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Por que escrever a história de um vilão?

Quando escrevi O Velho e a Devoradora de Almas, tive a sensação de que aquele universo ainda guardava outras histórias.

Isso acontece algumas vezes com um escritor. Você termina um livro e imagina que finalmente poderá deixar aqueles personagens para trás, mas alguns continuam voltando à cabeça. Às vezes é uma cena que ficou sem resposta. Outras vezes, um personagem que parecia secundário revela possibilidades que não haviam sido exploradas.

No meu caso, foi Le’Daman.

Ele era o misterioso antagonista de O Velho e a Devoradora de Almas. Não era o protagonista e sua história pessoal aparecia apenas pelas margens da narrativa. Ainda assim, havia nele um potencial que me fazia pensar que aquela história não havia terminado.

Comecei então a imaginar como seria escrever um livro pela perspectiva de alguém que, em outra história, já conhecíamos como vilão.

E foi aí que surgiu uma pergunta fundamental para a criação de O Bruxo e a Foice Sombria:

O que faz alguém se tornar um vilão?

E se o vilão fosse o protagonista?

Quando normalmente contamos uma história de fantasia, acompanhamos o herói. Conhecemos seus objetivos, seus medos e suas motivações. O mundo é apresentado através de seus olhos, enquanto o antagonista aparece do outro lado.

Sabemos o que ele faz e vemos suas consequências, mas nem sempre conhecemos seu caminho.

Foi justamente isso que me interessou em Kurdis Le’Daman.

Eu queria saber quem era aquele homem antes de se tornar o bruxo que conhecíamos. Queria acompanhar sua transformação e entender como ele próprio enxergava suas escolhas.

Um vilão precisa ser absolutamente mau e cruel? Ele sabe que é um vilão? Ou será que, dentro da própria história, ele se considera apenas alguém tentando sobreviver?

Essas perguntas não significavam que eu queria justificar as ações de Kurdis. Compreender um personagem não é o mesmo que absolvê-lo. Mas me parecia interessante acompanhar o caminho que leva alguém de um ponto a outro.

Uma história sobre escolhas

Kurdis não começa sua trajetória como um grande vilão.

Sua magia desperta ainda na juventude, de maneira trágica, e o obriga a ingressar na escola de magia da ordem Maihari. Depois vêm a guerra, as perdas e uma arma que mudará profundamente sua vida: a Foice Sombria.

A partir daí, suas escolhas começam a se acumular.

Algumas são feitas para sobreviver. Outras parecem necessárias. Há escolhas motivadas pelo desejo de proteger alguém e outras pelo desejo de vingança.

Talvez a transformação de alguém em vilão não aconteça em um único momento, mas seja construída aos poucos.

Elric, Stormbringer e a sombra de Michael Moorcock

Há também uma influência literária importante por trás de O Bruxo e a Foice Sombria: Michael Moorcock e o icônico Elric de Melniboné.

Stormbringer – Michael Whelan

Elric me marcou pela maneira como Moorcock subverteu algumas convenções da fantasia heroica. Ele não é exatamente o herói tradicional que atravessa o mundo derrotando seus inimigos e fazendo o bem. É um personagem atormentado, moralmente ambíguo, cercado por forças que muitas vezes parecem maiores do que sua própria vontade.

E existe Stormbringer.

A espada amaldiçoada de Elric não é apenas uma arma poderosa. Ela é parte fundamental de sua identidade e de sua trajetória.

Quando comecei a desenvolver Kurdis, essa ideia encontrou um lugar natural dentro da história.

Se Elric tinha Stormbringer, Kurdis teria a Foice Sombria.

Kurdis Le’Daman – Ilustração de conceito modificada à partir de IA.

Mas eu não queria simplesmente repetir a ideia de uma única arma amaldiçoada. No universo que estava construindo, existiria uma coleção de armas tocadas por forças sombrias, cada uma carregando sua própria história.

A Foice seria uma delas.

Também existe um paralelo entre as forças que acompanham os dois personagens. Elric tem Arioch, um Duque do Inferno, como seu patrono. Kurdis encontra sua própria contraparte no Arcano Sombrio Fre’garzam.

