causando sofrimento e destruição. A partir disso ela inicia uma jornada de vingança e de auto descoberta, que infelizmente, não vemos ser concluída neste primeiro livro. Falar mais sobre a trama certamente entregaria alguns spoilers, para ficarmos livres deles, falemos de outros temas.

É um livro relativamente curto, o autor possui uma prosa fluida e de fácil entendimento. Porém, tende em alguns momentos para uma prosa floreada (purple prose), excesso de figuras de linguagem estranhas e um pouquinho de infodumps.

Apresenta uma ambientação interessante, com presença de dinossauros, demônios e magia, mas isso por si só não sustenta a trama que apresenta alguns problemas de desenvolvimento. Um deles é que nenhum arco importante é fechado nesse primeiro livro, deixando tudo muito em aberto e configurando um final pouco satisfatório. Um ponto negativo da ambientação é que, em alguns momentos, elementos são colocados na trama, como num tipo de colagem que faz referências a outras obras de ficção, como o Exterminador do Futuro e Robocop, mas sem que esses elementos
se integrem bem ao restante da ambientação. Por outro lado, alguns trechos são muito bem descritos, com por exemplo o momento em que as montarias (uma espécie de dinossauro) são apresentadas.

A coisa que gostei muito no livro foi a capa. Na verdade, algo que acabou me motivando a adquiri-lo.

A despeito desses probleminhas de trama e ambientação, o principal problema do livro e principal razão pela qual não gostei muito dele foi o fato de eu não conseguir empatizar com as protagonistas. (Gostei das montarias, por outro lado) Entenda que isso pode ser um aspecto ligado a um gosto pessoal, então, se não for um leitor tão chato quanto eu, pode ser que você goste do livro (já vi vários comentários positivos em outras resenhas). Então deixo a minha sugestão de dar uma chance ao autor e conhecer sua obra, que pode não ter me fisgado, mas certamente tem seus méritos.

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Entrevista com Diego Guerra – autor de O Teatro da Ira e O Gigante da Guerra.

Diego Guerra é formado em Produção Editorial pela Anhembi Morumbi e em roteiro pela Academia Internacional de Cinema. Trabalha como designer e é fã de literatura fantástica e romances históricos. Passou os últimos quinze anos escondendo suas obras nas gavetas, mas resolveu que já estava pronto para contar suas aventuras. Autor da série online Chamas do Império, que foi selecionado pelo catálogo da Editora Draco.

Fale um pouquinho sobre você, para seus leitores o conhecerem um pouco mais. Se puder, conte algo além do que já divulga na sua biografia.

Uau, vamos ver. Eu sou formado em produção editorial. Em um momento da minha vida alguém me convenceu de que eu nunca seria um escritor, então eu resolvi que trabalharia com o livro dos outros para me satisfazer, assim, meio sem querer, acabei bandeando para o lado da arte e me tornei designer, mas o objetivo principal sempre foi escrever, o resto eu fiz para pagar as contas.

No fim acho que não me desviei muito do meu caminho. Tenho uns amigos que queriam ser cantores, pintores, mil coisas e acabaram em um emprego completamente diferente. Acho que no fim eu acabei meio por teimosia na mesma área. A verdade é que não me vejo fazendo nada diferente e já pensei muito nisso.

Quando percebeu que queria escrever um romance, e ainda, por que o gênero de fantasia?

Percebi que queria escrever histórias assim que aprendi a ler. Deixava meus pais loucos, juntava todos os trocados para comprar livros. Minha família era muito pobre na época e a maioria dos livros que eu lia tinham sido herança dos meus tios e não eram para a minha idade. Ao mesmo tempo, eu colecionava artigos científicos e teorias bizarras… e gostava de inventar histórias para todas as coisas. Na verdade não escolhi a fantasia, eu fui descobrir o que eu estava fazendo muito mais tarde e até tentei escrever outras coisas por um tempo. Me disseram que eu tinha que escrever “coisas sérias” e eu tentei escrever crônicas, tentei romances existencialistas, mas não sou eu. Na fantasia eu me sinto mais à vontade.

Quais são suas principais referências na literatura?

Olha, como leitor eu me dediquei a tudo um pouco. Sou grande fã de realismo mágico, sobretudo Borges, Saramago e J.J. Veiga, mas nunca esqueci aquele sentimento de assombro que tinha com os romances de aventura como os livros do Stevenson ou Júlio Verne. Acho que tudo me tocou um pouco e fui mudando conforme lia. Ouvi um “click”, mesmo, quando li Bernard Cornwell, Yoshikawa e Dickens, foi quando eu comecei a encontrar o que eu queria escrever. Sei que eles parecem não conversar entre si, mas acho que como autor foram as obras que mais me influenciaram. Em algum momento também conheci Tolkien – não tem como ser escritor de fantasia sem ter ao menos conhecido Tolkien – mas acho que o que eu faço fica muito distante dele. Talvez me identifique mais com Michael Moorcock.

Legal, o Moorcock foi um dos que me fisgou para o gênero. Ainda tenho o projeto de ler todos os livros dele, acho que já estou na metade.

