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Entrevista com Matt Dinniman e um breve comentário sobre o DCC#6

Confesso: viciei na série Dungeon Crawler Carl, escrita pelo autor norte-americano Matt Dinniman. Já publiquei aqui resenhas dos livros 1, 2 e do 3 ao 5, e acabei de concluir a leitura do sexto volume, The Eye of the Bedlam Bride. A leitura foi ótima — divertida, surpreendente e, mais uma vez, impressionante pela forma como o autor consegue inserir novos conceitos, mecânicas e reviravoltas no universo da série, mesmo nesta altura da história. Adorei a participação de orixás como Ogum e Yemanjá, e também figuras absurdas como o Uzi Jesus, demônios do tamanho de kaijus, caranguejos e focas mestres em artes marciais e menções à “raça” curupira (um dos personagens, o brasileiro, Osvaldo, é um Curupira Ranger, rs).

Curioso para saber mais sobre o autor, fui atrás de algumas entrevistas. Li uma publicada na Grimdark Magazine, outra no blog Before We Go, e por fim, a mais recente — que traduzi a seguir — feita pelo blogueiro Paul Semel.

Antes de ir para a entrevista, um pouco mais sobre o autor. Além de ser escritor, Matt Dinniman, também é artista gráfico e músico (toca baixo em duas bandas). Natural de Gig Harbor, Washington, EUA, começou a publicar a série DCC de forma independente em 2019, mas hoje já tem livros em editoras tracionais e em audiobooks (que venderam mais que o formato físico).

Foto por: Toby Dinniman

Em agosto de 2024, os direitos da série foram comprados pela Universal e Seth MacFarlane. Está sendo adaptada uma série para TV com roteiro de Christopher Yost.

Dinniman se descreve como “pantser” — ou seja, escreve sem um roteiro rígido, improvisando conforme avança. Ele mantém meticulosos registros da trama, utilizando planilhas que levaram à criação de um banco de dados em Notion por conta da complexidade.

Inspirado por jogos como RuneScape, Diablo e StarCraft, Dinniman introduz mecânicas de RPG e jogos dentro da narrativa, como sistemas de níveis, experiência e cartas que refletem essas influências dentro da história fictícia.

Ele costuma permitir que apoiadores do Patreon votem em aspectos da história — como a escolha de Cuba como cenário do oitavo andar em The Eye of the Bedlam Bride.

Desde 2023, foi anunciada uma webcomic oficial de Dungeon Crawler Carl, em desenvolvimento com a Laurel Pursuit Art Studio.

O plano atual do autor é completar a saga Dungeon Crawler Carl em cerca de dez livros, embora ele afirme que “nada é definitivo”.

Também é autor da série Dominion of Blades, dos livros The Shivered Sky e de romances como Kaiju: Battlefield Surgeon e Operation Bounce House (com publicação prevista para 2026).

Entrevista publicada originalmente no por Paul Semel, em 15 de maio de 2025.

Cinco anos atrás, o autor Matt Dinniman lançou sua série de ficção científica / fantasia / LitRPG Dungeon Crawler Carl quando publicou de forma independente o primeiro romance da série… e rapidamente chamou a atenção dos fãs de histórias LitRPG. Isso, por sua vez, chamou a atenção da Ace Books, que começou a relançar os romances em 2024.

Com o sexto livro, The Eye Of The Bedlam Bride (O Olho da Noiva do Caos), recém-lançado pela Ace em capa dura (nos EUA) — poucas semanas após o relançamento do quarto (The Gate Of The Feral Gods / O Portal dos Deuses Selvagens) e do quinto (The Butcher’s Masquerade / O Baile do Açougueiro) — conversei com Dinniman por e-mail sobre a série e sobre Bedlam Bride.


Para quem nunca leu os romances de Dungeon Crawler Carl, quem é Carl, o que ele faz, sobre o que é essa série, e quando e onde essas histórias se passam?

Dungeon Crawler Carl é um livro sobre um eletricista naval de 27 anos, ex-guarda-costeira, que, junto com a gata de exposição premiada de sua ex-namorada, é forçado a competir em um reality show alienígena chamado Dungeon Crawler World.


E tem um motivo específico para a gata da ex-namorada de Carl se chamar Princess Donut? É porque quando ela se deita pra tirar um cochilo, ela se enrola como uma rosquinha? Porque no livro The Last Gifts Of The Universe de Riley August, o gato se chama Pumpkin exatamente por esse motivo.