A influência de Moorcock está, portanto, menos em reproduzir Elric e mais na possibilidade de construir uma fantasia em que magia, poder, destino e corrupção estejam profundamente ligados à trajetória de um personagem moralmente ambíguo.

A arma que não é apenas uma arma

A Foice Sombria acabou assumindo uma função importante porque eu não queria que fosse apenas um objeto poderoso encontrado pelo caminho.

Ela representa uma tentação.

Em meio a uma guerra, quando você encontra uma arma capaz de mudar o resultado de uma batalha, é fácil encontrar justificativas para utilizá-la.

“É apenas desta vez.”

“É necessário.”

“Consigo controlar.”

“Estou fazendo isso pelo meu reino.”

O problema é que determinadas escolhas continuam produzindo consequências depois que a decisão foi tomada.

É isso que torna uma arma amaldiçoada particularmente interessante: ela permite transformar um conflito externo em um conflito interno.

Kurdis não precisa apenas lutar contra seus inimigos. Em determinado momento, precisa lutar contra aquilo que o próprio poder começa a fazer com ele.

O outro lado do espelho

Por isso considero O Bruxo e a Foice Sombria uma obra espelhada em relação a O Velho e a Devoradora de Almas.

No primeiro livro, acompanhamos Vedd e vemos Le’Daman principalmente como uma ameaça.

Aqui, acompanhamos Kurdis.

Vemos sua infância, sua formação, suas perdas, suas escolhas e o caminho que o levará a se tornar o personagem que já conhecíamos.

É o mesmo universo, mas visto do outro lado do espelho.

Essa perspectiva também me permitiu explorar partes do mundo que estavam apenas nas margens do primeiro livro: suas lendas, seus antigos deuses, seus demônios e forças que permaneceram ocultas durante eras.

Por que contar uma história cujo final já conhecemos?

Existe uma última questão interessante.

Quem leu O Velho e a Devoradora de Almas já sabe, em alguma medida, quem Kurdis vai se tornar.

Então por que contar sua história?

Porque conhecer o destino não significa conhecer o caminho. Eu sabia onde Le’Daman deveria chegar. Mas ainda precisava descobrir como Kurdis chegaria até lá.

Quais acontecimentos transformariam aquele jovem no bruxo que conheceríamos depois? Quantas perdas seriam necessárias? Quantas vezes ele precisaria escolher entre aquilo que considera certo e aquilo que acredita ser necessário?

Talvez seja por isso que histórias sobre vilões possam ser tão interessantes. Não porque precisamos descobrir que eles eram, na verdade, bons. Mas porque podemos compreender sua trajetória.

O homem antes do bruxo

Foi dessa curiosidade que nasceu O Bruxo e a Foice Sombria. Eu queria conhecer o homem que existia antes de Le’Daman. Queria explorar um personagem que já possuía um destino conhecido, mas cuja trajetória ainda estava aberta para mim.

E, ao fazer isso, encontrei uma história sobre magia, dragões, armas sombrias, deuses antigos, guerras e vingança, mas também uma história sobre escolhas e consequências.

E talvez seja justamente por tudo isso que, às vezes, vale a pena olhar para o outro lado do espelho.

Achou interessante? Aguarde… O Bruxo e a Foice Sombria será lançado, em breve.

Entrevista com Matt Dinniman e um breve comentário sobre o DCC#6

Confesso: viciei na série Dungeon Crawler Carl, escrita pelo autor norte-americano Matt Dinniman. Já publiquei aqui resenhas dos livros 1, 2 e do 3 ao 5, e acabei de concluir a leitura do sexto volume, The Eye of the Bedlam Bride. A leitura foi ótima — divertida, surpreendente e, mais uma vez, impressionante pela forma como o autor consegue inserir novos conceitos, mecânicas e reviravoltas no universo da série, mesmo nesta altura da história. Adorei a participação de orixás como Ogum e Yemanjá, e também figuras absurdas como o Uzi Jesus, demônios do tamanho de kaijus, caranguejos e focas mestres em artes marciais e menções à “raça” curupira (um dos personagens, o brasileiro, Osvaldo, é um Curupira Ranger, rs).

Curioso para saber mais sobre o autor, fui atrás de algumas entrevistas. Li uma publicada na Grimdark Magazine, outra no blog Before We Go, e por fim, a mais recente — que traduzi a seguir — feita pelo blogueiro Paul Semel.