Moorcock é incrível, na minha opinião é um cara tão importante quanto Tolkien para o gênero. Tolkien era um acadêmico, sua obra é uma perfeição a parte, mas o Moorcock teve grande contribuição na disseminação e atualização da fantasia… Antes todos queriam ser Tolkien. Depois do Moorcock, as pessoas começaram a procurar histórias diferentes. No meu panteão, ambos dividem o trono.

Bacana, eles realmente merecem! O que você tem lido?

No momento tenho lido muitos livros teóricos, estou terminando a leitura do “Gigante Enterrado” do Ishiguro, “O Poder da Espada” do Abercrombie e “Como Funciona a Ficção” do James Wood.

Nossa, a trilogia da Primeira Lei, de Abercrombie “estourou a minha cabeça”!

Eu comecei a ler o Abercrombie porquê muita gente compara o meu livro com este, mas ainda estou bem no começo. Gostei do ritmo e tive uma boa impressão dos personagens… Mas ainda é cedo para dar um veredito.

Sobre a belíssima ilustração da capa de O Teatro da Ira (resenha) feita pelo ilustrador Camaleão. Como foi o processo de criação? Você participou? Ou foi algo que ocorreu através da editora?

Puxa, isso foi uma novela à parte… Sou designer, como vc sabe, é gosto muito de trabalhar com capas… Então eu fiz o projeto gráfico e contratei um ilustrador excelente para desenvolver a ilustração da batalha da ponte… Infelizmente o cara pisou na bola, e desapareceu. Levou 6 meses para eu recuperar o sinal que eu tinha pago. Nesse meio tempo, eu tentei resolver a capa de outra forma, inclusive fiz uma ilustração eu mesmo:

http://diggs.com.br/2016/02/05/teatro-da-ira-design-de-capa/

Só que, como vocês podem ver, meu traço era muito juvenil para a história… Quando eu apresentei pra Draco eles sugeriram outro ilustrador. Não tinha ideia de quem seria e nessa altura do campeonato apenas confiei no editor. Uns meses depois recebi esse presentão que foi uma capa do Camaleão. Até hoje não entendo como isso foi possível. O trabalho dele é incrível.

Li uma postagem sua falando sobre dificuldades para escrever a continuação de Teatro da Ira. Isso continua? Fale um pouquinho sobre isso.

Olha, eu nunca pensei que existiria essa dificuldade… Eu planejei os romances do Chamas do Império de forma semi-independente, montando arcos e deixando algumas pontas soltas para as possíveis continuações. Tem sempre um desejo de fazer melhor, sem menosprezar o primeiro e dando espaço para o próximo. E acho que tenho sido muito exigente comigo mesmo, para não decepcionar os leitores. Corrigir as coisas de acordo com o feedback que recebi do Teatro, também é uma preocupação.

Uma vez li um artigo do Asimov relatando a dificuldade de escrever sexto (ou quinto) livro da série Fundação. Para ler o segundo, leu o primeiro 2 vezes, o terceiro, o primeiro e segundo, mais vezes ainda, e assim progressivamente… até que ele disse que estava quase enlouquecendo.

Pois é. Eu sinto um pouco disso. Até porquê eu faço MUITOS tratamentos. Então, tem até isso, a história que eu tenho na minha cabeça às vezes é diferente da história que chegou aos leitores. Daí preciso sempre consultar para saber se aquilo aconteceu oficialmente ou foi só um tratamento que ficou para trás.

Mas está progredindo, certo?

Muito mais lentamente do que eu gostaria, mas sim, temos algum progresso e tem sido divertido ver a evolução da história.

Muitos de meus livros tem fortes relações com jogos de RPG (de mesa). De onde veio sua inspiração para Chamas do Império? Sua ideia é escrever uma série? Tem mais ou menos noção do tamanho?

A origem do Chamas do Império é uma história que eu escrevi em um universo inspirado em RPG de mesa… No decorrer daquela história dois personagens conversavam sobre um antigo Império que abraçava todos os reinos daquela região e foi por conta dessa linha de diálogo que eu comecei a imaginar como seria um Império tão vasto. Foi assim que nasceu as Chamas do Império.

Para escrever acabei me baseando bastante no Império Romano, nessa hora a obra de Edward Gibbon foi importantíssima, mas como queria escrever uma história de guerra, também fui atrás de livros da Segunda Guerra para me inspirar em algo mais moderno… No fim, a gente acaba sempre escrevendo sobre nós mesmos e sobre a nossa época, não é? Então eu acabei acrescentando questões que me interessam, como a escravidão, o preconceito e a luta de classes.

Aquela história inicial serviu apenas para me fazer questionar sobre a origem das coisas e me fez construir um universo muito mais rico, mas a verdade é que ela já não faz sentido algum para mim hoje.

Eu tenho ideia para muitos livros envolvendo os personagens do Chamas do Império, mas a verdade é que tenho outros projetos que quero escrever também, então resolvi fechar um arco importante da história antes de dar uma pausa e trabalhar nestes outros projetos um pouco. Estou falando em 3 ou 4 livros, com a mesma estrutura de arcos intercalados. Depois disso… veremos.

Achei que seu epílogo em forma de nota histórica agigantou seu romance. É uma inspiração vinda de Bernard Cornwell?

