fbpx

Tag: dicas de escrita Page 1 of 8

Magia tem poder porque nunca falou apenas de magia

Quando ouvimos a palavra “magia”, é fácil imaginar magos lançando feitiços, dragões cruzando os céus ou artefatos capazes de alterar a realidade.

Mas talvez a magia nunca tenha sido realmente sobre isso. Talvez a magia seja uma das formas mais antigas que encontramos para falar sobre poder.

Não apenas o poder de destruir ou transformar o mundo, mas o poder de transformar a nós mesmos.

Tracei uma visão mais técnica em outros três artigos aqui. O primeiro tratou de magia e sistemas de magia, incluindo um tópico sobre as 3 leis de Sanderson. No segundo, me aprofundei no sistema de magia que me inspirou para um dos meus universos ficcionais, a Terra das Nove Luas. E no terceiro, tratei outros aspectos, da magia como motor da sociedade que aparece em outro universos ficcional meu: As Crônicas Delorianas, onde há mistura de tecnologia e magia.

O encanto que atravessa os séculos

Vivemos em uma época capaz de enviar sondas para outros planetas, manipular genes e conectar bilhões de pessoas instantaneamente. Ainda assim, continuamos fascinados por histórias de magia. Por quê?

Porque a magia não representa apenas aquilo que é impossível. Ela representa aquilo que desejamos que fosse possível. Curar o incurável. Conhecer o desconhecido. Superar nossas limitações. Mudar o destino.

A magia é o sonho humano de que a realidade pode ser mais ampla do que parece.

Mais do que poderes

Quando leitores discutem fantasia, muitas vezes falam sobre sistemas de magia. Quais são as regras? Quais são os limites? Quem pode usar?

São perguntas importantes.

Mas existe uma questão ainda mais fundamental. O que aquela magia significa para aquele mundo? Muitos dos sistemas mágicos mais memoráveis da literatura e da cultura pop não são lembrados apenas pelos poderes que concedem. São lembrados porque influenciam religiões, guerras, culturas, tradições e formas de pensar.

A magia deixa de ser uma habilidade e se torna parte da identidade do mundo.

O verdadeiro segredo da magia

Existe uma tendência moderna de tratar magia como uma espécie de engenharia fantástica. Isso aparece muitas vezes em sistemas de RPG. Criam-se regras, custos, categorias e limitações. Isso pode funcionar muito bem, mas existe um risco: Confundir magia com uma simples lista de habilidades.

A magia não se torna interessante porque alguém consegue lançar bolas de fogo. Ela se torna interessante quando altera a forma como as pessoas vivem. Quando cria desigualdades. Quando inspira fé, gera medo, muda a história…

Os poderes são apenas a superfície. A magia está nas consequências.

Onde a magia realmente aparece

Quando escritores iniciantes pensam em magia, costumam imaginar feitiços. Bolas de fogo, portais, transformações e artefatos lendários. Mas talvez este seja o lugar menos interessante para procurar magia. Porque a verdadeira magia não aparece quando alguém lança um feitiço. Ela aparece quando o mundo reage a ele.

Recentemente ouvi uma ideia interessante sobre a diferença entre construir um mundo e quebrá-lo. Foi no vídeo do canal Bookfox. (Worldbuilding x Worldbreaking)

Construir um mundo significa criar mapas, religiões, reinos, sistemas mágicos e tradições. Quebrar um mundo significa descobrir o que acontece quando algo ameaça essas estruturas.

É nesse momento que a magia deixa de ser decoração e passa a ser narrativa.

Imagine uma sociedade em que apenas sacerdotes podem usar magia. O sistema mágico é interessante. Mas o conflito surge quando alguém fora dessa elite manifesta os mesmos poderes.

Imagine um reino sustentado por profecias. O mundo parece sólido. Até que alguém descobre que as profecias estavam erradas.

Imagine uma cultura em que determinado feitiço é considerado proibido. O sistema existe. Mas a história começa quando alguém decide usá-lo.

A magia ganha força narrativa quando desafia crenças, destrói hierarquias, rompe tradições e obriga personagens a fazer escolhas difíceis.

