O Conto de Zoe – John Scalzi

Depois de um tempinho afastado dessa excelente série, voltei para acompanhar a segunda trilogia de Guerra do Velho. Ler John Scalzi tem sido sempre um prazer.

O Conto de Zoe é uma nova história narrada pelo ponto de vista de Zöe Boutin mais ou menos em paralelo com os acontecimentos do livro anterior, A última colônia.

Zoë é filha adotiva de John Perry e Jane Sagan, personagens que conhecemos em Guerra do Velho e As Brigadas Fantasma. Ainda criança, ela teve a vida transformada pelas ações de seu pai biológico, Charles Boutin, um cientista humano que descobriu como conceder consciência aos Obin, uma espécie alienígena até então desprovida dessa capacidade. Por isso, os Obin passaram a reverenciá-lo como uma espécie de deus.

Como consequência, Zoë se torna uma obsessão para os Obin, que passam a estudar a consciência humana acompanhando sua vida. Na prática, ela se transforma na protagonista de um reality show transmitido para toda a espécie, uma situação tão curiosa quanto invasiva.

No posfácio, Scalzi comenta o processo de criação do romance e explica que ele surgiu, em parte, como resposta às reações positivas e negativas a A Última Colônia. Segundo o autor, escrever O Conto de Zoe lhe deu outra oportunidade de explorar aqueles acontecimentos e aprimorar sua compreensão da consistência interna do universo de Guerra do Velho.

A trama acompanha a jornada de Zoë e sua família rumo a Roanoke, um novo mundo a ser colonizado, em meio à crescente disputa territorial entre a União Colonial e o Conclave, uma coalizão de mais de quatrocentas espécies alienígenas que não pretende tolerar a expansão humana.

Uma das virtudes do livro está em contar essa história pela perspectiva de uma adolescente. O tom mais adulto, embora ainda marcado pelo humor sarcástico característico da série, dá lugar em parte a uma narrativa de amizades, descobertas e romances adolescentes. Essa mudança não significa abandonar a ficção científica política e militar dos volumes anteriores, mas acrescentar a ela uma dimensão mais íntima e emocional.

Zoë é uma protagonista carismática, cuja perspectiva traz à história uma dose extra de empatia e humanismo. Evitando spoilers, posso dizer que o livro tem um enredo muito satisfatório e uma leitura fluida, daquelas que nos fazem querer continuar até chegar à última página.

Achei muito interessante também o aprofundamento da psicologia da espécie Obin, representada na história pelo par Hickory e Dickory. Para além disso, o próprio amadurecimento de Zoë e seus amigos é outro ponto forte. E se você não tomar cuidado, desdobramentos da trama podem partir seu coração. E aí vem mais uma prova da habilidade de Scalzi, consegue construir uma trama de investigação, aventura, mas que também é capaz de suscitar fortes emoções nos leitores.

O Conto de Zoe é um livro que divide opiniões. Há quem o aprecie muito, como eu, e quem o critique duramente, considerando-o uma adição desnecessária à série. A mudança de perspectiva e o tom mais juvenil talvez expliquem parte dessa divergência. Para mim, porém, a experiência foi bastante satisfatória, tanto pelo desenvolvimento de Zoë quanto pelo que o romance acrescenta à compreensão desse universo. Se você já acompanha Guerra do Velho, vale a pena conhecer essa outra perspectiva dos acontecimentos.

De volta aos Multiversos

Talvez você tenha chegado recentemente por aqui. Nos últimos dias, algumas pessoas conheceram meus livros por meio de uma promoção, enquanto outras chegaram pelas redes sociais, pelo blog ou por algum dos meus projetos literários. Achei, então, que este seria um bom momento para me apresentar novamente e contar um pouco sobre o que é o Selo Multiversos e o que está acontecendo por aqui.

Sou Carlos Rocha, escritor de fantasia e ficção científica, autor de romances, contos e quadrinhos. Dois de meus livros, Olhos Negros e Os Óculos Indesejados de Ilya Gregorvich, foram vencedores do prêmio Wattys, em 2015 e 2019. Olhos Negros faz parte de uma saga de fantasia que se passa no universo ficional chamado Terras das Nove Luas.

Ainda no gênero fantasia, escrevi a série de contos Espadas & Horrores, que tem um toque de litRPG, exploração de masmorras, horror cósmico e humor. Nos romances: O Velho e a Devoradora de Almas e O Bruxo e a Foice Sombria, explorei protagonistas que permitem uma ótica diferente dentro do gênero, um idoso e um vilão.

Tenho também série de contos do super-herói brasileiro Homem-Café, em processo de adaptação para o audiovisual, a série antológica Tempestade de Ficção, que explora fições relâmpago passando por vários gêneros, a antologia Contos Insólitos de Ficção (quase) Científica e a webtoon Masmorra do Infinito.