Minha primeira ideia era escrever um livro com notas de rodapé. Eu ia acrescentar as anotações sobre a paisagem, as pessoas, sempre do ponto de vista de um autor fictício do mundo. Quando comecei a fazer isso, porém, achei que estava ficando muito cansativo.

Acho que uma das minhas questões favoritas é “onde está a verdade?” Se você reparar, o Teatro da Ira é cheio de meias-verdades. Cada um tem a sua versão da história. As Notas Históricas foi um jeito de mostrar isso de forma clara, mas sim, Bernard Cornwell me mostrou como fazer isso. Enquanto as notas históricas dele tentam desvendar onde foi que ele “mentiu”, as minhas servem para mostrar que todos estão mentindo.

Pretende participar do NaNoWriMo 2017? Escreveria o primeiro esboço de um romance novamente em apenas um mês?

Olha, eu participei do NaNoWriMo 2015 e escrevi o Gigante da Guerra. Foi uma experiência devastadora, de várias formas… Não sei se faria novamente, mas se o fizesse, dificilmente o faria com Chamas do Império. Os romances são longos demais para isso.

Falando sobre outros livros, você comentou numa outra entrevista que é um pouco pessimista quanto ao ser humano e que isso aparece um pouco em suas obras. Você se vê escrevendo um romance que transmita uma mensagem otimista?

Sabe aquelas notícias sobre “Nasa anuncia que o mundo vai acabar nesta quinta feira?” Isso pra mim é otimismo. Falando sério. Eu adoraria. Gostaria mesmo de conseguir escrever algo que transmitisse algo bom para as pessoas, mas sempre que tento algo assim me parece falso. É um ponto fora da minha zona de conforto. Quem sabe um dia?

Seu romance, O Gigante da Guerra, tem alguma relação o universo de Chamas do Império?

Ah! O gigante da Guerra!  Sim e não. Ele se passa no mesmo universo, mas acontece anos antes e numa região diferente do Império… Então temos as mesmas raças, a mesma sociedade, mas vemos a história toda por um outro prisma. Você não precisa conhecer um para entender o outro.

O Gigante da Guerra se passa uns vinte anos antes, no fim da Guerra das Almas… Com o Império em seu pior momento. Conta a história de dois jovens que não tem nada de aventureiros ou heroicos, tentando sobreviver tomando decisões muito difíceis. Acho que é uma fantasia mais perto do realismo mágico.

 

Li um artigo seu sobre Viver de Escrever. É um pouco raro encontrar autores brasileiros, em especial da literatura de gênero, que vivem de escrever. Isso é uma aspiração sua? Como vê esse caminho?

Acho que viver de escrever é ter mais tempo para escrever e isso é algo que todo autor deve desejar. Seria ótimo não ter que espremer a produção literária entre um boleto pago e outro, mas sei que isso é raro, praticamente impossível, então toco a vida. Não vou deixar de escrever, isso não vai acontecer, mas gostaria de ter tempo para que as coisas andassem mais rápido.

É um ciclo. Existe uma forma de sair deste ciclo, mas é complicado. Uma vez tive o prazer de conversar com o Ulisses Tavares, um autor da velha guarda que me explicou como ele vive como autor. O segredo era (pausa dramática): ele tinha na época 140 livros publicados.

UAU, 140!

Destes 140 livros, alguns vendiam bem, outros vendiam mal… mas eram 140 livros. Sempre tinha alguma coisa para receber. É a mesma lógica de uma editora, a tal da Cauda Longa. Ganhar um pouco de cada livro. Bom, para mim faltam só 139 agora.

[risos] Ótima perspectiva! Isso sim é otimismo. Bem, novamente, agradeço demais. Foi um ótimo bate papo!

Eu que agradeço. Acho ótimo falar com outro colega escritor. É sempre divertido.


Então pessoal, espero que tenham gostado. Abaixo separei alguns links úteis:

 

 

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O Castelo das Águias – Ana Lúcia Merege

Título: O Castelo das Águias
Série: Athelgard
Autor: Ana Lúcia Merege
Editora: Draco
Número de Páginas: 192

Mais um livro de fantasia no meu projeto de leitura de autores nacionais. É narrado por Anna de Bryke, uma jovem que aceita ser Mestra de Sagas, algo como uma professora de história, em uma escola de magia que tem como sede um lugar fantástico: O Castelo das Águias.

Conhecemos, aos poucos, a vida num pedacinho de Athelgard do ponto de vista inocente e um pouco inseguro da meio-elfa, Anna. Ela foi criada numa tribo de elfos e possui um padrão cultural bem diferente do existente nas cidades da Terras Férteis. Explorar esse choque cultural é um modo interessante de conhecer a ambientação e construir a personagem.

É um livro de fantasia com ritmo tranquilo e possui um clima leve, se comparado a muitas obras de fantasia medieval onde predominam heróis masculinos, guerras ou missões recheadas de conflito e violência. Essa leveza é justamente o ponto forte desta obra, pois apresenta uma visão mais próxima de atividades cotidianas que muitas vezes são deixadas de fora no caso de outras obras do gênero. Não costumo gostar muito de narração em primeira pessoa, mas a autora o faz com habilidade, dando uma voz autêntica à protagonista.