Antes de ir para a entrevista, um pouco mais sobre o autor. Além de ser escritor, Matt Dinniman, também é artista gráfico e músico (toca baixo em duas bandas). Natural de Gig Harbor, Washington, EUA, começou a publicar a série DCC de forma independente em 2019, mas hoje já tem livros em editoras tracionais e em audiobooks (que venderam mais que o formato físico).

Foto por: Toby Dinniman

Em agosto de 2024, os direitos da série foram comprados pela Universal e Seth MacFarlane. Está sendo adaptada uma série para TV com roteiro de Christopher Yost.

Dinniman se descreve como “pantser” — ou seja, escreve sem um roteiro rígido, improvisando conforme avança. Ele mantém meticulosos registros da trama, utilizando planilhas que levaram à criação de um banco de dados em Notion por conta da complexidade.

Inspirado por jogos como RuneScape, Diablo e StarCraft, Dinniman introduz mecânicas de RPG e jogos dentro da narrativa, como sistemas de níveis, experiência e cartas que refletem essas influências dentro da história fictícia.

Ele costuma permitir que apoiadores do Patreon votem em aspectos da história — como a escolha de Cuba como cenário do oitavo andar em The Eye of the Bedlam Bride.

Desde 2023, foi anunciada uma webcomic oficial de Dungeon Crawler Carl, em desenvolvimento com a Laurel Pursuit Art Studio.

O plano atual do autor é completar a saga Dungeon Crawler Carl em cerca de dez livros, embora ele afirme que “nada é definitivo”.

Também é autor da série Dominion of Blades, dos livros The Shivered Sky e de romances como Kaiju: Battlefield Surgeon e Operation Bounce House (com publicação prevista para 2026).

Entrevista publicada originalmente no por Paul Semel, em 15 de maio de 2025.

Cinco anos atrás, o autor Matt Dinniman lançou sua série de ficção científica / fantasia / LitRPG Dungeon Crawler Carl quando publicou de forma independente o primeiro romance da série… e rapidamente chamou a atenção dos fãs de histórias LitRPG. Isso, por sua vez, chamou a atenção da Ace Books, que começou a relançar os romances em 2024.

Com o sexto livro, The Eye Of The Bedlam Bride (O Olho da Noiva do Caos), recém-lançado pela Ace em capa dura (nos EUA) — poucas semanas após o relançamento do quarto (The Gate Of The Feral Gods / O Portal dos Deuses Selvagens) e do quinto (The Butcher’s Masquerade / O Baile do Açougueiro) — conversei com Dinniman por e-mail sobre a série e sobre Bedlam Bride.


Para quem nunca leu os romances de Dungeon Crawler Carl, quem é Carl, o que ele faz, sobre o que é essa série, e quando e onde essas histórias se passam?

Dungeon Crawler Carl é um livro sobre um eletricista naval de 27 anos, ex-guarda-costeira, que, junto com a gata de exposição premiada de sua ex-namorada, é forçado a competir em um reality show alienígena chamado Dungeon Crawler World.


E tem um motivo específico para a gata da ex-namorada de Carl se chamar Princess Donut? É porque quando ela se deita pra tirar um cochilo, ela se enrola como uma rosquinha? Porque no livro The Last Gifts Of The Universe de Riley August, o gato se chama Pumpkin exatamente por esse motivo.

Princess Donut é uma gata de exposição, e seu nome completo é GC, BWR, NW Princess Donut The Queen Anne Chonk. Como na maioria dos gatis, há um tema nos nomes de todos os gatos. No caso dela, todos os parentes têm nomes inspirados em doces. Ela tem um irmão chamado Skittles, por exemplo.


Legal. E então, para quem já leu os livros anteriores, sobre o que é The Eye Of The Bedlam Bride, e em que momento ele se passa em relação ao livro anterior, The Butcher’s Masquerade?

O programa em que eles estão presos consiste em uma masmorra de 18 andares. The Butcher’s Masquerade é o clímax dos andares seis e sete.