Para quem está chegando agora, por aqui você encontrará principalmente obras de fantasia e ficção científica, resenhas e textos sobre literatura e os bastidores da criação.

O Selo Multiversos existe há muitos anos e nasceu como uma forma de publicar meus próprios livros e criar um espaço para conversar com leitores. Com o tempo, ele cresceu junto com minhas histórias. Vieram novos romances, contos, quadrinhos e, principalmente, novos mundos.

Hoje, o Selo Multiversos é minha pequena casa editorial. Uma espécie de EUditora, como costumo brincar, porque participo de praticamente todas as etapas: escrevo, reviso, acompanho a criação das capas, a diagramação, a publicação e também a divulgação. É um trabalho que certamente tem suas limitações, mas também oferece liberdade para transitar entre a fantasia e a ficção científica, escrever romances, ficções relâmpago, contos, trabalhar em quadrinhos etc.

No final de 2024, escrevi um artigo sobre algumas mudanças na forma como enxergava o Selo Multiversos e minha própria produção literária. Eu tinha vários projetos em desenvolvimento e muitos planos para o futuro. Mas, como costuma acontecer, a vida acabou mudando o roteiro.

Em 2025, aceitei um novo desafio profissional que exigiu muito mais tempo e energia do que eu imaginava. A consequência foi uma desaceleração quase completa das atividades literárias. As redes sociais ficaram mais silenciosas, o blog perdeu o ritmo e alguns projetos precisaram esperar. Mesmo assim, a imaginação nunca parou completamente. Algumas histórias continuaram sendo desenvolvidas, manuscritos foram revisados e novas ideias continuaram surgindo.

Agora, minha rotina começa a permitir que eu volte a dedicar mais tempo àquilo que também faz parte da minha vida há muitos anos: escrever e criar novos universos.

E há bastante coisa acontecendo.

Estou trabalhando em novos lançamentos, revisões e projetos que ficaram aguardando uma oportunidade para avançar. Um deles está muito próximo de chegar aos leitores: O Bruxo e a Foice Sombria, um novo romance de fantasia ambientado no “Velhoverso”. A história acompanha a trajetória de Kurdis Le’Daman, personagem que os leitores de O Velho e a Devoradora de Almas já conhecem de outra perspectiva.

Mas esse é apenas um dos projetos em andamento. Existem também novas histórias da série Espadas & Horrores, volumes da série Tempestade de Ficção, projetos relacionados ao UF Terra das Nove Luas, quadrinhos e outras ideias que continuam ocupando espaço na minha imaginação.

Não considero este um recomeço. Existem muitos livros publicados, personagens e mundos que continuam comigo e projetos que ainda esperam sua vez. Mas talvez seja, sim, o início de um novo capítulo, agora com mais tempo para voltar a escrever, publicar e conversar sobre as histórias que fazem parte do Selo Multiversos.

Se você já acompanha meu trabalho há algum tempo, espero que continue por aqui. E, se chegou recentemente, seja bem-vinda, seja bem-vindo!

A imaginação transforma. Universos para você imaginar.

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Mas algumas tumbas guardam mais do que tesouros.

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Por que escrever a história de um vilão?

Quando escrevi O Velho e a Devoradora de Almas, tive a sensação de que aquele universo ainda guardava outras histórias.

Isso acontece algumas vezes com um escritor. Você termina um livro e imagina que finalmente poderá deixar aqueles personagens para trás, mas alguns continuam voltando à cabeça. Às vezes é uma cena que ficou sem resposta. Outras vezes, um personagem que parecia secundário revela possibilidades que não haviam sido exploradas.

No meu caso, foi Le’Daman.

Ele era o misterioso antagonista de O Velho e a Devoradora de Almas. Não era o protagonista e sua história pessoal aparecia apenas pelas margens da narrativa. Ainda assim, havia nele um potencial que me fazia pensar que aquela história não havia terminado.

Comecei então a imaginar como seria escrever um livro pela perspectiva de alguém que, em outra história, já conhecíamos como vilão.

E foi aí que surgiu uma pergunta fundamental para a criação de O Bruxo e a Foice Sombria:

O que faz alguém se tornar um vilão?

E se o vilão fosse o protagonista?

Quando normalmente contamos uma história de fantasia, acompanhamos o herói. Conhecemos seus objetivos, seus medos e suas motivações. O mundo é apresentado através de seus olhos, enquanto o antagonista aparece do outro lado.

Sabemos o que ele faz e vemos suas consequências, mas nem sempre conhecemos seu caminho.

Foi justamente isso que me interessou em Kurdis Le’Daman.