Retrata a jornada de adaptação e integração da protagonista num novo ambiente, em meio a uma disputa política sobre o “monopólio” da criação de águias guerreiras. É bastante curioso o fato da protagonista não possuir dons mágicos, ou outras capacidades especiais. Sendo assim, enfrenta muitos desafios usando de seu conhecimento histórico e também de alguma intuição, compaixão e sagacidade. Justamente por não ser uma personagem fisicamente poderosa, um aspecto interessante da obra e ver como ela trabalha em conjunto com outros personagens na solução dos problemas.

Sobre o cenário, vemos um tipo de magia bastante curiosa, que leva um pouco de tempo para se revelar. O conhecimento mágico do Mestre das Águias, e de seus discípulos, permite transformar temporariamente as águias em versões mais ferozes e belicosas, e ainda, comandá-las durante conflitos.  Estas águias vem sendo usadas pelas cidades aliadas das Terras Férteis como uma forma de reforçar suas guarnições.

É um livro curto, e que possui uma certa quantidade de personagens e informações sobre o mundo, que acabam ficando um pouco superficiais. Por outro lado, abre-se a oportunidade para conhecer mais sobre esse mundo nas sequências, visto que o belo mapa do mundo foi pouco explorado até então.

O livro continua em: A Ilha dos Ossos e A Fonte Âmbar. Espero ter a chance de lê-los, em breve.

Enfim, é um livro de fantasia com ritmo próprio, com um mergulho profundo na personalidade de sua protagonista, que possui romance, escrito de modo competente e que nos introduz ao mundo mágico de Athelgard.

Já está no mercado há um bom tempo, mas se ainda não o conhece, é uma boa pedida.

Conheça o site da autora:

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O Teatro da Ira (Chamas do Império) – Diego Guerra

Chamas do Império: o Teatro da Ira. São Paulo: Editora Draco, 360 páginas, capa Diggs (o próprio autor) e Camaleão.

“A coragem é o único caminho; o medo o único pecado”

Primeira coisa, uma das coisas me motivou a adquirir esse livro foi a arte de capa. Um trabalho belíssimo do ilustrador Camaleão. Ele saiu de minha fila de leitura, relativamente rápido, pois há muito tempo queria entrar numa série de leituras de livros de fantasia e ficção científica de novos autores brasileiros.

O Teatro da Ira é uma fantasia que segue a linha brutal, lembrando um pouco o tom da trilogia da Primeira Lei de Joe Abercrombie, com uma temática e linguagem adulta. Não se fixa num único protagonista, mas está centrado em torno do mercenário Jhomm Krulgar, um sujeito forte e bruto que vive à sombra de acontecimentos terríveis em sua juventude. Devo dizer que gostei bastante do personagem, o fato de ter sido criado com cães e sua natureza selvagem, lembrando um pouco personagens como Conan.

E até queria que ele estivesse mais presente… A inclusão de um elenco complementar de personagens, dos quais a trama dependia para avançar, chegou a me afastar um pouco da obra, em alguns momentos. A primeira metade do livro é constituída pela apresentação desses personagens, em alguns casos, aparentemente desconexos da trama, mas aos poucos as peças vão se juntando. Do meio até o final, a narrativa ganha um ritmo mais forte, fazendo o leitor querer virar as páginas.

O mundo criado por Diego possui magia, mas ela se manifesta de uma maneira não tradicional. Temos a personagem Thalla, filha de um rico comerciante e capaz de entrar nos sonhos das pessoas, influenciando suas motivações, uma coisa análoga ao que vimos no filme Inception. O outro tipo de magia mostrado é uma espécie de ilusionismo praticada por um mambembe errante chamado Ethron. Dão o nome a esta especialidade de teatro coen, presente na trama, e que acredito ter motivado a escolha do título do livro.

Falando sobre a composição do mundo, sabemos que há um império, mas que este enfrenta dificuldades para manter-se unificado. Há uma guerra ativa em sua fronteira norte, e ameaça de rebeliões nas províncias sulistas. Isto também é de importância para a trama, pois todos os personagens acabam convergindo para a cidade de Illioth, uma importante capital no sul de onde vem uma ameaça de rebelião.

Outro aspecto da construção de mundo, vem da existência de uma raça não-humana, os dhäeni (ou eldani, como eram chamados nas eras passadas). Em relação a estes, o livro discute o tema da escravidão e do que ocorre com um povo que foi escravo por muito tempo após sua abolição. O preconceito que permanece e a própria visão subserviente que possa ter se instalado naquela cultura. Os dhäeni, além de ex-escravos, são mágicos por natureza, realizando magia através de canções. Eles possuem o interessante conceito de unidade com o todo através do canto da Grande Canção. A pessoa que salva a vida de Krulgar, quando jovem, é um dhäeni chamado Khirk. É uma figura interessante, pois cometeu um tipo de crime contra sua cultura e perdeu a sua voz, tornando-se assim, um fahin, um dhäen que não consegue cantar em consonância com a Grande Canção. Há outros personagens dhäen que mostram a relação desumanizada, ainda cultivada pelos humanos em relação aos seres desta raça. O livro tem boas sequências de ação, em especial, algumas batalhas que ocorrem no meio do livro.