Os leitores raramente se lembram da lista de poderes de um mundo. Eles se lembram do momento em que alguém quebrou as regras. É por isso que grandes histórias de fantasia quase sempre associam magia a revoluções, tragédias, heresias, guerras ou descobertas perturbadoras.

O sistema mágico constrói o cenário. Mas é a ruptura que cria a história.

A força da transformação

Talvez seja por isso que tantas histórias associem magia à mudança. O aprendiz que se torna mestre. O herói que descobre uma verdade oculta. O reino que entra em decadência. O vilão que ultrapassa limites proibidos.

A magia quase sempre acompanha uma transformação. E não apenas do mundo, mas dos personagens. Em muitos casos, o verdadeiro poder não está no feitiço. Está na decisão de usá-lo.

A magia de Goethe

É curioso que Goethe associe audácia, poder e magia na mesma frase.

Porque existe algo profundamente mágico em qualquer ato de criação.

Toda história começa como uma possibilidade invisível. Uma ideia, um sonho, uma hipótese…

E então alguém decide agir. Nesse instante, algo muda. O poder de decidir, o poder de mudar algo.

Talvez seja por isso que continuamos escrevendo e lendo fantasia. Não porque acreditamos em feitiços. Mas porque acreditamos na capacidade humana de transformar possibilidades em realidade. Primeiro criamos algo em nossa imaginação e depois, trazemos aquela ideia ou projeto para a realidade.

E essa talvez seja a forma mais antiga de magia que existe.

Poderes e magia não são a mesma coisa

Uma explosão de energia pode ser um poder. Voar pode ser um poder. Ler mentes pode ser um poder. Mas magia é algo maior. É a estrutura que dá significado a esses poderes. É a relação entre o impossível e o mundo que tenta compreendê-lo.

Por isso algumas histórias permanecem em nossa memória por décadas.

Elas não nos fazem perguntar apenas “o que esse personagem consegue fazer?”.

Elas nos fazem perguntar:

“O que acontece com uma sociedade quando o impossível se torna possível?”

Essa é uma pergunta sobre magia. E, no fundo, também é uma pergunta sobre poder.

Para onde vamos agora?

No artigo anterior, vimos que poder não é apenas uma habilidade, mas a capacidade de produzir impacto e transformação.

A magia é uma das formas mais antigas de explorar essa ideia, mas ela não é a única.

Nos próximos artigos, vamos sair dos castelos, grimórios e profecias para explorar outro tipo de poder: aquele que nasce da ciência, da tecnologia e da capacidade humana de remodelar a realidade através do conhecimento.

Porque, se a magia pergunta o que acontece quando o impossível se torna possível, a ficção científica pergunta algo ainda mais inquietante:

O que acontece quando o impossível se torna inevitável?

Todos os atos de iniciativa e criação têm uma verdade elementar, e ignorá-la mata incontáveis ideias e incontáveis planos.
No momento em que a pessoa realmente assume um compromisso, a providência também se põe em movimento.
Todos os tipos de coisas acontecem para ajudar a pessoa, coisas que nunca teriam acontecido de outra forma.
Toda uma corrente de eventos resulta da decisão, gerando em seu favor todos os tipos de encontros e incidentes imprevistos, e ajuda material, que ninguém sonharia que pudesse estar em seu caminho.
Seja o que for que você faça ou sonha em fazer, comece.
A audácia tem força, poder e magia.
Comece agora.

— Johann Wolfgang von Goethe

24 Horas na Roma Antiga — de Philip Matyszak

Uma imersão no cotidiano que inspira mundos extraordinários.

Embora não seja uma obra de fantasia, 24 Horas na Roma Antiga oferece algo extremamente valioso para escritores do gênero: uma reconstrução vívida e acessível da vida urbana em um grande centro da Antiguidade. Através de uma narrativa que acompanha diferentes personagens ao longo de um único dia — como um vigilante/brigadista, um cliente bajulador de senador, um gladiador, uma escrava e uma virgem vestal — o autor constrói um mosaico dinâmico da sociedade romana.