Eu queria saber quem era aquele homem antes de se tornar o bruxo que conhecíamos. Queria acompanhar sua transformação e entender como ele próprio enxergava suas escolhas.

Um vilão precisa ser absolutamente mau e cruel? Ele sabe que é um vilão? Ou será que, dentro da própria história, ele se considera apenas alguém tentando sobreviver?

Essas perguntas não significavam que eu queria justificar as ações de Kurdis. Compreender um personagem não é o mesmo que absolvê-lo. Mas me parecia interessante acompanhar o caminho que leva alguém de um ponto a outro.

Uma história sobre escolhas

Kurdis não começa sua trajetória como um grande vilão.

Sua magia desperta ainda na juventude, de maneira trágica, e o obriga a ingressar na escola de magia da ordem Maihari. Depois vêm a guerra, as perdas e uma arma que mudará profundamente sua vida: a Foice Sombria.

A partir daí, suas escolhas começam a se acumular.

Algumas são feitas para sobreviver. Outras parecem necessárias. Há escolhas motivadas pelo desejo de proteger alguém e outras pelo desejo de vingança.

Talvez a transformação de alguém em vilão não aconteça em um único momento, mas seja construída aos poucos.

Elric, Stormbringer e a sombra de Michael Moorcock

Há também uma influência literária importante por trás de O Bruxo e a Foice Sombria: Michael Moorcock e o icônico Elric de Melniboné.

Stormbringer – Michael Whelan

Elric me marcou pela maneira como Moorcock subverteu algumas convenções da fantasia heroica. Ele não é exatamente o herói tradicional que atravessa o mundo derrotando seus inimigos e fazendo o bem. É um personagem atormentado, moralmente ambíguo, cercado por forças que muitas vezes parecem maiores do que sua própria vontade.

E existe Stormbringer.

A espada amaldiçoada de Elric não é apenas uma arma poderosa. Ela é parte fundamental de sua identidade e de sua trajetória.

Quando comecei a desenvolver Kurdis, essa ideia encontrou um lugar natural dentro da história.

Se Elric tinha Stormbringer, Kurdis teria a Foice Sombria.

Kurdis Le’Daman – Ilustração de conceito modificada à partir de IA.

Mas eu não queria simplesmente repetir a ideia de uma única arma amaldiçoada. No universo que estava construindo, existiria uma coleção de armas tocadas por forças sombrias, cada uma carregando sua própria história.

A Foice seria uma delas.

Também existe um paralelo entre as forças que acompanham os dois personagens. Elric tem Arioch, um Duque do Inferno, como seu patrono. Kurdis encontra sua própria contraparte no Arcano Sombrio Fre’garzam.

A influência de Moorcock está, portanto, menos em reproduzir Elric e mais na possibilidade de construir uma fantasia em que magia, poder, destino e corrupção estejam profundamente ligados à trajetória de um personagem moralmente ambíguo.

A arma que não é apenas uma arma

A Foice Sombria acabou assumindo uma função importante porque eu não queria que fosse apenas um objeto poderoso encontrado pelo caminho.

Ela representa uma tentação.

Em meio a uma guerra, quando você encontra uma arma capaz de mudar o resultado de uma batalha, é fácil encontrar justificativas para utilizá-la.

“É apenas desta vez.”

“É necessário.”

“Consigo controlar.”

“Estou fazendo isso pelo meu reino.”

O problema é que determinadas escolhas continuam produzindo consequências depois que a decisão foi tomada.

É isso que torna uma arma amaldiçoada particularmente interessante: ela permite transformar um conflito externo em um conflito interno.

Kurdis não precisa apenas lutar contra seus inimigos. Em determinado momento, precisa lutar contra aquilo que o próprio poder começa a fazer com ele.

O outro lado do espelho

Por isso considero O Bruxo e a Foice Sombria uma obra espelhada em relação a O Velho e a Devoradora de Almas.

No primeiro livro, acompanhamos Vedd e vemos Le’Daman principalmente como uma ameaça.

Aqui, acompanhamos Kurdis.

Vemos sua infância, sua formação, suas perdas, suas escolhas e o caminho que o levará a se tornar o personagem que já conhecíamos.

É o mesmo universo, mas visto do outro lado do espelho.

Essa perspectiva também me permitiu explorar partes do mundo que estavam apenas nas margens do primeiro livro: suas lendas, seus antigos deuses, seus demônios e forças que permaneceram ocultas durante eras.

Por que contar uma história cujo final já conhecemos?

Existe uma última questão interessante.

Quem leu O Velho e a Devoradora de Almas já sabe, em alguma medida, quem Kurdis vai se tornar.

Então por que contar sua história?