Princess Donut é uma gata de exposição, e seu nome completo é GC, BWR, NW Princess Donut The Queen Anne Chonk. Como na maioria dos gatis, há um tema nos nomes de todos os gatos. No caso dela, todos os parentes têm nomes inspirados em doces. Ela tem um irmão chamado Skittles, por exemplo.


Legal. E então, para quem já leu os livros anteriores, sobre o que é The Eye Of The Bedlam Bride, e em que momento ele se passa em relação ao livro anterior, The Butcher’s Masquerade?

O programa em que eles estão presos consiste em uma masmorra de 18 andares. The Butcher’s Masquerade é o clímax dos andares seis e sete.

A ação de The Eye Of The Bedlam Bride começa imediatamente após o fim de Masquerade, e detalha os acontecimentos do oitavo andar. Cada andar apresenta desafios diferentes, e no oitavo, eles se encontram numa cópia da superfície da Terra nas semanas que antecedem a invasão alienígena. Eles precisam encontrar e capturar monstros, que são transformados em cartas, e então precisam lutar usando essas cartas.


De onde veio a ideia original para The Eye Of The Bedlam Bride, e como, se é que mudou, ela evoluiu conforme você escrevia?

A localização desse andar, Cuba, foi escolhida por votação no meu Patreon. A ideia das cartas é algo que eu já tinha em mente há bastante tempo.


Os romances Dungeon Crawler Carl misturam ficção científica e fantasia, mas também são o que se chama de LitRPGs. Para quem não conhece o termo, o que é um romance LitRPG, e como a série usa esses elementos?

Um romance LitRPG é um livro onde algum aspecto do mundo em que os personagens vivem é controlado por mecânicas semelhantes às de videogames. Por exemplo, em Dungeon Crawler Carl, eles estão jogando um jogo. Os personagens e os leitores estão cientes disso. Todos começam no nível 1, e quando matam inimigos, ganham pontos de experiência e sobem de nível. Ao subir de nível, podem alocar “pontos” para aumentar força, destreza, etc. Os personagens têm consciência dessas regras do mundo. Eles podem aprender magias. É como estar preso em um videogame na vida real.


Você publicou originalmente os seis primeiros romances de Dungeon Crawler Carl de forma independente, incluindo The Eye Of The Bedlam Bride. Ele foi influenciado por algum autor ou história que não tinha sido influência — ou não tanto — nos livros anteriores?

Não particularmente, não. Mas o aspecto das cartas desse andar foi fortemente influenciado por Pokémon e Yu-Gi-Oh.


Agora, o motivo desta entrevista é que The Eye Of The Bedlam Bride está sendo relançado pela Ace Books. E, pelo que entendi, essa nova edição impressa tem conteúdo extra. O que foi adicionado à edição de Bedlam Bride, e por que você quis incluir isso?

A versão publicada pela Ace é quase idêntica em todos os aspectos, com exceção de um zilhão de vírgulas a mais [risos]. Já os livros em capa dura incluem uma história paralela extra chamada Backstage At The Pineapple Cabaret (Nos Bastidores do Cabaré do Abacaxi). É uma narrativa contínua sobre NPCs dentro do jogo.


Mas The Eye Of The Bedlam Bride não é o único Dungeon Crawler Carl sendo relançado. Uma nova versão do quinto livro, The Butcher’s Masquerade (2023), saiu há um mês, enquanto a do quarto, The Gate Of The Feral Gods (2021), foi relançada algumas semanas antes. Sobre o que são esses livros, e como se conectam aos anteriores?

The Gate Of The Feral Gods conta a história do quinto andar da masmorra, enquanto The Dungeon Anarchist’s Cookbook é sobre o quarto andar. Todos esses livros começam imediatamente após o final do anterior.


E as novas versões de The Butcher’s Masquerade e The Gate Of The Feral Gods também têm extras, como The Eye Of The Bedlam Bride?

Sim. Cada um deles tem um novo capítulo de Backstage At The Pineapple Cabaret.


Por fim, se alguém gostou de The Eye Of The Bedlam Bride e dos outros livros de Dungeon Crawler Carl, que romance ou novela LitRPG de outro autor você recomendaria, para ler enquanto espera o próximo livro do Carl?

Eu adoro a série The Wandering Inn da pirate aba, He Who Fights With Monsters do Shirtaloon, The Good Guys de Eric Ugland, e a série Cradle de Will Wight.

