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Por que escrever a história de um vilão?

Quando escrevi O Velho e a Devoradora de Almas, tive a sensação de que aquele universo ainda guardava outras histórias.

Isso acontece algumas vezes com um escritor. Você termina um livro e imagina que finalmente poderá deixar aqueles personagens para trás, mas alguns continuam voltando à cabeça. Às vezes é uma cena que ficou sem resposta. Outras vezes, um personagem que parecia secundário revela possibilidades que não haviam sido exploradas.

No meu caso, foi Le’Daman.

Ele era o misterioso antagonista de O Velho e a Devoradora de Almas. Não era o protagonista e sua história pessoal aparecia apenas pelas margens da narrativa. Ainda assim, havia nele um potencial que me fazia pensar que aquela história não havia terminado.

Comecei então a imaginar como seria escrever um livro pela perspectiva de alguém que, em outra história, já conhecíamos como vilão.

E foi aí que surgiu uma pergunta fundamental para a criação de O Bruxo e a Foice Sombria:

O que faz alguém se tornar um vilão?

E se o vilão fosse o protagonista?

Quando normalmente contamos uma história de fantasia, acompanhamos o herói. Conhecemos seus objetivos, seus medos e suas motivações. O mundo é apresentado através de seus olhos, enquanto o antagonista aparece do outro lado.

Sabemos o que ele faz e vemos suas consequências, mas nem sempre conhecemos seu caminho.

Foi justamente isso que me interessou em Kurdis Le’Daman.

Eu queria saber quem era aquele homem antes de se tornar o bruxo que conhecíamos. Queria acompanhar sua transformação e entender como ele próprio enxergava suas escolhas.

Um vilão precisa ser absolutamente mau e cruel? Ele sabe que é um vilão? Ou será que, dentro da própria história, ele se considera apenas alguém tentando sobreviver?

Essas perguntas não significavam que eu queria justificar as ações de Kurdis. Compreender um personagem não é o mesmo que absolvê-lo. Mas me parecia interessante acompanhar o caminho que leva alguém de um ponto a outro.

Uma história sobre escolhas

Kurdis não começa sua trajetória como um grande vilão.

Sua magia desperta ainda na juventude, de maneira trágica, e o obriga a ingressar na escola de magia da ordem Maihari. Depois vêm a guerra, as perdas e uma arma que mudará profundamente sua vida: a Foice Sombria.

A partir daí, suas escolhas começam a se acumular.

Algumas são feitas para sobreviver. Outras parecem necessárias. Há escolhas motivadas pelo desejo de proteger alguém e outras pelo desejo de vingança.

Talvez a transformação de alguém em vilão não aconteça em um único momento, mas seja construída aos poucos.

Elric, Stormbringer e a sombra de Michael Moorcock

Há também uma influência literária importante por trás de O Bruxo e a Foice Sombria: Michael Moorcock e o icônico Elric de Melniboné.

Stormbringer – Michael Whelan

Elric me marcou pela maneira como Moorcock subverteu algumas convenções da fantasia heroica. Ele não é exatamente o herói tradicional que atravessa o mundo derrotando seus inimigos e fazendo o bem. É um personagem atormentado, moralmente ambíguo, cercado por forças que muitas vezes parecem maiores do que sua própria vontade.

E existe Stormbringer.

A espada amaldiçoada de Elric não é apenas uma arma poderosa. Ela é parte fundamental de sua identidade e de sua trajetória.

Quando comecei a desenvolver Kurdis, essa ideia encontrou um lugar natural dentro da história.

Se Elric tinha Stormbringer, Kurdis teria a Foice Sombria.

Kurdis Le’Daman – Ilustração de conceito modificada à partir de IA.

Mas eu não queria simplesmente repetir a ideia de uma única arma amaldiçoada. No universo que estava construindo, existiria uma coleção de armas tocadas por forças sombrias, cada uma carregando sua própria história.