A ação de The Eye Of The Bedlam Bride começa imediatamente após o fim de Masquerade, e detalha os acontecimentos do oitavo andar. Cada andar apresenta desafios diferentes, e no oitavo, eles se encontram numa cópia da superfície da Terra nas semanas que antecedem a invasão alienígena. Eles precisam encontrar e capturar monstros, que são transformados em cartas, e então precisam lutar usando essas cartas.


De onde veio a ideia original para The Eye Of The Bedlam Bride, e como, se é que mudou, ela evoluiu conforme você escrevia?

A localização desse andar, Cuba, foi escolhida por votação no meu Patreon. A ideia das cartas é algo que eu já tinha em mente há bastante tempo.


Os romances Dungeon Crawler Carl misturam ficção científica e fantasia, mas também são o que se chama de LitRPGs. Para quem não conhece o termo, o que é um romance LitRPG, e como a série usa esses elementos?

Um romance LitRPG é um livro onde algum aspecto do mundo em que os personagens vivem é controlado por mecânicas semelhantes às de videogames. Por exemplo, em Dungeon Crawler Carl, eles estão jogando um jogo. Os personagens e os leitores estão cientes disso. Todos começam no nível 1, e quando matam inimigos, ganham pontos de experiência e sobem de nível. Ao subir de nível, podem alocar “pontos” para aumentar força, destreza, etc. Os personagens têm consciência dessas regras do mundo. Eles podem aprender magias. É como estar preso em um videogame na vida real.


Você publicou originalmente os seis primeiros romances de Dungeon Crawler Carl de forma independente, incluindo The Eye Of The Bedlam Bride. Ele foi influenciado por algum autor ou história que não tinha sido influência — ou não tanto — nos livros anteriores?

Não particularmente, não. Mas o aspecto das cartas desse andar foi fortemente influenciado por Pokémon e Yu-Gi-Oh.


Agora, o motivo desta entrevista é que The Eye Of The Bedlam Bride está sendo relançado pela Ace Books. E, pelo que entendi, essa nova edição impressa tem conteúdo extra. O que foi adicionado à edição de Bedlam Bride, e por que você quis incluir isso?

A versão publicada pela Ace é quase idêntica em todos os aspectos, com exceção de um zilhão de vírgulas a mais [risos]. Já os livros em capa dura incluem uma história paralela extra chamada Backstage At The Pineapple Cabaret (Nos Bastidores do Cabaré do Abacaxi). É uma narrativa contínua sobre NPCs dentro do jogo.


Mas The Eye Of The Bedlam Bride não é o único Dungeon Crawler Carl sendo relançado. Uma nova versão do quinto livro, The Butcher’s Masquerade (2023), saiu há um mês, enquanto a do quarto, The Gate Of The Feral Gods (2021), foi relançada algumas semanas antes. Sobre o que são esses livros, e como se conectam aos anteriores?

The Gate Of The Feral Gods conta a história do quinto andar da masmorra, enquanto The Dungeon Anarchist’s Cookbook é sobre o quarto andar. Todos esses livros começam imediatamente após o final do anterior.


E as novas versões de The Butcher’s Masquerade e The Gate Of The Feral Gods também têm extras, como The Eye Of The Bedlam Bride?

Sim. Cada um deles tem um novo capítulo de Backstage At The Pineapple Cabaret.


Por fim, se alguém gostou de The Eye Of The Bedlam Bride e dos outros livros de Dungeon Crawler Carl, que romance ou novela LitRPG de outro autor você recomendaria, para ler enquanto espera o próximo livro do Carl?

Eu adoro a série The Wandering Inn da pirate aba, He Who Fights With Monsters do Shirtaloon, The Good Guys de Eric Ugland, e a série Cradle de Will Wight.

Demolidor: O Homem Sem Medo e a Reinvenção do Herói Urbano

Artigo convidado. Autor VitorX do podcast X-Wars. Escute no Spotify ou Apple Podcasts.

O Demolidor é um dos primeiros personagens da Marvel e quase unanimidade no gosto dos leitores. Criado por Stan Lee e Bill Everett em 1964, com contribuições de Jack Kirby, Matt Murdock surgiu como um herói singular: um advogado cego cujos sentidos ampliados o tornavam um combatente do crime excepcional. Desde sua concepção, o Demolidor já trazia um dos pilares da Marvel: heróis imperfeitos e vulneráveis, que precisavam lidar com problemas pessoais tanto quanto com supervilões.

