Elric – O Trono de Rubi

Estava ansioso por colocar as mãos nesse quadrinho. É, de fato, uma bela edição e trás ninguém menos que Elric, o anti-héroi albino de quem aprendi a gostar tanto lendo os livros de um de meus escritores favoritos, Michael Moorcock.

Retrata o conflito entre Elric, o último imperador de Melniboné, e seu primo Yyrkoon, que inveja seu trono e deseja tomá-lo para si. Elric é albino e excêntrico de seu próprio modo e na percepção do primo, não possui a índole cruel e impiedosa dos melniboneanos. Melniboné é um império antigo, cujos dias de maior glória estiveram no passado e que, como muitos impérios, caminha para uma fadada e inevitável dissolução. Este povo sempre serviu aos senhores do Caos. O confronto eterno entre Caos e Ordem é uma das temáticas prevalentes na obra de Moorcock, podemos vê-la nas sagas de Dorian Hawkmoon, do príncipe Corum e de Erekosë. Sendo estes algumas das encarnações múltiplas do Campeão Eterno, um aspecto do monomito presente nas obras de Moorcock.

 
Realmente esta HQ é a melhor já feita até então. A parte visual da obra é mesmo incrível e o roteiro adaptado é competente, traduz visualmente muitos conceitos tratados na obra original de Moorcock. Ainda assim, talvez por excesso de expectativa, não senti que foi uma obra soberba. De algum modo, não foi possível transferir para a narrativa em HQ algo da atmosfera de Melniboné, o reino de Elric, e tão pouco nuances de seu protagonista.

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O Mundo de Edena – Moebius

Não é todo dia que você põe as mãos num trabalho que pode chamar de obra prima. Não, não disse que esse livro é a obra prima de Moebius, até porque ainda não li nem metade da obra dele, mas certamente é uma de suas obras primas, uma coisa maravilhosa de se ver e com uma história tão louca que que deixa surpreso quanto aos limites que a imaginação humana é capaz de explorar.

Antes de entrar na obra em si, cabe falar um pouco sobre o autor, Jean “Moebius” Giraud. Foi um artista francês que trabalhou com quadrinhos e também cinema. Começou sua carreira desenhando um faroeste chamado Blueberry poduzido em parceria com Jean-Michel Charlier. Sua obra de maior reconhecimento, O Incal, foi feita em parceria com Alejandro Jodorowsky. Graças a Editora Nemo, temos acesso a algumas de suas obras aqui no Brasil, como Azrach, As Férias do Major, Caos e a série completa O Mundo de Edena em seis volumes.

Dito tudo isso, vamos dizer que o volume encadernado The World of Edena editado pela Dark Horse é um objeto bonito e bem acabado. Possui 360 páginas e reúne as histórias: Na Estrela, Os Jardins de Edena, A Deusa, Stel e Sra . A saga de Stel e Atan não foi algo planejado inteiramente pelo autor do início ao fim e também, não foi concebida e desenhada num único período. Há um elemento de caos proposital que é marca do autor. Tivemos a chance de acompanhar uma espécie de epílogo à obra na edição da Nemo, no volume 6, Os Consertadores, 54 páginas.

Moebius é um mestre na construção de personagens e ambientes exóticos. Em Edena, uma dupla de técnicos/mecânicos Stel e Atan, seguem uma estranha pista para uma ampla estação espacial que foi completamente evacuada. A jornada da dupla é longa e após superar alguns obstáculos eles chegam ao mundo de Edena, um planeta lendário no centro do universo no qual há uma natureza exuberante, mas estranha, e que faz referência ao mito do Jardim do Eden e Adão e Eva, porém dentro do contexto da ficção científica. Em Edena, Stel e Atan enfrentarão muitas transformações e provações ao entrar em contato com sua natureza íntima e também descobrir a esquisita civilização do Ninho dirigida pela figura conhecida como Paternum.

 

O livro é uma jornada visual, mas também existencial. Questiona alguns aspectos de nossa civilização e de seus indivíduos. Difícil não pensar em como nós mesmos somos criados e condicionados a viver dentro de um conjunto de sistemas: de moral, de crenças, de nações, econômicos e sociais. Como cada um de nós, em potencial, se abriga usando máscaras para se proteger do sistema, ou mesmo, para nos fundir ao sistema de modo quase robotizado e irracional. Assim com a sociedade onde vivem os estranhos Pif-Pafs.