A Foice seria uma delas.

Também existe um paralelo entre as forças que acompanham os dois personagens. Elric tem Arioch, um Duque do Inferno, como seu patrono. Kurdis encontra sua própria contraparte no Arcano Sombrio Fre’garzam.

A influência de Moorcock está, portanto, menos em reproduzir Elric e mais na possibilidade de construir uma fantasia em que magia, poder, destino e corrupção estejam profundamente ligados à trajetória de um personagem moralmente ambíguo.

A arma que não é apenas uma arma

A Foice Sombria acabou assumindo uma função importante porque eu não queria que fosse apenas um objeto poderoso encontrado pelo caminho.

Ela representa uma tentação.

Em meio a uma guerra, quando você encontra uma arma capaz de mudar o resultado de uma batalha, é fácil encontrar justificativas para utilizá-la.

“É apenas desta vez.”

“É necessário.”

“Consigo controlar.”

“Estou fazendo isso pelo meu reino.”

O problema é que determinadas escolhas continuam produzindo consequências depois que a decisão foi tomada.

É isso que torna uma arma amaldiçoada particularmente interessante: ela permite transformar um conflito externo em um conflito interno.

Kurdis não precisa apenas lutar contra seus inimigos. Em determinado momento, precisa lutar contra aquilo que o próprio poder começa a fazer com ele.

O outro lado do espelho

Por isso considero O Bruxo e a Foice Sombria uma obra espelhada em relação a O Velho e a Devoradora de Almas.

No primeiro livro, acompanhamos Vedd e vemos Le’Daman principalmente como uma ameaça.

Aqui, acompanhamos Kurdis.

Vemos sua infância, sua formação, suas perdas, suas escolhas e o caminho que o levará a se tornar o personagem que já conhecíamos.

É o mesmo universo, mas visto do outro lado do espelho.

Essa perspectiva também me permitiu explorar partes do mundo que estavam apenas nas margens do primeiro livro: suas lendas, seus antigos deuses, seus demônios e forças que permaneceram ocultas durante eras.

Por que contar uma história cujo final já conhecemos?

Existe uma última questão interessante.

Quem leu O Velho e a Devoradora de Almas já sabe, em alguma medida, quem Kurdis vai se tornar.

Então por que contar sua história?

Porque conhecer o destino não significa conhecer o caminho. Eu sabia onde Le’Daman deveria chegar. Mas ainda precisava descobrir como Kurdis chegaria até lá.

Quais acontecimentos transformariam aquele jovem no bruxo que conheceríamos depois? Quantas perdas seriam necessárias? Quantas vezes ele precisaria escolher entre aquilo que considera certo e aquilo que acredita ser necessário?

Talvez seja por isso que histórias sobre vilões possam ser tão interessantes. Não porque precisamos descobrir que eles eram, na verdade, bons. Mas porque podemos compreender sua trajetória.

O homem antes do bruxo

Foi dessa curiosidade que nasceu O Bruxo e a Foice Sombria. Eu queria conhecer o homem que existia antes de Le’Daman. Queria explorar um personagem que já possuía um destino conhecido, mas cuja trajetória ainda estava aberta para mim.

E, ao fazer isso, encontrei uma história sobre magia, dragões, armas sombrias, deuses antigos, guerras e vingança, mas também uma história sobre escolhas e consequências.

E talvez seja justamente por tudo isso que, às vezes, vale a pena olhar para o outro lado do espelho.

Achou interessante? Aguarde… O Bruxo e a Foice Sombria será lançado, em breve.

Melhores livros de fantasia resenhados aqui

Toda boa lista de melhores livros de fantasia não deixa de incluir obras do cânone, como “O Senhor dos Anéis” e as “Crônicas de Nárnia”. No entanto, esta lista segue um caminho um pouco diferente, oferecendo recomendações de leitura igualmente incríveis e dignas de destaque.