Mas deixa algumas pontas soltas, que talvez venham a ser explicadas nas sequências. O autor possui um prosa fluida, no geral, trabalhando bem sequências de ação e diálogo, mas achei que peca um pouco nas sequências descritivas, em especial em aproveitar-se disso para informar o leitor sobre a história e outros aspectos do mundo. Tais informações poderiam ser mais condensadas, ao meu ver, o que deixaria o ritmo de leitura mais fluido e ágil.

Quanto à finalização, acredito ser a melhor parte do livro. O escritor entrega um final convincente, com uma boa reviravolta, deixando o caminho aberto para outras obras. O que gostei, em especial, foi do capítulo do epílogo, no qual constrói uma perspectiva histórica da narrativa e é irônico notar como os historiadores criam uma versão não que não adere aos fatos narrados na estória (usando a forma antiga aqui para diferenciar de história). Já vinha suspeitando, durante a leitura de influências de Bernard Cornwell neste livro e o epílogo ajuda a pensar assim. Será mesmo? Seria uma boa questão para uma possível entrevista com o autor.

O balanço geral é que é um livro de fantasia épica bem construído, com alguns personagens interessantes, uma trama bacana, construção de mundo que evita um pouco os pontos comuns do gênero e que é uma obra notável considerando o cenário do gênero no Brasil. Fica minha recomendação.

Site do autor:
https://chamasdoimperio.wordpress.com/
Twitter:
https://twitter.com/ChamasdoImperio

Ilustração (completa) por Camaleão:
http://camaleao.artstation.com/projects/zNkGZ

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Série A Primeira Lei – O Poder da Espada, Antes da Forca e O Duelo dos Reis – Joe Abercrombie

Li essa série num espaço tão curto de tempo que deixar escapar o tempo de escrever resenhas sobre cada livro. Começa em O Poder da Espada, seguindo para Antes da Forca e conclui em O Duelo dos Reis. Vixe! Pirei com esse autor e essa série. Seja bem-vindo a mais um mundo de fantasia medieval, mas neste, tudo é mais sujo e brutal do que vemos em O Senhor dos Anéis, Crônicas de Nárnia, entre outros.

Tem uma narrativa veloz, clara, violenta e espirituosa. Um dos pontos fortes da série está na habilidade do autor de trabalhar seus protagonistas de modo a você se importar com o que vai acontecer com eles. Não apenas isso, a caracterização dos personagens (pelo menos alguns) é progressiva, como se estivéssemos descascando uma cebola à cada nova fase da estória, ou sobre o ponto de vista que uns personagens tem sobre os outros.

Outro aspecto interessante é a quebra de expectativa com determinados esteriótipos de personagens, por exemplo, há um mago poderoso no livro (o primeiro de sua ordem), seria comparável a Saruman, ou Gandalf, em O Senhor dos Anéis. Mas na prática, se mostra um personagem bem distante do esteriótipo de magos em estórias de fantasia, ainda poderíamos citar Merlin, Sparrowhawk (Earthsea), entre outros.

Temos a predominância de anti-heróis, alguns bons, mas brutais, outros maus, mas do tipo que você acaba gostando.

Nesta série, você vai conhecer alguns personagens memoráveis:

  • Logen Nove-Dedos, ou Nove Sangrento. Um bárbaro nórdico que ganhou uma fama de ser um guerreiro violento e implacável, mas que de algum modo tenta escapar disto durante a trama.
  • O Inquisidor Glokta, um ex-militar aleijado e amargurado que passou por torturas durante uma guerra. É cínico, inteligente e espirituoso, cruel, mas tem muitas surpresas para mostrar. (Foi um de meus personagens fictícios favoritos de todos os tempos)
  • Bayaz, o Primeiro dos Magos, um mago de tempos antigos que não se encaixa no esteriótipo esperado de mago sábio, mas sim no papel de alguém com forte inclinação para a política e manipulação.
  • Jezal dan Luthar, um jovem capitão do exército, bonito, egocêntrico e hábil espadachim. Seria um bom candidato a heróis nessa série, mas como comentamos, eles são raros por aqui. Até mesmo o mais simpático dos personagens pode vir a cometer alguma vilania numa circunstância de desespero. E não faltam situações desesperadoras para nenhum deles.

 

É claro que o elenco se estende para uma dúzia de personagens interessantes como Ardee West, seu irmão, Major West, os práticos Frost e Serverard, o Arquileitor Sult, Ferro Maljinn, um grupo de nórdicos bem notáveis (que não cito para evitar spoilers), entre outros.

Falando um pouco do aspecto de fantasia do livro, temos a magia, como algo raro e pouco demonstrado. Sua origem, dos tempos antigos, possui relação com o conceito que dá nome à série: A Primeira Lei. Fala-se um pouco na primeira e segundas leis, sendo elas ambas relacionadas com cuidados que feiticeiros devem tomar para não se envolver com o que poderíamos chamar de magia das trevas, ou do submundo. Em relação a criaturas fantásticas, as únicas que vamos ver por aqui são os Shankas, uma espécie humanoide peluda e disforme que faz, mais ou menos, o papel de Orcs em outras séries de fantasia.