O grande mérito da obra está na forma como transforma pesquisa histórica em experiência narrativa. Cada capítulo funciona quase como um microconto, permitindo ao leitor compreender não apenas os fatos, mas a sensação de viver naquela realidade — seus cheiros, tensões sociais, rotinas e perigos.

Para escritores de fantasia e ficção histórica, o livro se destaca como uma excelente referência de construção de ambientação. Ele demonstra como diferentes classes sociais interagem dentro de uma cidade complexa, como o espaço urbano influencia comportamentos e como pequenos detalhes do cotidiano podem enriquecer profundamente uma narrativa.

Outro ponto relevante é o uso de imagens e trechos de fontes históricas, que servem como ancoragem factual para as histórias ficcionalizadas. Isso reforça a credibilidade do texto e oferece ao leitor-escritor um vislumbre direto das bases reais que sustentam aquela reconstrução.

Mais do que um retrato de Roma, a obra funciona como um guia prático — ainda que indireto — sobre como dar vida a cidades em mundos fictícios. Ao observar como Matyszak organiza pontos de vista, rotinas e conflitos cotidianos, é possível extrair técnicas aplicáveis à criação de cenários ricos e convincentes.

Recomendado para: escritores, leitores de ficção histórica e autores de fantasia que desejam aprofundar a construção de mundos urbanos com maior realismo e densidade social.

Planejamento de romances – parte 3

Se queremos planejar é útil ter à mão um kit de ferramentas. Vamos ver mais algumas abordagens conceituais para o ritmo geral da sua história? A pirâmide de Freytag e as dicas do escritor Dean Koontz podem funcionar como abordagens complementares para estruturar sua narrativa. Mas além das ferramentas estruturais, é essencial refletir sobre o significado mais profundo da história que você deseja contar.

A pirâmide de Freytag

Gustav Freytag foi um escritor alemão do século 19 que analisou dramaturgia grega e a obra de Shakespeare e criou a figura de uma pirâmide para explicar como uma história funciona. Ele expandiu o conceito de Aristóteles de trama ao adicionar à estrutura básica de início, meio e fim, dois novos componentes: ascensão da ação e o seu declínio.

A base da pirâmide é a Exposição, o início da história. Aqui delineamos informações importantes sobre o contexto da história. Informações sobre a personagem protagonista ou eventos ocorridos antes do início da história.

Uma vez a história começa, é importante impor tensão, fazendo a ação crescer e criando o caminho sobre o qual a história vai seguir. Trata-se da introdução de um incidente (inciting incident*). É como se déssemos partida ao motor de um veículo. É o que faz a história mover-se para alguma direção. É quando a história começa a “esquentar”, ou seja, a ascenção da ação.

* Inciting incident (ou incidente incitante): é o evento que dá início ao conflito principal da história. É o que faz a vida da personagem mudar de rumo.

Chegamos ao meio da história, na qual deve haver a superação de diversos obstáculos. Esses irão culminar no maior de todos, o Clímax da história. É hora de confrontar o antagonista. Deve ser o momento mais tenso, quando a protagonista está contra a parede e precisa mostrar a que veio.

Depois disso, a ação começa a desacelerar, conduzindo a história para o seu desfecho. Nessa fase, a protagonista geralmente precisa lidar com as consequências diretas do que ocorreu após o clímax.

Chega-se ao desfecho, ou epílogo, o qual é o fim da história. Hora de mostrar desembaraço de algumas questões pendentes, segredos, ou indicar o que vai acontecer com a protagonista (ou outros personagens relevantes) depois do fim história. Felizes para sempre?

Como escritora(or), certamente você não estará feliz para sempre, ainda… Então, vamos continuar trabalhando esse tema, com mais algumas dicas e informações para ajudar na construção de suas histórias.

Dicas do escritor Dean Koontz

Dean Koontz é um autor de diversos best sellers e escreveu dois livros sobre escrita: – Writing popular fiction – Escrevendo ficção popular (1972) e – How to write best selling fiction – Como escrever ficção “best seller” (1981).