1. Duplo Fantasia Heroica e volume 2– Christopher Kastensmidt e Roberto de Sousa Causo

Essas duas edições de 2011 trazem histórias de fantasia ambientadas no Brasil colonial. O primeiro volume traz duas noveletas, “O Encontro Fortuito de Gerard van Oost e Oludara”, de Christopher Kastensmidt, e “A Travessia”, de Roberto de Sousa Causo. A primeira é a primeira parte da sequência “A Bandeira do Elefante e da Arara” e a segunda é a continuação da “Saga de Tajarê”, vista no livro “A Sombra dos Homens”. No segundo volume, temos “A Batalha Temerária contra o Capelobo” e “Encontros de sangue”.

Ambas edições trazem texto de alta qualidade. A temática brasileira os posiciona num espaço distante das “tradicionais” narrativas fantásticas, quase sempre apoiadas no folclore europeu.

A série de Christopher evolui com novas histórias e foi lançada na forma de um RPG, A Bandeira do Elefante e da Arara. Um RPG que possui diversos livros de aventuras premiadas.

Roberto Causo é um dos maiores escritores de ficção científica, tendo criado o Universo GalAxis, onde trabalha seus personagens mais conhecidos: Shiroma, matadora ciborgue e Jonas Peregrino, ambos presentes em vários contos, noveletas e romances.

O Andarilho das Sombras – Eduardo Kasse

O Andarilho das Sombras é o primeiro livro da série Tempos de Sangue escrita por Eduardo Kasse e editada pela Editora Draco.

O livro é muito bem escrito, com personagens fortes e situações intrigantes. Narra a saga do imortal, Harold Stonecross, um homem amaldiçoado, de moral imperfeita e bebedor de sangue.

Não é uma história típica de vampiros e se passa na idade média na Inglaterra e França. O leitor deve ser maduro, pois é um livro com boa dose de violência, sexo e linguagem adulta.

Guarda alguma semelhança com os livros de vampiro de Anne Rice, porém, com alguma dose de humor, sexo e sujeira costurando um fluxo narrativo oscilante entre presente e passado. Ainda que fantástico, há nele uma tintura de ficção histórica.

Eduardo escreve muito bem e a dinâmica da trama é entrelaçar arcos do personagem em seu presente, já amaldiçoado pela imortalidade, e seu passado, desde a infância até sua maturidade. A trama dá uma sensação de falta de rumo, vamos passando por episódios da vida de Harold, alguns desses episódios possuem personagens mais carismáticos e situações mais interessantes e contraste com outros momentos onde se percebe um pouco de “barriga” no livro. O que prende o leitor na história é uma curiosidade para saber como Harold se torna imortal e também, qual será seu destino.

O livro tem alguns personagens memoráveis como irmão de criação de Harold, Edred, e o seu fiel cavalo, Fogo-Negro. Aliás, é um livro com um grande elenco de animais capazes de despertar a simpatia do leitor.

Destaco a habilidade do escritor para estabelecer a ambientação e ao trabalhar bem os detalhes, dar vida a situações e personagens, ainda que muitos deles acabem “descartados” ao longo da trama.

Gostei bastante do desfecho e da inusitada forma de apresentar uma origem para o mito do Vampiro, ainda que essa palavra não apareça em nenhum momento durante o livro.

Está aí um grande romance da literatura fantástica brasileira. Vale conhecer.

 

Post-Mortem 2 e 3 – Pedro Ferreira

Já falamos da primeira edição no artigo anterior. A história do segundo volume começa com Ahran num navio atravessando o oceano. Há algumas passagens em flashback que mostram mais do passado do protagonista. Mas o primeiro embate, realmente, surpreende! Tem uma sacada, muito legal, mostrando que o autor está sabendo explorar bem a magia necromantica dentro da narrativa.