Um dos temas discutidos na obra é a diferença entre o bem e o mal e busca pelo poder. A moralidade dos personagens é questionada e o leitor embarca na possibilidade de encarar isso pela perspectiva deles. E uma das hipóteses que vemos é que bem ou mal podem, afinal, depender apenas do lado em que você está num dado conflito. Em suma, vemos muitas lutas, guerras e conflitos, caminhando lado-a-lado com politica e conspirações.

A ação e lutas nos livros é bastante visceral. Não tem muita coreografia e coisas bonitas, a coisa toda é um bocado confusa (até mesmo caótica), perigosa e sangrenta. Uma das coisas interessantes é que mesmo com personagens tomando ações cruéis, você se vê ainda gostando deles.

Um ponto a se questionar na série é a capacidade dela de resolver todos os conflitos e temas apresentados. É um fato que tudo termina e nem todas as respostas são dadas, nem todos os problemas são solucionados, como vemos tipicamente em muitos outros livros/autores. Acho que vale um questionamento. Um livro tem que responder a todas as perguntas e resolver todos os problemas em seu final? Bem talvez, não. Gostei muito da série a despeito desta característica, mas não posso afirmar que todos vão ter essa mesma leitura. É um livro mais do tipo, apreciar a jornada, do que chegar ao objetivo final. Ainda sobre o aspecto da trama, há alguns pontos previsíveis, mas em compensação, muitas reviravoltas um tanto imprevisíveis, o que adiciona um pouco mais de tempero no conjunto da obra.
Somando tudo isso, se você está um pouco cansado(a) de estórias de fantasia com finais felizes, e belos heróis e heroínas, “lordes do mau” que são vencidos pelos heróis, essa série pode vir a agradar bastante, visto que também consegue escapar de muitos esteriótipos que vemos nas estórias do gênero.

Para quem já leu e gostou, pode descobrir mais sobre o autor em seu site: http://www.joeabercrombie.com/

Existem mais três livros que se passam no mesmo mundo desta série que ainda não foram lançados no Brasil:

  1. Best Served Cold (2009)
  2. The Heroes (2011)
  3. Red Country (2012)

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Trono de Vidro – Sarah J. Maas

Sempre que eu passava na livraria, dava uma olhada naquela capa eu pensava: “Parece bom, uma hora eu compro para ler”. Então, consegui uma cópia do livro e… Primeiro, o livro tem uma premissa legal: “A maior assassina do reino, presa nas minas de sal tendo uma chance de ganhar sua liberdade de volta num tipo de torneio até a morte…” Dá para animar, né?

Então Calaena Sardothien  é retirada das minas de sal e levada para a capital para se instalar num castelo que sofreu uma reforma para se tornar um castelo de vidro. É cercada por dois charmosos pretendentes, o príncipe e o capitão da guarda. Bem, o romance e diálogos divertidos e uma pitada de mistério são os pontos fortes do livro. E boa parte da trama fica em torno disto. Mas a construção do mundo e sensação de verosimilhança que a autora dá à ambientação e a trama em si é fraca.

A narrativa não é de todo ruim, dá até para gostar mais ou menos dos personagens e até mesmo a parte do romance, mas a execução do livro fere demais algumas ideias básicas de sua premissa. No final das contas, Calaena Sardothien não convence como a mais notória assassina de Adarlan. Afinal, o que ela fez para merecer esse título? A ação no livro é boa, mas tardia. Só aparece próximo ao final. Para aqueles que buscam mundos de fantasia coerentes, talvez não fiquem muito felizes com este livro.
É um típico livro do tipo ame ou odeie. A despeito do que disse, nem amei, nem odiei. Mas não é nada memorável e não me deu vontade de continuar lendo a série. E vou ficar por aqui, sem muita animação para elogiar ou “descer a ripa”.

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O Espadachim de Carvão – Affonso Solano


Bem, eu cheguei a esse livro às cegas, sem nenhuma indicação e nenhuma informação a respeito. Sua descoberta foi uma ótima surpresa!

Se prepare para adentrar num novo mundo povoado por estranhas criaturas e deuses nada convencionais. O Espadachim de Carvão nos apresenta Adapak, um jovem semi-deus do mundo de Kurgala. Ele é um ser singular e um guerreiro de habilidade incomparável, mas também um sujeito inteligente e inocente.  Ele apendeu muito sobre o mundo em livros, mas viveu a maior parte de sua vida isolado da civilização.

Agora, teve que abandonar seu lar e está sendo perseguido por assassinos e não tem a menor ideia do porquê eles o perseguem. Tudo que eles dizem é uma palavra que para ele não tem sentido: Ikibu.

A primeira vista, parece tratar-se de uma estória de fantasia, mas ao longo da leitura, vão surgindo algumas dúvidas a este respeito e, mesmo havendo um forte sabor do gênero espada e feitiçaria (sword and sorcery) na obra, surgem sugestões de explicação fora do ramo sobrenatural para o mundo de Kurgala, seus deuses, povos e magia. Então, como o livro não entra em detalhes quanto a estas explicações, senti que ele mais se aproxima do gênero romance planetário, ou seja, um romance de ficção científica cuja parte científica fica em segundo plano. Algo como O Planeta dos Dragões, de Jack Vance.