Primeira aparição do Demolidor (1964)

No entanto, foi apenas nos anos 1980, sob o comando de um jovem e ainda desconhecido Frank Miller, que o Demolidor se tornou um dos personagens mais emblemáticos dos quadrinhos. E, com isso, deu origem ao conceito moderno do herói urbano, implacável em sua sede por justiça, que mais tarde seria levado ao Batman e a outros personagens.

A Criação do Demolidor e o DNA da Marvel.

Muito antes da questão da inclusão social virar moda, a Marvel já fazia isso da melhor e mais natural forma possível. Quando Stan Lee concebeu o Demolidor, ele queria um herói diferente. Normalmente, Lee concebia primeiro os poderes e depois desenvolvia os personagens, como ele mesmo declarou em várias entrevistas ao longo da vida, mas neste caso ele saiu da premissa de um herói que tivesse uma deficiência. Inspirado em histórias de superação, Lee criou o primeiro grande super-herói cego, rompendo com a tradição dos protagonistas invulneráveis e perfeitos. Como parte do espírito inovador da Marvel, Lee sempre introduziu diversidade em suas histórias: Pantera Negra foi o primeiro super-herói negro com protagonismo dos quadrinhos, seguido por Luke Cage que tinha histórias que abordava questionamentos sociais, Donald Blake (alter-ego do Thor) era manco e andava com ajuda de uma bengala, sem falar dos X-Men que representam as minorias perseguidas entre outros exemplos de personagens que lidam com questões como raça, deficiência, equilíbrio mental, aceitação, vícios, etc.

O Demolidor, além de ser um herói com deficiência visual, tem um histórico marcado pela tragédia: seu pai, um boxeador decadente, é assassinado por mafiosos, o que leva Matt a buscar justiça como advogado de dia e vigilante à noite. Esse equilíbrio entre justiça e vingança, ordem e caos, se tornaria o núcleo do personagem – e a base para sua evolução sob o comando de Frank Miller.

A Chegada de Frank Miller e a Transformação do Demolidor.

Frank Miller começou como desenhista do título, mas logo assumiu também os roteiros e mudou tudo. Ele trouxe um tom mais sombrio e violento, inspirando-se em filmes noir e histórias de crime. Foi nessa fase que o Demolidor deixou de ser apenas mais um herói da Marvel e se tornou o primeiro grande herói urbano dos quadrinhos, enfrentando o crime organizado e a criminalidade urbana. Miller recontou a origem do Demolidor, aprofundando sua mitologia. Ele expandiu a relação de Matt Murdock com seu pai, Jack Murdock, tornando sua morte ainda mais trágica e significativa. Também desenvolveu o treinamento de Matt com Stick, um mentor cego que o ensinou a usar seus sentidos ampliados para se tornar um lutador letal. Essa abordagem deu ao Demolidor uma camada mais densa e emocional, conectando-o ao arquétipo do guerreiro disciplinado.

Além disso, Miller soube trabalhar melhor os personagens secundários, tornando-os peças fundamentais da narrativa. Foggy Nelson, o melhor amigo e sócio de Matt, ganhou mais profundidade e se tornou o alicerce emocional do herói. Ben Urich, o jornalista investigativo do Daily Bugle, foi transformado em uma figura crucial, sendo responsável por algumas das revelações mais importantes da série. A relação entre Matt e Karen Page, que antes era apenas um interesse romântico genérico, passou a ter nuances mais realistas e dramáticas, culminando na trágica trajetória da personagem em A Queda de Murdock (Born Again).

Daredevel #181 (1962)

Elektra Natchios foi criada por Frank Miller e apareceu pela primeira vez em Daredevil #168, publicada em janeiro de 1981. Introduzida como uma assassina mortal e ex-namorada de Matt Murdock, Elektra rapidamente se tornou uma das personagens mais icônicas da mitologia do Demolidor e da Marvel. Seu impacto na vida do herói foi devastador: além de representar um amor perdido, sua presença o colocou em um dilema moral constante, pois, apesar de ainda a amar, Elektra trabalhava como assassina de aluguel para o Tentáculo e o Rei do Crime. Sua morte brutal pelas mãos do Mercenário, em Daredevil #181 (abril de 1982), foi um dos momentos mais chocantes e impactantes da história dos quadrinhos, consolidando a abordagem sombria e trágica que Frank Miller trouxe para a série.