Das obras dele, podemos extrair uma fórmula estrutural para conceber tramas envolventes para histórias. Vejamos o que ele propõe:

1. Coloque sua personagem protagonista dentro de um problema terrível o quanto antes.

O problema depende do gênero da sua história, mas seria o pior dilema que você possa imaginar para sua protagonista. Pode ser uma situação de vida ou morte, ou então a escolha muito ruim de um par romântico que leva para uma situação desastrosa. É importante ser algo de muito peso, ou muito terrível, para sua protagonista.

Esse problema deve ser capaz de se sustentar durante toda a história. Mas cuidado, mesmo se o problema for bom, você arrisca perder os leitores se você não proporcionar meios para que se conectem, se importem, com sua personagem.

2. Tudo que sua personagem faz para tentar resolver o problema piora as coisas…

Evite facilitar as coisas para sua personagem. As complicações que surgirem precisam fazer sentido. E devem crescer aos poucos. Isso me lembra muito filmes de comédia em que as complicações vão aumentando cada vez mais, a ponto de gerar um incômodo ao espectador. Lembro de alguns filmes do Ben Stiller com essa característica.

3. (…) até que a situação pareça sem solução. A última barreira deve parecer intransponível.

Torne as coisas tão difíceis de forma que sua protagonista precise de superar ou se desdobrar para conseguir resolver. É preciso ter cuidado para esse solução final mal colocada não ser um ponto de frustração para o leitor. É preciso que o triunfo da protagonista seja algo convincente.

4. Finalmente, sua protagonista vence contrariando todas as más perspectivas.

Recompense seu leitor com um desfecho conquistado pela força, caráter ou inteligência de sua protagonista. Considere o que suas ações, nesse momento crítico, sejam guiadas pelo que ele aprendeu sobre si durante toda história. É preciso ter cuidado com finais do tipo Deus ex machina, termo que surgiu na dramaturgia grega para descrever um tipo de histórias no qual, no final, para se chegar a uma solução, literalmente um Deus descia no palco preso a uma corda para resolver os conflitos dos mortais com seus poderes superiores.

Dean Koontz escreveu:

“O herói ou heroína devem constantemente estar empenhados na superação de alguma barreira que cresce logicamente a partir de suas próprias ações e tentar resolver o seu principal problema.”

Trama x Tema

Já falamos um pouco de história, trama e estruturas. Uma boa história deve responder a duas perguntas:

O que acontece?

O que isso significa?

O que acontece é a trama. O que significa é o tema.

Por exemplo, meu livro O Velho e a Devoradora de Almas conta a história de um velho, uma pessoa comum, que perde tudo depois de um ataque de dragões e que pega carona com um grupo de heróis numa jornada rumo ao desconhecido.

O livro tem vários temas, mas fala de ficar velho, ir perdendo aos poucos, amigos, parentes, e até a si próprio, suas capacidades, crenças, etc. É também um livro sobre amizade e transformação, sobre confrontar seu lado sombrio. Sobre sofrimento, paixões ordinárias e sobre escravidão.

Outro exemplo, em O Senhor dos Anéis, a trama é sobre a jornada para destruir o anel. Mas os temas são amizade, poder, sacrifício e esperança.

Leitores podem se lembrar de algo da trama da sua história, mas, em geral, muito pouco. Por outro lado, devem matutar por dias a respeito do(s) tema(s).

E você? Já pensou nos temas por trás da sua história? Que mensagem quer deixar com ela?

Planejamento de romances – parte 2

Na parte 1, vimos que antes de considerar métodos e ferramentas de planejamento, uma abordagem interessante pode ser saber primeiro o gênero de história que queremos escrever.

Um próximo ponto importante é fazemos a distinção entre história e trama (plot).

História vs Trama

Histórias, como a vida biológica complexa, começam de um embrião, ou semente. Um exercício interessante é o do resumo de elevador. Você encontra um colega, ou vizinho, no elevador e quer contar sobre seu novo livro. Tem que ser um resumo bem rápido, pois ele vai descer logo.

Exemplo (Harry Potter): É sobre um órfão que descobre que é um bruxo e vai estudar numa escola de magia. Ele precisa solucionar um mistério e enfrentar um poderoso bruxo das trevas.

O que constrói a história em seus detalhes é a trama.