É um livro recheado de muita ação, com cenas de batalhas bem descritas, com um toque cinematográfico. É também um thriller de mistério, no qual, ao mesmo tempo que Adapak é perseguido, precisa desvendar alguns mistérios… Como seus assassinos sempre o localizam? Quem quer sua cabeça? Etc.

Que sorte que há humanos em Kurgala, pois eles são a única âncora para que possamos nos localizar e imaginar esse mundo repleto de raças inteligentes e animais fantásticos. Nekelmurianos, gisbarianos, usharianianos, etc, são muitas raças exóticas (com nomes exóticos) que convivem neste mundo, e como somos apresentados a muitas raças, em alguns momentos, me senti um pouco perdido e com dificuldade para imaginar, nada que prejudique o global, é claro. O tipo do livro que deveria vir acompanhando de um atlas, ou bestiário.

Tem muitos personagens secundários interessantes, mas a aparição e permanência deles na narrativa é um pouco curta… Quando estamos começando a gostar deles, lá se vai Adapak para outro canto… Do ponto de vista de temas, é notável a crítica a respeito de drogas e prostituição, vistas do ponto de vista inocente do protagonista. Acho que o aspecto que mais gostei neste livro foi o uso de metalinguagem. Adapak passou boa parte de sua infância lendo livros dados por seu pai, o deus Dingirï, Enki’När. Entre estes, havia livros de aventura que só conhecemos os títulos e algumas alusões, as aventuras de Tamtul e Magano. Os títulos destes livros imaginários já valem o livro… Fiquei viajando imaginando essas estórias.

  • Tamtul e Magano contra a ampulheta da Rainha Estátua;
  • Tamtul e Magano contra o terror do abismo vermelho;
  • Tamtul e Magano em busca da torre invertida;
  • Tamtul e Magano e o elmo do imperador sorridente;
  • Tamtul e Magano contra o gigante de vidro;
  • Tamtul e Magano contra a ampulheta da Rainha Estátua;
  • Tamtul e Magano contra o olho de Pht’Angü;
  • Tamtul e Magano contra o terror do abismo vermelho;
  • Tamtul e Magano e o tesouro da ilha submersa;
  • Tamtul e Magano contra a ameaça de Rumbaba;
  • Tamtul e Magano e os muros da fortaleza de areia.

Não gente, fala que não é o máximo?

No frigir dos ovos, é um livro legal sim, principalmente pela originalidade. Mas é um pouco rápido demais e em alguns momentos senti falta de descrições melhores, tanto dos personagens como dos cenários. Um bom livro de estréia. Descobri agora que saiu uma continuação, então espero que autor apresente alguma evolução em seu texto para que seja uma obra mais “redondinha”.

Enfim, se você está em busca de uma aventura diferente, com mitologia própria, ação, mistério, narrativa contemporânea, seu livro é O Espadachim de Carvão, livro de estréia do escritor Affonso Solano.

Veja mais no site do livro: http://espadachimdecarvao.com/

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O Lorde Supremo – Trudi Canavan

Capa O Lorde SupremoBem, chegamos à conclusão desta saga! Em O Lorde Supremo vemos mais ação, suspense romance e alguma tensão. Gostei dos personagens em geral, mas tive um pouco de dificuldade com Cery. E isso deu uma tônica ao livro, alguns capítulos foram estimulantes enquanto outros um pouco lentos. Como sempre, vai chegando o final de uma série e fica um pouco difícil falar sem introduzir spoilers, mas vamos lá!

Sim, de acordo com o título do livro vamos ver muito mais sobre Akkarin, o Lorde Supremo neste livro. Os assassinatos em série continuam a acontecer em Imardin e em torno disto a trama se desenvolve.

A conclusão da trama não decepciona muito. A possível batalha em maior escala entre magos vem a acontecer e é um dos pontos interessantes, pois permite ver mais da visão da autora sobre o impacto na sociedade da existência de magia e magos.

Em alguns momentos a autora perde o senso de urgência e descreve possíveis desdobramentos das ações de vários personagens que não são essenciais para o enredo central. Muitos leitores desejam grande objetividade quando se trata de trama, mas por outro lado, é possível conhecer mais sobre esses personagens quando o autor faz tal opção.

A autora explora um relacionamento gay no livro, mas de algum modo o tratamento é desigual em relação aos relacionamentos heterosexuais presentes no livro. Acho que isso pode incomodar algumas pessoas, mas acho que entendo por que ela deixou os detalhes do relacionamento gay de fora.

Tá longe de ter sido uma série favorita, muitos aspectos deixaram a desejar, em especial a camada política da estória, mas gostei de alguns aspectos quanto ao funcionamento da magia e seu impacto na ambientação do livro.

Recomendo esta trilogia para quem gosta de fantasia, protagonista feminina, romance e ambientação com presença intensa de magia.