Outra grande mudança de Miller foi transformar Wilson Fisk, o Rei do Crime, no principal vilão do Demolidor. Originalmente um adversário do Homem-Aranha, Fisk sempre foi um chefão do crime, mas sem a profundidade e a ameaça que Miller lhe conferiu.

Antes de Frank Miller, o Mercenário era um vilão de segunda categoria. Mas Miller o transformou no inimigo mortal do Demolidor, um assassino sádico que matava por prazer. Sua maior atrocidade foi a morte de Elektra, na icônica cena de Daredevil #181. O impacto dessa cena é inegável: a arte de Miller, detalhista e cinematográfica, faz com que cada golpe pareça real. O olhar de Elektra, o sangue escorrendo de seu corpo e sua tentativa final de rastejar até Matt são dolorosamente belos e brutais. Mas Miller não parou por aí. Em uma das histórias mais memoráveis, o Demolidor enfrenta o Mercenário novamente e o derrota, arremessando-o de um prédio, deixando-o paralisado. Mais tarde, na icônica cena da roleta-russa, Matt visita o Mercenário no hospital e coloca uma arma na cabeça do vilão e entre seus diálogos aciona várias vezes o gatilho contra ele e contra si mesmo. Sem dizer se há balas ou não, ele puxa o gatilho repetidamente, testando os nervos de seu inimigo. No final, revela que a arma estava vazia – uma demonstração fria e calculista que redefine o personagem.

Anos depois, na segunda passagem pelo personagem em A Queda de Murdock (Born Again), escrita por Miller e desenhada por David Mazzucchelli, o Rei do Crime descobre a identidade secreta do Demolidor e destrói sua vida por completo. Ele usa sua influência para desmantelar a carreira de Matt Murdock, fazendo com que ele perca tudo – sua casa, seu dinheiro e sua sanidade.

O Catolicismo do Demolidor: A Fé Contra o Diabo

Uma das grandes inovações de Frank Miller foi explorar a relação de Matt Murdock com o catolicismo. Desde o início, o personagem sempre teve um forte senso de moralidade, mas foi nas histórias de Miller que isso se tornou um dilema central.A ironia de um herói chamado Daredevil (Demônio Desafiante) ser um católico fervoroso criou uma dicotomia fascinante. Matt vive em um constante conflito entre seu desejo por justiça e sua fé em Deus. Ele acredita no perdão, mas se vê forçado a derrubar criminosos violentamente. Essa dualidade ressoou fortemente com o público, especialmente no Brasil, um país de tradição católica, onde o Demolidor encontrou uma base de fãs fiel.

A Queda de Murdock e a Paixão de Cristo

Em A Queda de Murdock (Born Again), Frank Miller estrutura a narrativa de forma semelhante à Paixão de Cristo. Assim como o caminho da cruz é representado por 14 estações, Miller compõe sua obra com 14 splash pages, que pontuam a jornada de sofrimento e ressurreição de Matt.

Além disso, as edições seguem um padrão visual simbólico: nas primeiras páginas, Matt aparece deitado em sua cama, e conforme sua vida se desfaz, ele se encolhe cada vez mais, até assumir uma posição fetal. No auge da queda, a composição da cena remete à imagem de um feto indefeso, representando sua completa derrota. Mas, à medida que ele começa a se recuperar, sua cama passa a ter a silhueta de uma cruz, um detalhe sutil, mas poderoso. Miller não sugere que o Demolidor seja uma figura messiânica, mas usa essa estrutura para enfatizar a dor, o sacrifício e a redenção – temas centrais tanto no cristianismo quanto na jornada do personagem.

O Legado de Frank Miller e a Consolidação do Herói Urbano

Após o sucesso de sua fase no Demolidor, Miller levou sua abordagem ao Batman em O Cavaleiro das Trevas e depois em Batman – Ano Um, redefinindo o personagem para sempre. Além disso, explorou novos estilos em obras como:

  • Ronin, uma fusão de ficção científica e samurais.
  • Elektra: Assassina, com Bill Sienkiewicz, uma história experimental e psicodélica.
  • Sin City, sua visão definitiva do gênero noir.
  • 300, que levou sua cinematografia dos quadrinhos ao extremo.