É um fenômeno comum o surgimento de histórias que reproduzem um estilo de vida dos autores. Muitos autores vivem num mundo de rotinas repetitivas. Acordam, tomam café da manhã, pegam transporte para ir ao trabalho, trabalham, retornam para casa, dormem e o ciclo se repete. Já li muitas histórias que começam justamente assim escritas em plataformas como o Wattpad. Fulando acordou, desceu as escadas, abriu a geladeira e pegou uma maça para comer. Depois, tinha que ir para a escola, etc.

O que vemos nesse tipo de narrativa é uma sequência de ações não relacionadas. Isso tende a ser entediante do ponto de vista dramático.

Uma simples ação, pode ou não ser interessante. Depende da escolha do narrador. 

Por exemplo:

Fiz uma torrada para o café da manhã.

Essa ação, informação, não causa muito interesse, concordam?

Você não vai acreditar no que aconteceu quando eu fiz uma torrada para café da manhã.

 A ação é a mesma, mas a narrativa já se torna mais interessante…

Já falamos antes, sobre criação de personagens, ambientação, etc. Mas ter uma boa ambientação e bons personagens, por si só, não irá gerar uma boa história. O que vamos precisa também, e construir uma boa trama.

Trama

Podemos definir assim: São os principais eventos/ações da história apresentadas numa sequência interrelacionada. Isto é, como você conta o que aconteceu (estrutura, ritmo, ordem de apresentação).

O grande autor inglês E. M. Forster define essa diferença assim:

“O rei morreu e depois a Rainha morreu é uma história. O rei morreu e depois a Rainha morreu de tristeza é uma trama.”

Isto implica relações causais entre estes dois eventos. Ou seja, a construção de uma trama é também um exercício de lógica.

É importante criar tramas consistentes, pois nós, como seres humanos, somos “programados” para identificar e reconhecer padrões. Extrair significado do mundo que nos cerca. Se não vemos significado, perdemos o interesse e vamos largar o livro para ir fazer alguma outra coisa mais interessante.

Componentes técnicos da trama

1. Cadeia de causalidade

A trama eficiente funciona por causa e consequência — não apenas por sequência.

? História fraca: “O personagem acorda. Depois vai trabalhar. Depois encontra um dragão.”
? Trama forte: “O personagem acorda atrasado, e por isso pega um atalho desconhecido — onde encontra um dragão.”


2. Conflito

A trama gira em torno de desejos e obstáculos. Toda boa trama responde à pergunta:

“O que o protagonista quer e o que o impede?”

Sem conflito, não há movimento.


3. Viradas (Turning Points)

São momentos de grande impacto que mudam a direção da narrativa, como:

  • Revelações
  • Decisões drásticas
  • Reviravoltas
  • Mudanças de status

Esses pontos mantêm a trama dinâmica.


4. Clímax e resolução

Toda trama bem construída culmina em um ponto máximo de tensão (clímax), seguido de uma resolução que mostra as consequências das escolhas feitas.


5. Subtramas

Histórias mais complexas incluem subtramas (românticas, políticas, pessoais) que:

  • Espelham ou contrastam com a trama principal
  • Aprofundam personagens
  • Criam respiros narrativos

Estruturas de trama populares

  • Três atos: Apresentação ? Conflito ? Resolução
  • Herói com mil faces (Monomito): Jornada do herói
  • Sete pontos de Snyder (Save the Cat): Modelos para gerar empatia e viradas rítmicas
  • Trama em espiral: Revelações acumulativas em vez de progressão linear

Exemplo aplicado: Olhos Negros (fantasia sombria)

  • História: No meu primeiro romance, o pano de fundo gira em torno de necromantes que planejam por décadas tomar o poder no reino de Lacoresh, disfarçados entre o povo, nobreza, ordem dos magos e clero.
  • Trama: O leitor descobre a verdade junto aos personagens, em pedaços. A ordem dos eventos é manipulada para criar mistério e tensão psicológica, revelando os horrores aos poucos. No livro, não aparece o assunto necromantes antes da metade, o foco é numa investigação na relação entre os três personagens principais enquanto se envolvem numa investigação sobre o misterioso nascimentos de bebês com olhos totalmente negros.