Porque conhecer o destino não significa conhecer o caminho. Eu sabia onde Le’Daman deveria chegar. Mas ainda precisava descobrir como Kurdis chegaria até lá.

Quais acontecimentos transformariam aquele jovem no bruxo que conheceríamos depois? Quantas perdas seriam necessárias? Quantas vezes ele precisaria escolher entre aquilo que considera certo e aquilo que acredita ser necessário?

Talvez seja por isso que histórias sobre vilões possam ser tão interessantes. Não porque precisamos descobrir que eles eram, na verdade, bons. Mas porque podemos compreender sua trajetória.

O homem antes do bruxo

Foi dessa curiosidade que nasceu O Bruxo e a Foice Sombria. Eu queria conhecer o homem que existia antes de Le’Daman. Queria explorar um personagem que já possuía um destino conhecido, mas cuja trajetória ainda estava aberta para mim.

E, ao fazer isso, encontrei uma história sobre magia, dragões, armas sombrias, deuses antigos, guerras e vingança, mas também uma história sobre escolhas e consequências.

E talvez seja justamente por tudo isso que, às vezes, vale a pena olhar para o outro lado do espelho.

Achou interessante? Aguarde… O Bruxo e a Foice Sombria será lançado, em breve.

A Sombra do Torturador — Gene Wolfe

Este é um livro bem estranho.

Vencedor do World Fantasy Award de Melhor Romance, A Sombra do Torturador, de Gene Wolfe, publicado originalmente em 1980, é o primeiro volume de O Livro do Novo Sol, uma série composta por quatro livros (e existe um quinto livro, de 1987). O leitor interessado já deve se preparar para isso, pois o final do primeiro livro não dá nenhuma sensação de conclusão parcial. É apenas um corte, uma pausa, como o próprio narrador, Severian, parece dizer.

A obra é frequentemente considerada precursora do gênero grimdark, embora tenha características bastante diferentes de boa parte das obras que hoje associamos ao gênero.

Narrado em primeira pessoa, o livro se passa em um mundo aparentemente medieval, mas no qual aparecem, aqui e ali, evidências de que existe uma tecnologia extremamente avançada, quase nunca explicada.

Severian é um aprendiz de uma guilda de torturadores, um grupo contratado para torturar pessoas condenadas e, em alguns casos, executar suas sentenças. Entretanto, um acontecimento, uma pessoa, na verdade, leva Severian a sair da Fortaleza onde viveu toda a sua vida para explorar o mundo exterior.

A estrutura narrativa é bastante errática. Ao ler, não identificamos claramente os três atos ou qualquer outra estrutura de enredo típica que encontramos em muitas obras de fantasia.

Os encontros e a apresentação de novos personagens acabam soando aleatórios. Mas, ainda assim, surge a pergunta: por que o livro é considerado tão bom? Por que foi premiado?

Em parte, devido à prosa interessante do autor, que transmite ao protagonista e narrador, Severian, um carisma e um jeito particular de contar sua história que acabam despertando uma constante curiosidade no leitor. O que vai acontecer a seguir?

Outro ponto é uma sensação de imprevisibilidade. Não dá para realmente adivinhar o rumo que a história vai seguir.

Em sua jornada, Severian encontra alguns personagens peculiares, que vão ajudando a formar uma impressão de peregrinação, como se a história fosse simplesmente a de um andarilho que deixa seu lugar de origem e passa a conhecer um mundo muito maior e mais estranho do que aquele em que viveu.

Um artifício interessante utilizado pelo autor foi estabelecer que Severian possui uma memória perfeita. Isso favorece a suspensão da descrença por parte do leitor, pois temos a impressão de que aquilo que estamos lendo é o relato preciso de alguém que se lembra de tudo o que viveu.

Severian parece estar escrevendo um livro, recontando sua própria vida, mas sua narrativa não é linear nem transparente. Ao longo da leitura, percebemos contradições e encontramos diversos enigmas.

A história se estabelece em camadas densas que desafiam o leitor, pois muitos fatos e descrições não são explicados. E, ainda assim, despertam curiosidade. Muito disso acontece porque Severian assume que o leitor está familiarizado com aquele mundo, que, em alguns aspectos, é completamente alienígena para nós.

A história em si não tem uma grande quantidade de ação acontecendo, mas apresenta muitos momentos de reflexão e filosofia introspectiva. É uma obra que parece estar mais interessada em apresentar uma experiência e provocar perguntas do que em conduzir o leitor por uma trama convencional.

Uma coisa que me incomodou um pouco ao final da leitura foi perceber que muita coisa lançada no início da narrativa ainda continuava no ar, sem respostas.

Um fim inconclusivo?

Talvez. Mas tudo bem. Vou ler os demais livros da série e ver onde isso vai dar.

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