Sinceramente, vale mais ver algumas imagens que selecionei da obra, do que continuar lendo qualquer texto meia-boca que eu consiga elaborar. 😉

 

 

 

 

 

 

 

 

 

P.S.: Você gosta de desenhar? Escrevi um artigo contando um pouco sobre como aprendi e comentando sobre um curso legal que encontrei na web.

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Ascensão – Bruno Crispim

Bruno Crispim é um jovem autor, cujo primeiro romance, O Segundo Caçador, foi premiado na terceira edição do prêmio UFES de literatura. Ascensão é seu segundo romance.

Acompanhamos a trajetória de Miguel, um médium que ajuda os espíritos de pessoas que acabaram de morrer a aceitar o fato de que morreram e seguir por uma boa trajetória no plano espiritual.

Miguel está na pior, mora num muquifo, não tem dinheiro para o aluguel, está desempregado, maltrapilho, bebe cachaça e está desesperado. Sua única posse é o velho Fusca que pertenceu a sua mãe que não consegue vender por motivos sentimentais.

Lendo o obituário do dia, decide ir ao cemitério para tentar conduzir a alma de uma adolescente rica, na esperança de falar com os pais dela e obter alguma gratificação. Aí que toda trama começa. Miguel conhece o espírito de Darla, uma adolescente de personalidade forte e que se mostra o maior desafio que Miguel já encontrou.

O tema de início, pode não parecer muito inovador ou estimulante, mas o autor compensa isso com seu estilo de escrita que inclui, discurso sucinto e forte, capítulos curtos, um mergulho profundo nas personalidades dos personagens que vão aparecendo ao longo da trama.

A linguagem do livro está mais para adulta, mas acredito que pode ser lido sem maiores problemas pelo público adolescente.

Em relação a temas, temos uma discussão interessante a respeito do suicídio. Tal tema está precisando de fato de mais visibilidade de um modo a trazer mais consciência para as pessoas a respeito. Inclusive a abordagem do tema, considerando o lado espiritual é feito de uma maneira muito interessante e que traz reflexão e até emoção. Li o livro sem maiores expectativas e me surpreendi positivamente de três modos: achei a forma de construção e envolvimento dos protagonistas muito bem feita e envolvente, achei que o livro contrasta algumas questões bem cruas com momentos de muita emotividade que realmente evocaram emoções em mim, como leitor. E terceiro, o livro possui um plot-twist (surpresa no enredo) muito bem bolada e realmente surpreendente.

Outro tema que gostei de ver na obra é o contraste de crença/descrença em relação a questões de espiritualidade. Tanto da questão mais abrangente entre ateus e pessoas de religião, como também contrante entre crenças religiosas, no caso evangélica-católica/espírita.

O autor é habilidoso também na construção de vozes dos personagens. Mesmo o livro sendo narrado em primeira pessoa, o que em geral me incomoda como leitor, ele consegue traduzir não só a voz do narrador, mas também dos outros personagens. E no fim das contas, a escolha da narrativa em primeira pessoa acabou se mostrando essencial à construção da trama do livro.

Uma última ressalva é que o leitor tem que estar preparado para se surpreender com a história. Talvez o fato do livro conter algumas surpresas, seja um ponto que possa desagradar alguns leitores. Ainda assim, achei o livro realmente muito bom e especial. Classificaria como fantasia urbana, mas devido à temática e reviravoltas, alguns leitores (de crença espiritualista) poderiam não considerá-lo tão no gênero fantasia assim… Ascensão daria um bom filme e é um ótimo romance para aqueles que buscam conhecer jovens autores dessa nova geração.

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A Ilha dos Ossos – Ana Lúcia Merege

É bem difícil escrever resenhas de continuações sem dar spoilers dos livros anteriores. Então, se não quiser absolutamente nenhum spoiler, melhor não ler…

É o segundo livro da trilogia que introduz o mundo mágico de Athelgard. Temos uma nova aventura agora protagonizada por Kieran, o Mestre das Águias, que conhecemos no livro anterior, O Castelo Das Águias. A troca do narrador feminino (Anna de Bryke) para um masculino dá outro tipo de energia à série. (O spoiler é: sabemos que Kieram não morre no primeiro livro, mas ok, ele está na capa). 