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Rainha da Tempestade – Marion Zimmer Bradley

A RAINHA DA TEMPESTADEQuando eu era moleque, li o primeiro livro da série Darkover, chamado A Chegada em Darkover. Essa é uma série de livros, com mais de 15 títulos, muito famosa que mescla ficção científica com fantasia. Também é considerado como do subgênero Romance Planetário. A premissa da série advém da colonização acidental deste planeta, que orbita uma gigante vermelha e tem quatro luas, por humanos. Muitos anos após a colonização, o uso de tecnologia se torna mais restrito e a sociedade entra num período feudal, com existência de guerras e disputas de famílias nobre sobre diversos feudos.

A Rainha da Tempestade se passa mil anos depois da chegada dos humanos e sua trama gira em torno de duas figuras principais, Allart, um dos principais herdeiros da mais forte família Hastur e Dorilys, uma menina-moça, herdeira do domínio de Aldaran e que possui fortes poderes psíquicos aqui chamados de laran.

Allart possui o laran da presciência e é atormentado por ele. Outra coisa que o incomoda é o programa de reprodução coordenado pelas leronis a fim de perpetuar e ampliar a existência dos poderes psíquicos nas linhagens nobres. Ao lado de Allart surgem outras figuras femininas fortes como Cassandra e Renata, também portadoras de laran. Já Dorilys é uma jovem voluntariosa que luta contra a maldição de seus próprios poderes. Personagens femininos fortes são uma característica conhecida das obras da autora, como por exemplo a série As Brumas de Avalon.

Como temas dominantes vemos a questão do sexismo, sexualidade, mau uso da tecnologia, orgulho, amor e submissão. É uma obra que se aproxima mais de fantasia do que de ficção científica. A própria questão dos poderes psíquicos e da super-ciência tornam a parte científica mais parecida com magia efetivamente.

Os conflitos internos nos personagens, algumas reviravoltas no enredo e algumas questões interessantes da ambientação tornam a leitura do livro agradável prendendo a atenção do leitor. Não é exatamente um livro de aventuras, apesar de haver alguma ação, de maneira que ficamos focados no desenrolar da trama dentro da temática explorada. Ao tempo todo, ficamos na expectativa de um desenrolar trágico se se confirma em alguns casos e em outros não.

Voltar a ler essa série foi bom e despertou a curiosidade para ler os demais livros. Um aspecto que parece interessante na série é que o fato dos livros funcionarem como estórias independentes e serem agrupados por eras, como a Era do Caos, Os Cem Reinos, Reencontro, etc.

Enfim, Rainha da Tempestade é um livro já um pouco antigo(1978), escrito por uma autora consagrada e que apresenta uma mistura de fantasia com ficção científica, trama interessante, personagens fortes, locações que estimulam a imaginação e a discussão de alguns temas presentes nos conflitos de poder que vemos em nossa sociedade.
Vale a leitura, recomendo!

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O Código Élfico – Leonel Caldela

Código ÉlficoSanto Ossário, a cidade para onde todos voltam, uma pitoresca cidadezinha brasileira de interior, chega a ser um personagem na trama ousada delineada pelo autor em O Código Élfico. Digo ousada, por que não é todo dia que nos deparamos com a mesclagem de gêneros e temas que Leonel empreendeu para constituir este romance. Talvez a mais relevante seja a ideia de mesclar fantasia de origem estrangeira (no caso nórdica) num pano de fundo de brasilidade, algo que é possível encontrar na literatura de cordel, ou na série de Roberto Sousa Causo, a Saga de Tajarê. Mas o Código Élfico não se enquadraria no gênero borduna e feitiçaria, tampouco espada e magia. De algum modo, lembra uma das séries de Michael Moorcock, The Dreamthief’s Daughter, The Whitewolf’s Son e The Skraeling Tree. Nela, um dos personagem clássico de histórias de espada e magia, Elric visita a terra através de Ulric Von Bek, e por exemplo, há uma batalha entre uma revoada de dragões montados pelos lordes de Melninbonè contra esquadras de aviões da Luftwaffe durante a segunda guerra mundial. Em o Código Élfico, vemos elfos montados em grifos combatendo helicópteros Apache, Black Hawks e aviões bombardeiros.

A mesma vibe.

Aliás, definir o gênero do livro é um pouco desafiador, pois ele varia ao longo do livro. Em alguns momentos, predomina o horror, em outros, há uma pitada de sátira envolta no uso de meta linguagem de filmes e da própria ficção literária. Em outros, há um tom de narrativa oriental, zen-budismo e momentos “filosóficos”. Ali na esquina, estamos beirando o gênero de super-heróis, com socos que arremessam inimigos a vinte metros de distância e monges que provocam tufões arrasadores soprando automóveis e outras coisas. Há também uma pitada de fantasia e magia, aqui e ali, e mesclagem com alta tecnologia, engenharia genética e outros bichos. Sei lá, algo como salada fantástica horrorífica à brasileira. Ou talvez, simplesmente New Weird (mas confesso que entendo pouco deste gênero).

 Não foi um livro fácil de ler, pois durante quase todo desenrolar da trama algo ficava faltando para dar liga e transformar o livro num “virador de páginas” (aqueles que não conseguimos parar de virar as páginas). Não digo com isso que o livro seja ruim, na verdade, há muitos elementos nele que me agradaram. Vamos a eles. (mais…)

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