O Demolidor foi seu laboratório, e sem ele, talvez o Batman moderno – e muitos outros heróis urbanos – nunca tivessem existido da forma como conhecemos hoje.

O Demolidor Hoje: Da Netflix à Nova Série “Born Again” no Disney +

A série da Netflix, estrelada por Charlie Cox, adaptou algumas das fases de Miller. Já a nova série Daredevil: Born Again, apesar do nome, não adapta diretamente A Queda de Murdock, mas se inspira em sagas modernas, como a ascensão do Rei do Crime ao cargo de prefeito de Nova York.

Ouso dizer que, tanto a série da Netflix como a do Disney + estão entre as melhores adaptações de quadrinhos para tv. O Demolidor sempre foi um herói fascinante, símbolo de resiliência, sacrifício e justiça. Se você não assistiu à série do herói, assista e se ainda não leu os quadrinhos, não perca mais tempo, além das citadas aqui, o Demolidor é um personagem com várias sagas incríveis!

Matt Murdock, interpretado por Charlie Cox.

Ficou interessado? Que tal ler a série “A Queda de Murdock”?

Sete histórias de Espada e Feitiçaria que vão ativar sua imaginação

Artigo convidado. Autor VitorX do podcast X-Wars. Escute no Spotify ou Apple Podcasts.

Histórias de espada e feitiçaria possuem um tipo especial de magia para mim. Elas são intensas, aceleradas e repletas de heróis imperfeitos, mas cativantes, enfrentando desafios impossíveis. Diferente das grandes epopeias da alta fantasia (que eu também adoro!), esses contos são crus, íntimos e profundamente pessoais, nos colocando bem no centro do perigo, do mistério e da magia sombria.

Ao longo dos anos, sempre me vejo voltando a certas histórias que encapsulam tudo o que amo no gênero. Elas são eletrizantes, atmosféricas e repletas de personagens que permanecem na mente muito depois da última página. Aqui estão sete das melhores—histórias que deixaram uma marca em mim e farão o mesmo com você.

Tecnofantasia: explore o Subgênero que Une Magia e Tecnologia

CRYSTAL SINGER (1981)
Acrylic on Watercolor Board 20? x 30?
Artista: Michael Whelan
Ilustração para a obra de Anne McCaffrey

Tecnofantasia é um subgênero da fantasia que mistura elementos de ciência e tecnologia com a magia, sem se prender a explicações científicas ou racionalizações. Quanto menos realistas e mais as explicações tecnológicas assumem um tom de “tecnojargão” e abraçam o irreal, mais a obra se aproxima da tecnofantasia. Esse conceito foi descrito como “destruir a diferença entre magia e ciência”.

Em que subgêneros de fantasia temos interação de magia e máquinas?

Subgêneros literários ajudam a categorizar obras e criar expectativas nos leitores, mas nem sempre uma história se encaixa perfeitamente em uma única categoria. Muitas vezes, encontramos obras que misturam elementos de vários gêneros, e a tecnofantasia é um excelente exemplo disso.

Para falar dos gêneros adjacentes à Tecnofantasia, poderíamos navegar pela Fantasia Urbana, Dungeon Punk, Fantasia Científica entre outros. Mas selecionei o Dungeon Punk como um subgênero muito próximo que ajuda e entender a Tecnofantasia.

Dungeon Punk

Conforme o site TV Tropes, Dungeon Punk é um subgênero que aplica a estética sombria e distópica (como Cyberpunk e Steampunk) a cenários de fantasia heroica. Neste gênero, magia e tecnologia se fundem de forma única:

  • Ferrovias movidas por demônios presos ou elementais de ar.
  • Rádios que utilizam magia simpática ao invés de ondas eletromagnéticas.
  • Forças aéreas compostas por cavaleiros de dragão, e não por pilotos de caça.

Dungeon Punk compartilha muito com a tecnofantasia, pois apresenta um mundo onde magia e tecnologia são indistinguíveis ou se complementam.

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