É uma história típica de busca, na qual Kieram terá que enfrentar inúmeras dificuldades para conseguir resgatar alguém muito querido. O maior problema de Kieram é um juramento que fez e que o atrapalha de cumprir sua busca. Esse juramento do protagonista mostra o quanto ele é fiel à sua própria palavra e, ao mesmo tempo, é um pouco difícil de assimilar. Somente um fanático daria mais valor à sua palavra do que à chance de salvar a vida de alguém querido. Bem, fora este detalhe, é uma aventura na qual o leitor começa a conhecer o mundo fora do próprio Castelo das Águias e da cidadezinha próxima, as únicas localizações detalhadas no primeiro livro.

É também uma jornada marítima, passando em lugarejos como a Aldeia dos Juncos e Bulforg, e cidades como Bradannen. Uma história cheia de navegantes e piratas. Nesta aventura vemos um pouco mais do que um mago experiente é capaz de fazer, mas Kieran não cai no estereótipo de mago fisicamente frágil, ele é um ex-soldado e tem gosto por resolver muitas questões usando suas espadas.

Mesmo tendo mais ação e um pano de fundo tenso, a narrativa não tem ênfase na violência, apesar de discutí-la, em algumas passagens, de modo interessante. Há uma discussão entre Anna e Kieram, em particular, que explora a questão da violência contra a mulher e a diferença de visão que homens e mulheres podem ter a respeito. Gosto, de modo geral, de como a autora posiciona as personagens femininas na trama, de modo semelhante que a autora Marion Zimmer Bradley faz em suas obras, como por exemplo, a protagonista de A Dama do Falcão, da série Darkover, ou mesmo Ursula K Le Guin, com Tenar em As Tumbas de Atuan

A narrativa ter um ritmo próprio, até meio lenta em algumas passagens, semelhante ao que vimos em O Castelo das Águias. Próximo ao desfecho, surge um elemento de interesse: um misterioso corvo. E é relacionado a este que vemos o desfecho da obra, possivelmente abrindo um novo gancho para o que veremos na continuação da série. Fica minha recomendação para a série, se ainda não leu, e também para este segundo volume.

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Dezoito de Escorpião – Alexey Dodsworth

Devo confessar que ainda conheço muito pouco do que existe de Ficção Científica escrita por autores brasileiros. Dito isto, penso que Dezoito de Escorpião é um dos livros de FC mais ambiciosos entre os nacionais e que me deixou uma forte impressão.

O livro narra a jornada de Arthur, um jovem estudante de história que é atormentado por uma doença que todos os médicos falham em diagnosticar, mas que se manifesta por súbitos surtos de dor. Assim como ele, vemos alguns outros jovens problemáticos como Martin e Lorena também possuem uma condição que os levará a se envolver na trama principal do livro.

Outro personagem que surge já no início dando um tom de mistério para o pano de fundo da trama é o Doutor Ravi Chandrasekhar membro de uma organização conhecida apenas como Areté, aparentemente um grupo de pessoas muito preocupada com determinadas descobertas astronômicas, assim como logo se vê, interessados também em jovens como Arthur, Martin e Laura.

Então quando Ravi se encontra com Arthur e propõe explicações para sua condição, que a trama começa a se desenrolar. Valendo notar que

Torna-se um pouco difícil penetrar nos temas abordados no romance sem enveredar pelo caminho dos spoilers, e vemos no livro alguns temas existentes na ficção científica tais como exploração espacial, poderes psíquicos e transumanismo. Um aspecto interessante da forma que o romance foi construído é que novos temas vão sendo introduzidos em camadas ampliando a complexidade da trama. Acredito até que a quantidade de temas foi ligeiramente excessiva, podendo em algum momento sobrecarregar o leitor com tantos assuntos. Não obstante, a trama, após uma introdução contando com múltiplos pontos de vista, segue um rumo mais linear em torno da trajetória de Arthur. Outro aspecto que pode deixar o leitor um pouco frustrado é o fato de nem todos os acontecimentos da trama serem explicados, mas o autor explica que o leitor poderá matar, em parte, sua curiosidade lendo o romance relacionado O Esplendor (que está aqui na minha fila de leituras).

Vale advertir que o tom do romance é um tanto sombrio, contendo algumas passagens de violência física e psicológica. Frente a isso, recomenda-se para leitores mais maduros.

Alexey Dodsworth tem um prosa bem consistente e consegue construir personagens interessantes críveis. Além da ousadia na seleção de temas, e construção da trama, é um romance que mostra as qualidades que o levaram a conquistar o Prêmio Argos em 2015.

Uma coisa que gostei na leitura, foi o fato de ter tido umas duas ou três surpresas, ou mesmo, inversões de expectativas. Outra coisa legal é que o autor ancora boa parte das premissas dos aspectos de ficção científica em fatos (muitos para mim desconhecidos) que podem ser verificados e estudados pelo leitor. O próprio autor encoraja o leitor a pesquisar a respeito das referências por ele selecionadas. Isso constitui um outro ponto positivo da obra que é estimular o leitor a aprender algumas coisas novas. Somado a isso, o tipo de final do livro, em aberto, mergulhado na ambiguidade, convida o leitor a exercer sua imaginação.

Fica minha recomendação para a leitura dessa obra instigante e que mostra alguns bons aspectos do gênero de ficção científica.

 

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O que rolou por aqui em 2017

Olá pessoal,

Esse foi um ano movimentado para mim. Ainda assim, consegui manter o blog e minhas atividades de escrita num nível razoável.

Artigos no blog

Este ano, publiquei 12 resenhas, sendo 8 de autores nacionais. Acho que foi um record na parte dos nacionais. Para o ano que vem, pretendo ler muitas obras de ficção especulativa de autores brasileiros e também, fazer algumas entrevistas. Publiquei três entrevistas, sendo duas traduções (Joe Abercrombie e Joseph Delaney) e uma feita por mim com o autor Diego Guerra. As resenhas:

Guerra do Velho foi meu livro preferido entre estes, mas também destaco Neon Azul.

Atividades como escritor

Escrevi este ano uma nova noveleta e cinco contos. Dei um pouco de continuidade em romances (inacabados) e publiquei pelo Wattpad cinco novas obras. Ganhei um prêmio pelo conto do Homem-Café no Wattpad. Além disso posso comemorar mais de 45 mil leituras do conto e 15 mil do também premiado romance Olhos Negros. Obras:

Ah, escrevi o roteiro para HQ e estamos elaborando um projeto para financiamento coletivo bem legal para 2018!

Falando em roteiro para HQ, fui contratado por um dos autores mais bem sucedidos em ficção científica do Wattpad para fazer uma adaptação de romance para HQ. O trabalho ainda está em andamento, mas estou muito animado com os resultados.

Outros

Os livros da Trilogia do Novo Elo ganharam novas capas esse ano. Fiz também algumas ilustrações e capas de livros para autores do Wattpad.

Também tirei um tempinho para escrever uns poucos artigos para o site Mega Hero.

É isso, foi um ano muito bacana. Esperando que em 2018 tenha condições de continuar lendo, escrevendo e mantendo este blog. Valeu para quem acompanha e um feliz 2018!

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Coração de Aço – Brandon Sanderson

Finalmente voltando a ler um de meus escritores favoritos! Brandon Sanderson não decepciona, apesar do livro não ter sido um dos meus favoritos. É uma romance de fantasia voltado para o público jovem adulto.

Coração de Aço é um super-vilão implacável, líder de uma gangue de humanos super poderosos que se auto proclamou governador da cidade de Nova Chicago.

O livro é o primeiro de uma trilogia que sai no Brasil pela editora Aleph.

O mundo mudou depois do aparecimento nos céus, da estrela vermelha que foi batizada como Calamidade. Após seu surgimento, algumas pessoas ao redor do mundo devolveram poderes, porém, todos os que experimentaram tal poder eram corrompidos usando-os apenas para o mal.

Neste cenário, conhecemos David, um jovem que perdeu o pai quando criança e viu que Coração de Aço podia ser ferido. Ele é um jovem adulto que se dedicou a estudar as fraquezas dos vilões e agora deseja integrar uma equipe que se dedica a matar super poderosos, também conhecidos como Épicos.

O livro é descrito em primeira pessoa e David é um protagonista inseguro e um pouco engraçado na medida em que descreve tudo com metáforas horríveis. É também uma história de super-heróis e adere bem a alguns aspectos do gênero, mas realmente havendo um toque sombrio na realidade criada pelo autor.

O narrativa evolui em torno de três aspectos, cenas de ação e perseguição, o desvendar de um mistério (qual a fraqueza de Coração de Aço) e o desenvolvimento do relacionamento de David com os Executores. Há um aspecto de grande desafio e adrenalina persistentes, uma vez que vemos um grupo de humanos normais lutando contra seres super poderosos.

O livro tem um desfecho satisfatório e dá ao leitor uma experiência de imaginar e vivenciar um mundo parecido com o nosso no qual a presença de seres super poderosos faz tudo se converter num pesadelo. Mesmo não sendo um de meus favoritos é uma boa pedida.

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Guerra do Velho – John Scalzi

Sério, há muito tempo não lia um livro de ficção científica tão bom quanto esse. Uma palavra me veio à mente antes do final da leitura: elegante.

É de fato, uma obra escrita de forma elegante. O autor tem ótimo domínio da apresentação dos personagens e elementos da trama. Consegue fazer uma ótima progressão, daquele tipo que você quer realmente ler o próximo capítulo. Usa alguma dose de humor e quebra de expectativas, enquanto brinca com clichês do gênero.

Bem, mas vamos dar um passo atrás e falar um pouco sobre o assunto do livro. Guerra do Velho é um romance de ficção científica militarista com a seguinte premissa: as pessoas que se alistam para as forças armadas, na Terra, o fazem aos 75 anos de idade, com a promessa que seus corpos serão rejuvenescidos para ter condições para servir às Forças de Coloniais de Defesa.

Neste contexto, conhecemos John Perry, um idoso, civil, viúvo, que se alista para ingressar nessa nova etapa de vida. John tem uma personalidade cativante e faz o papel daquela pessoa que não sabe nada sobre o que vem adiante, a ajuda o leitor a descobrir, aos poucos, a realidade deste universo fictício. Neste aspecto, o autor é quase didático em muitos pontos, mas acaba sendo uma ótima estratégia para fazer o leitor aprender e se envolver com o universo ficcional.

As pessoas da terra sabem pouco sobre o que se passa no espaço distante, onde a humanidade vem estabelecendo colônias. Sabe-se que há conflitos com alienígenas, e não muito mais que isso.

Veladas sobre o cenário fantástico, estão algumas críticas sociais em relação às guerras e, em especial, quanto a como somos preconceituosos e as consequências ruins que o preconceito pode trazer.

Acho que não cabe falar muito mais, porque boa parte da graça do livro é o processo de descoberta e envolvimento com a trama. Não é nem longo e nem curto demais, outro excelente ponto a favor para um primeiro livro de uma série. É ótimo que tenha continuações, mas não é o tipo de livro que termina pela metade, conta uma história completa deixando espaço aberto para as sequências. É uma ficção científica permeada por humor cativante e que poderá agradar até mesmo pessoas desacostumadas com o gênero. Fica minha recomendação deste excelente livro com cinco estrelinhas.

 

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Lobo de Rua – Jana P. Bianchi

Este é um livro curto (novella*). Conta a trajetória de um garoto de rua de São Paulo que se descobre afetado pela maldição da licantropia. Um garoto duplamente azarado, primeiro por ser miserável e segundo por adquirir uma maldição bastante dolorosa.

No universo fantástico da autora, já existem lobisomens a incontáveis gerações e algum conhecimento sobre eles é reunido por estudiosos do assunto. No início de cada capítulo há um trecho da obra Novus Codex Versiopelius de um desses estudiosos, Caetano Estrada. Essas pitadas de conhecimento sobre a maldição ajudam o leitor a construir a visão deste mundo alternativo, e também dão uma prévia dos próximos temas que serão abordados.

O livro traz algumas ideias próprias que diferenciam o que conhecemos sobre lobisomens no folclore das criaturas que habitam esse mundo. Isso, junto com uma versão bem brasileira dos fatos, ajudam a dar um frescor especial para o livro.

A trama gira em torno do garoto Raul, que está sofrendo com suas primeiras transformações durante as luas cheias, e Tito Agnelli, um lobisomem experiente que resolve ajudá-lo. O livro consegue passar muito bem a mensagem do porquê a licantropia é chamada de maldição.

A trama segue em torno da dupla, mas há alguns personagens, como a cigana Soraia, que se inserem na trama ajudando-a a avançar.

A autora explora bem os sentidos para construir a ambientação e situações, e para mim, o ponto mais forte da obra é sua prosa muito fluida que faz o livro ser lido facilmente. É um livro certamente sombrio, com uma qualidade brutal e pode ser visto como uma fantasia urbana brutal. Vale notar que com a presença de poucas personagens femininas.

Talvez, o que não gostei tanto, foi o próprio desfecho. Certamente surpreende, mas não correspondia à expectativa que foi sendo construída ao longo da trama.

Ainda assim, deixo a minha recomendação. É de leitura rápida, bem escrito, faz uma boa adaptação do mito do lobisomem para a realidade brasileira e gera uma curiosidade quanto a elementos que poderão vir a ser expandidos se forem publicadas mais obras neste mesmo universo ficcional.

*Novella: livro com tamanho entre  17.500 e 40.000 palavras.

 

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Neon Azul – Eric Novello

Não tinha uma expectativa clara quanto a esse livro, mas posso dizer que fui surpreendido, muitas vezes, durante a leitura. Neon Azul é o nome de um bar em torno do qual ocorrem várias histórias relacionadas. De início, a coisa toda pareceu um pouco confusa, não estava claro que seriam diversas narrativas com pontos de vistas diferentes. O Neon Azul é apresentado por um mendigo, que adotou o local para ser um ponto de obter esmolas. Achei legal uma história contada do ponto de vista de um mendigo, não é algo comum de se ver e fiquei imaginando até onde iria a narrativa. Com a primeira mudança de ponto de vista, ficou claro que não iria muito longe, afinal, ele não era mesmo o protagonista do livro, mas sim o próprio estabelecimento, o Neon Azul.

Então, no segundo capítulo, apertamos o botão de reset e começamos tudo de novo, só que não. O romance não é apenas uma colagem de contos, ou mesmo uma antologia em torno do mesmo tema, mas uma espécie de mosaico no qual cada capítulo vai explicando um pouco mais da história. Uma boa parte dos personagens, que aparecem em cada narrativa, vão revelando aspectos interessantes dos demais. E próximo ao final, o leitor vai ganhando uma visão de quebra-cabeças que vai se montando e dando um sentido ampliado ao conjunto.

A variação de personagens e temas tratados na narrativa é bastante interessante mostrando que o autor tem habilidade para expor e construir, num curto espaço, uma nova personagem e também situação de conflito que enfrenta.

Sabia que a obra vinha com a classificação de fantasia urbana, mas demorou um pouco até que o aspecto fantástico se revelasse. O aspecto fantástico inclusive é sutil e aparece com mais força em duas das narrativas.

É um livro recheado de personagens vívidos e algumas situações bizarras. Há presença de uma atmosfera noir, em torno do bar/boate/piano bar, mas é notável a surpresa que traz cada um dos personagens que entra em cena a cada mudança de capítulos. É como ler vários livros dentro de um, e ainda sim, tendo-se a impressão de unidade devido aos sutis cruzamentos entre as tramas das personagens.

Enfim, foi o primeiro livro que li do autor, me surpreendeu muito em relação à qualidade da prosa, forma peculiar de descrever situações e psique de seus personagens, além de acrescentar uma atmosfera misteriosa (sem um mistério propriamente dito) sobre qual será o próximo personagem e que novidade ele irá trazer.

Não que isso seja uma coisa ruim, mas ao final da leitura, ficou para mim uma sensação de querer saber mais sobre um dos personagens, o misterioso dono da boate conhecido apenas como O Homem. Então, se você busca uma história onde os arcos se fecham e tudo fica bem explicado, pode não ser o livro para você. Fora isto, gostei bastante e recomendo.

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