Surgem alguns novos personagens interessantes como Maya, o interesse amoroso de Ahran. A história evolui de modo bem interessante e o leitor poderá se preparar para uma grande reviravolta que atinge em cheio os planos de Ahran e abre novas possibilidades.

A descoberta de Ahran nos leva ao terceiro e último volume da série. E aqui duas outras grandes supresas! A primeira é uma melhoria grande na qualidade dos desenhos! A evolução do traço e também sombras e acabamento são notáveis! A outra surpresa foi descobrir que essa é uma história fechada e que termina na terceira edição.

A forma que a história se inicia e como é conduzida na primeira edição, e em parte da segunda, não sugeria muito bem sua evolução final.

É uma história que tem um desfecho muito corajoso e dramático. Realmente não esperava por isso e gostei muito!

É claro, não é perfeita. Percebi alguns probleminhas na narrativa visual, principalmente a demarcação entre o presente e os flashbacks, algo que poderia ter ficado mais claro se utilizando molduras diferentes dos quadros do presente e do passado. Mas esse é um mero detalhe… Logo me acostumei e passei a identificar as transições. Mesmo com um probleminha ou outro, a história cresce muito nas partes dois e três.

Não vou falar muito mais para evitar spoilers….

É uma história que teria um bom potencial para virar um filme, animação, ou minissérie, em audiovisual. Realmente um quadrinho independente que vale a pena conhecer. Recomendo!

Deixo aqui meus aplausos para o autor, Pedro Ferreira, e sua determinação. Citando suas palavras:

Fazer quadrinhos é difícil. Mais ainda quando falamos em projetos independentes. O processo é longo e caro, e a chance de alguém comprar e ler essas histórias é pequena.

Pedro ferreira

Um brinde a todos os quadrinistas independentes que ralam muito para trazer ao mundo suas histórias!

Conheça o site do autor: http://pedroferreira.cc/

Tempo do Desprezo – THE WITCHER -Livro 4 – Andrzej Sapkowski

Tempo do Desprezo, publicado na Polônia em 1995, é o quarto livro da série The Witcher.

A história continua de onde O Sangue dos Elfos parou.

O livro eleva a tensão de seus predecessores, seguindo uma forma narrativa com vários pontos de vista. Uma estrutura peculiar. Por um lado, pelas variações adotadas não cansa o leitor, por outro exige mais do mesmo, que precisa preencher algumas lacunas.

É sempre bom destacar a boa qualidade da prosa que junta o humor a um contexto violento e rude.

Foi o livro da série, até então, que estabeleceu um ritmo de leitura acelerado, do tipo que o leitor não quer parar, com equilíbrio entre momentos descontraídos e tensos.

O livro tem várias passagens memoráveis, como o passeio de Ciri no burgo, o banquete na Ilha de Thanedd e toda a sequência que se passa na Frigideira, um deserto cheio de perigos.

Não é o objetivo aqui detalhar informações sobre a trama, até para não dar spoilers. Talvez, ajudar quem não leu nenhum livro, ou apenas alguns deles a se decidir se vale continuar investindo na leitura da série.

Para quem não leu nenhum, ou apenas viu a série no streaming, esse quarto livro funciona como uma espécie de clímax/reviravolta que renova a o interesse e torna praticamente impossível não continuar lendo a série.

Para quem leu o primeiro, ou os dois primeiros, vale lembrar que a partir do terceiro livro o autor adota um novo formato narrativo, ainda que não totalmente linear, tratando do destino de Ciri e os personagens que gravitam ao seu redor como Geralt, Yennefer e Jaskier.

Para quem leu o terceiro, o quarto é como uma segunda metade da história, mais tensa, e que além de aprofundar o mundo, suas questões políticas e personagens, trás algumas importantes reviravoltas.

Enfim, ao concluir a leitura deste quarto livro, temos a sensação de que realmente valeu a pena o conjunto da leitura, criando-se grande expectativa em relação aos próximos livros da série.

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