Dica prática para escritores:

Comece com um mapa de eventos da história (cronologia interna).
Depois escolha o ponto ideal para começar a narrativa e crie ganchos, viradas e escalada.
Isso é construir trama.

Na sequência, vamos abordar métodos e ferramentas mais a fundo, considerando gêneros específicos.

Planejamento de romances – parte 1

Além de escrever, trabalho com planejamento no meu emprego regular. Estou muito ciente das limitações do planejamento. O que aprendi é que planejamento é uma ferramenta para melhorar nossas chances de alcançar objetivos e para funcionar melhor, deve ser flexível. Me lembra aquela famosa frase de John Lennon: “A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”.

Então nosso plano agora é tirar um tempo para refletir sobre o planejamento de histórias com um certo tamanho: romances. Estes tem quarenta mil palavras ou mais, mas o planejamento é aplicável a histórias menores, talvez, exceto muito pequenas como ficções relâmpago, afinal, é mais fácil e rápido escrever uma destas do que investir tempo em planejamento.

A abordagem “clássica” seria despejar sobre vocês as técnicas de estruturação de histórias, mas não vamos fazer isso… ainda. No meu trabalho, muitas vezes, vejo as pessoas querendo colocar a “mão na massa”, sem antes refletir e sequer traçar objetivos, muitas vezes levando à frustração e resultados limitados. Então me ocorreu que é melhor traçar seu objetivo primeiro, e depois, escolher a metodologia ou ferramentas que melhor se aplicam a este objetivo.

Então, a primeira decisão a se tomar tem a ver com aspectos gerais da história. O fato é que para bem, ou para o mal, a literatura está dividida em gêneros. São convenções que facilitam para o leitor encontrar novas histórias de que possivelmente vai gostar. Temos, romance, aventura, horror, fantasia, ficção científica, romance histórico, policial/mistério, etc.

Sim, determinados gêneros literários exigem ou favorecem métodos de planejamento específicos, justamente devido a suas convenções estruturais, expectativas do público e elementos técnicos. Vamos usar o exemplo do romance policial/mistério, mas a lógica se aplica também a gêneros como ficção científica, romance histórico, thrillers, etc.


Por que o gênero policial/mistério exige um planejamento específico?

O mistério e a investigação são gêneros altamente estruturados, onde:

  • Pistas precisam ser plantadas de forma sutil.
  • Reviravoltas devem ser críveis e surpreendentes.
  • O final precisa fazer sentido retrospectivamente.
  • O leitor é convidado a resolver o mistério junto com o protagonista.

Isso exige planejamento cuidadoso, especialmente no controle da informação: o que o leitor sabe, o que o detetive sabe e o que o criminoso sabe.


Método recomendado: Planejamento Reverso (Reverse Engineering)

Esse método é ideal para histórias de mistério, crimes, assassinatos ou conspirações.

Etapas:

  1. Comece pelo final
    • Quem cometeu o crime?
    • Como e por quê?
    • Como o detetive descobre isso?
  2. Construa o crime e o encobrimento
    • Detalhe o plano do criminoso.
    • Considere o álibi, pistas falsas e possíveis testemunhas.
  3. Espalhe as pistas (foreshadowing)
    • Insira pistas verdadeiras disfarçadas de irrelevantes.
    • Adicione falsas pistas (red herrings) para confundir.
  4. Planeje a investigação passo a passo
    • Cada capítulo revela algo, aumenta a tensão ou complica o mistério.
    • Pense em obstáculos, entrevistas, perseguições, revelações.
  5. Organize a linha do tempo dos eventos (antes e depois do crime)
    • Uma cronologia clara é essencial para não cometer inconsistências.

Ferramenta útil para mistério/policial:

Quadro de Investigação (Estilo Detetive)

  • Use um mural ou software para mapear:
    • Suspeitos
    • Motivos
    • Ligações entre eles
    • Provas e pistas
  • Ajuda o escritor a visualizar a complexidade do caso.

Visto isso, podemos ir para as próximas partes. Vamos explorar diferença entre história e trama, e dicas e métodos específicos para os gêneros com os quais tenho mais contato e experiência, Fantasia e Ficção Científica. Até lá!

Page 1 of 8

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén