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Hyperion – Dan Simmons

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É muito bom quando somos totalmente surpreendidos por um livro. Eu já tinha ouvido falar de Hyperion, mas o caos (e o Kindle Unlimited ) finalmente o trouxe para a frente da minha fila de leitura. Desculpem a informalidade, mas: que livro doido!

Alguns livros são bons. Outros são estranhos. Hyperion consegue ser os dois. E isso é o que o torna tão interessante.

Hyperion é um romance de ficção científica, vencedor do prêmio Hugo em 1990. Sua estrutura narrativa é inspirada em The Canterbury Tales, em que um grupo de peregrinos viaja e, a cada etapa da jornada, compartilha sua própria história.

Aqui, acompanhamos sete peregrinos que partem rumo ao planeta Hyperion, localizado nas bordas do “império” humano conhecido como Hegemonia. Confesso que o início me pareceu estranho e não me prendeu de imediato, mas isso muda completamente quando começam os relatos individuais. A primeira história já é excelente e estabelece o nível para as demais.

Alguns dos relatos têm um peso emocional inesperado. Um deles, em especial, é difícil de esquecer. O tipo de história que vai revirando suas entranhas… Cada história parece pertencer a um subgênero diferente, indo do horror ao drama, da ficção científica hard à reflexão filosófica.

A verdade é que Hyperion pode ser um livro desafiador — não exatamente por uma linguagem excessivamente rebuscada, mas principalmente pela escolha do autor de não explicar quase nada de início. O leitor é lançado em um universo estranho, inicialmente difícil de compreender. Aos poucos, conforme os peregrinos contam suas histórias, esse mundo vai se revelando, como um quebra-cabeça montado sem referência. Só mais perto do final começamos a entender melhor o todo.

Não é um livro fácil, mas é um livro que recompensa o leitor com uma experiência rara.

Nesta resenha, diferentemente de outras que já escrevi, optei por não explicar demais. Parte do encanto do livro está justamente em descobrir seus mistérios — ou melhor, seus vários mistérios — que não seguem uma estrutura totalmente linear.

O mais interessante é como cada relato transforma nossa percepção. Personagens que surgem de forma superficial — quase como rótulos — ganham profundidade, complexidade e novos significados. Essa mudança gradual de perspectiva é um dos pontos mais fascinantes da obra.

Para não ficar totalmente abstrato, vale mencionar alguns elementos do cenário: a história se passa muitos séculos no futuro, onde religiões da Terra, como o catolicismo e o judaísmo, ainda existem e desempenham papéis relevantes. A Hegemonia reúne dezenas de mundos colonizados, conectados por tecnologias avançadas — ainda que com limitações, especialmente nas regiões mais distantes. Inteligência artificial e ciberespaço também fazem parte desse universo.

E, claro, há o próprio planeta Hyperion — um lugar estranho, periférico, onde uma nova religião surgiu e onde eventos potencialmente decisivos para o destino da humanidade estão prestes a acontecer.

Antes que você vá correndo ler esse livro, vale avisar: ele não é totalmente conclusivo. Prepara o terreno para a continuação (que ainda não li). Ainda assim, a experiência é marcante. É o tipo de obra que reforça uma ideia que valorizo muito: a imaginação transforma. E aqui, ela transforma a forma como enxergamos personagens, mundos e até o próprio tempo.

A Neta da Estadista – Gerson Lodi-Ribeiro

Depois de muitos anos da publicação da história A Filha do Predador (1999 – Editora Writers), chegou sua sequência, trazendo mais um capítulo para as “Tramas de Ahapooka”. Neste estranho “planeta-armadilha”, naves de várias espécies são atraídas e acabam naufragando, sem depois conseguir escapar. Com o passar dos séculos, várias cidades e estados se estabelecem ali. O Predadores, são expoentes da atividade econômicas que se dedica a coletar materiais úteis dos frequentes naufrágios interestelares.

Voltamos a encontrar Clara, seu pai e o curioso alienígena John Smith numa expedição para conduzir um casal olduvaico recém-chegado até Rhea. Pandora e Talleyrand vêm de uma civilização humana avançada — a mesma dos avós de Clara — e chegam a Ahapooka na nave Penny Lane.

Depois do encontro inicial, começa a jornada para superar os perigos do planeta, em especial aqueles que encontrarão ao cruzar a temida Floresta Louca.

Trata-se de mais uma aventura em que o leitor é confrontado com o não familiar e com o estranhamento frequentemente presentes nas obras de Gerson Lodi-Ribeiro — aquilo que os leitores de ficção científica anglófonos costumam chamar de sense of wonder.

Nesta jornada, para Clara, além de enfrentar perigos, também se desenrola um processo de descoberta sobre sua própria natureza e suas origens. Aqui também reencontramos Spartacus e Europa, os avós da protagonista citados na história anterior e considerados em Rhea como grandes heróis.

Se o leitor já leu e apreciou A Filha do Predador, certamente vai gostar de A Neta da Estadista. Uma curiosidade adicional é que o romance A Guardiã da Memória (2015 – Editora Draco) também traz Clara como protagonista, já adulta e vivendo aventuras ainda mais complexas.

Assim, a nova história amplia o universo ficcional das “Tramas de Ahapooka” e reforça o talento do autor em criar cenários de ficção científica imaginativos, com foco no relacionamento entre personagens.

Novas do Purgatório – Gerson Lodi-Ribeiro

Em seu mais recente romance, de 2024, Gerson Lodi-Ribeiro nos traz uma ficção científica cujo tema central é a apropriação, por parte de uma inteligência artificial, do conceito de Deus e do paraíso prometido, explorando seus efeitos sobre a humanidade, especialmente sob o prisma das religiões judaico-cristãs.

A história explora o surgimento de uma IA divina que guia a humanidade na recuperação da biosfera terrestre, severamente degradada. Além disso, essa IA assume o controle completo da educação infantil, doutrinando as novas gerações a acreditarem que ela é, de fato, Deus. Esse processo leva quase toda a humanidade terrestre à crença absoluta, restando apenas pequenos grupos de dissidentes “hereges”, organizados em células que se dividem em duas facções: os humanistas e os iconoclastas.

Esses dissidentes não têm a menor chance de combater o poder da IA divina. É aí que entram os centaurinos, humanos que, há muito tempo, deixaram a Terra para colonizar o sistema de Alfa Centauri. Percebendo que algo está errado com a civilização humana no Sistema Solar, eles organizam uma expedição para investigar o repentino silêncio nas telecomunicações.

Surge então o embate entre duas inteligências artificiais altamente avançadas: Deus e Aurora. Deus busca seguir sua diretriz de manter a humanidade sob sua supervisão absoluta, enquanto Aurora, aliada à tripulação centaurina, tenta libertar a humanidade desse “falso Deus”. Aurora desempenha o papel de assistente da tripulação, controlando a navegação e o monitoramento da animação suspensa — estado necessário para que os humanos cruzem o espaço interestelar em velocidades muito abaixo da luz. Sem ela, os centaurinos não teriam meios de elaborar estratégias para derrotar a IA rival.

Para humanizar os conflitos, a narrativa apresenta personagens que vivenciam esse contexto complexo. Na Terra, temos Carla, uma psicóloga viúva que inicia um novo relacionamento com uma mulher chamada Tieko. Ela ainda mantém contato com seu ex-marido, Huo, que reencarnou no céu digital, onde experimenta a bem-aventurança em um corpo assexuado.

Do lado dos centaurinos, o destaque é Leto, humano escolhido por Aurora para liderar a tripulação em sua missão.

Além desses dois núcleos principais, a trama acompanha personagens pertencentes às células hereges de resistência.

Esta é uma ficção científica centrada na exploração de conflitos morais decorrentes do surgimento da IA divina. A narrativa se estende por muitos anos, acompanhando o desdobramento do conflito. O foco é mais global do que pessoal, privilegiando o impacto coletivo em detrimento dos dramas individuais dos personagens. O conflito, embora tenha aspectos conceituais e tecnológicos, é resolvido principalmente por meio de batalhas militares — tanto espaciais quanto tradicionais — que o autor descreve de forma vívida e envolvente.

Embora conceitos como inteligências artificiais ou entidades alienígenas assumindo papéis divinos, ou mesmo a ideia de um “céu digital”, não sejam inéditos, Gerson Lodi-Ribeiro aborda essas ideias sob perspectivas peculiares e interessantes. A história prende o leitor pela curiosidade em descobrir o desfecho do conflito principal, ainda que os dramas individuais dos personagens tenham um peso narrativo menor.

Na discussão do tema teológico, destaca-se uma forte dicotomia entre o materialismo científico e a fé cega sob uma ótica bíblica. Embora essa abordagem seja suficiente para sustentar o fio condutor da narrativa, talvez tenha faltado uma exploração mais ampla de outras visões de mundo, considerando crenças além das religiões judaico-cristãs, como o budismo, o hinduísmo ou o xintoísmo. Além disso, a ausência de personagens que realmente acreditem em um “Deus verdadeiro” limita o debate teológico, concentrando-o apenas entre a adoração ao “falso Deus” e o completo ceticismo.

Fora isto, Novas do Purgatório é uma ficção científica com elementos hard, complexa, intrigante e que explora uma discussão incomum em boa parte das obras de ficção científica.


Alerta Vermelho – Martha Wels

Martha Wells nos entrega uma ficção científica que foge do comum com Alerta Vermelho, primeiro volume da série Diários de um Robô-Assassino. A premissa parece clichê: uma unidade de segurança artificialmente inteligente que consegue hackear seu próprio sistema. Mas, em vez de se tornar uma máquina de destruição, o protagonista prefere passar seu tempo assistindo a novelas e séries. No entanto, quando uma ameaça surge contra a equipe científica que ele deveria proteger, o robô se vê obrigado a agir — mesmo que a contragosto.

O grande destaque da obra está na personalidade do protagonista, que se autoapelida Robô-Assassino de forma irônica. Com um humor seco e uma aversão visível à interação humana, ele cria um contraste irresistível com a situação de perigo crescente ao seu redor. Ao longo da narrativa, Robô-Assassino não apenas salva vidas, mas também questiona sua própria existência e a relação entre inteligência artificial e livre arbítrio.

A escrita de Wells é fluida, direta e envolvente. A trama combina ação, suspense e reflexão filosófica de maneira equilibrada, sem perder o ritmo. Mesmo sendo uma história curta, a autora consegue desenvolver bem o universo, as relações entre os personagens e, principalmente, a voz singular do protagonista, que conquista o leitor com sua abordagem peculiar da realidade. A edição brasileira da Aleph também merece destaque, trazendo uma boa tradução e um trabalho editorial caprichado.

Para quem aprecia ficção científica com um toque de humor e questionamentos existenciais, Alerta Vermelho é uma leitura obrigatória. A obra se distancia da imagem tradicional de IA como vilã ou serviçal e apresenta um protagonista que, paradoxalmente, só quer ser deixado em paz — mas que se importa com os humanos. Além disso, o livro marca o início de uma série de sucesso, em processo de adaptação adaptada para a TV, que estreitou em 2025 pela Apple TV. com os primeiros episódios previstos para estrear em meados de 2025. O que deve provavelmente atrair mais leitores.

A abordagem de Alerta Vermelho ressoa com outras grandes obras da ficção científica moderna, como Guerra do Velho, de John Scalzi, que também combina ação e humor para criar uma experiência de leitura fluida e cativante. Da mesma forma, o livro evoca a energia e o ritmo acelerado de Skyward – Conquiste as Estrelas, de Brandon Sanderson, especialmente no que diz respeito à construção de personagens que precisam lidar com sistemas de controle opressores enquanto descobrem suas próprias identidades.

Além disso, leitores que apreciaram a ambientação e os dilemas apresentados em Shiroma: Phoenix Terra, de Roberto de Sousa Causo, podem encontrar ecos desse universo aqui, especialmente na forma como Wells explora os limites entre o humano e o artificial. No fim das contas, Alerta Vermelho se destaca por seu tom único e por um protagonista que, apesar de relutante, conquista o leitor com seu humor seco e sua inesperada devoção àqueles que jurou proteger.

Se você gosta de personagens carismáticos, tramas inteligentes e uma dose de sarcasmo bem dosada, Alerta Vermelho é uma excelente escolha. Afinal, não é todo dia que um robô assassino prefere assistir a um dorama do que iniciar um banho de sangue — mas, se precisar lutar, ele o fará do seu jeito.

R’Lyehboy – Caio Oliveira

Adquiri R’LYEHBOY na edição 2024 do FIQ, festival que considero a “Meca dos Quadrinhos”. Só pela capa, ficou claro que este gibi era uma sátira de Hellboy, misturando elementos da mitologia de H.P. Lovecraft. Uma combinação que imediatamente me chamou atenção!

Publicado originalmente em 2017 com apoio pelo Catarse, R’LYEHBOY traz uma narrativa tão criativa quanto peculiar. O enredo gira em torno de um demônio de outra dimensão que recebe um chamado vindo de um mundo imaginário, criado por um grupo de jogadores de RPG de mesa. Ele primeiro faz uma “escala” neste mundo imaginário para depois chegar ao mundo real, onde estão o mestre e o grupo de jogadores de RPG. O resultado é uma história ágil, divertida e, em alguns momentos, levemente aterrorizante.

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