Entrevista com Davi Calil – autor de Kung Fu Ganja.

Davi Calil

Primeiro, muito obrigado por aceitar participar dessa entrevista. Eu gostei muito de Kung Fu Ganja e quero fazer minha parte ajudando a divulgar seu trabalho para que mais pessoas tenham a chance de conhecê-lo.

Entrevista com Ana Lúcia Merege – Escritora da Série Athelgard (O Castelo das Águias)

Ana Lúcia Merege descende de fenícios do Líbano, de Malta e do Algarve. É aquariana, mochileira e toma café o dia inteiro. Ganha seu pão desvendando manuscritos antigos e contemporâneos na Biblioteca Nacional, mas sua vocação sempre foi contar e escrever histórias.

Além dos livros do universo de Athelgard, publicados pela Editora Draco — “O Castelo das Águias“, “A Ilha dos Ossos“, “A Fonte Âmbar” e o infantojuvenil “Anna e a Trilha Secreta“, mais contos e novelas –, a autora escreveu os livros de ficção “Pão e Arte” (Editora Escrita Fina, 2012), “O Caçador” (Franco Editora, 2009) e “O Jogo do Equilíbrio” (Fábrica do Livro, 2005, republicado como e-book pela Draco); o ensaio “Os Contos de Fadas” (Claridade, 2010); e, além disso, vários contos em sites e antologias de ficção fantástica. Também publicou artigos em revistas técnicas e de divulgação científica, tais como a “Ciência Hoje das Crianças”, organizou as coletâneas “Excalibur” e “Magos“, pela Draco, e foi coorganizadora de outras coletâneas, incluindo “Medieval“, com Eduardo Kasse, que venceu o Prêmio Argos de Ficção Fantástica em 2017.

Quando não está viajando por meio de livros, Ana Lúcia adora fazê-lo de verdade. No momento tem ficado mais em casa por conta do doutorado do marido e dos estudos da filha para o ENEM, mas muitos destinos no Brasil e no mundo povoam seus sonhos. E, claro, daí virá inspiração para novas histórias, que ela espera ter a honra e o prazer de partilhar com seus leitores.

Ano passado, o Prêmio Argos trouxe boas surpresas para você. Por exemplo, em relação à coletânea Magos, da editora Draco. Fale um pouco sobre isso.

Na verdade, foi a coletânea “Medieval” que ganhou o prêmio Argos, patrocinado pelo Clube de Leitores de Ficção Científica. As obras que concorrem são as publicadas no ano anterior ao da premiação. Medieval, que saiu em 2016, foi coorganizada por mim e por Eduardo Kasse, tem contos de nós dois e de outros sete excelentes escritores. Assim como outras coletâneas publicadas no mesmo ano, foi listada pelos organizadores do Argos e os votantes se interessaram em ler, acabando por elegê-la. Fiquei muito feliz, pois este é um dos trabalhos que mais gostei de fazer – aliás, feliz em dobro, pois meu texto “O Grande Livro do Fogo” ganhou o prêmio de melhor conto. A Editora Draco vem tendo um grande destaque no Prêmio Argos, provando que é hoje uma das editoras mais relevantes no que se refere a promover a ficção fantástica escrita por brasileiros. A “Magos” pode concorrer este ano, quem sabe chega a ficar pelo menos entre os finalistas? Já seria uma grande vitória! 🙂

Nossa, desculpe, eu queria escrever “Medieval”, mas estava com a coletânea “Magos” na cabeça, pois adquiri recentemente e está aqui na minha fila de leituras… Mas, falando na coletânea Magos, você está cuidando de uma nova coletânea, não é? Em quais coletâneas já trabalhou? Como tem sido esse trabalho? O que mais gosta nele? Tem trazido lições para você como escritora? Quais?

Estou recebendo contos para uma coletânea de fantasia dark chamada Duendes: contos sombrios de reinos invisíveis. Fui coorganizadora das coletâneas “Bestiário” e “Bestiário: outras criaturas”, que saíram pela Editora Ornitorrinco, e pela Draco coorganizei “Meu Amor é um Sobrevivente” e “Medieval”. Organizei sozinha “Excalibur” e “Magos”. E estou em várias coletâneas como autora.

No trabalho de organizadora, certamente aprendi muito sobre escrita, o que fazer e o que não fazer, a importância de uma capa que cause impacto, o que pode advir de determinadas escolhas… Na “Magos”, por exemplo, assim como na “Excalibur”, tivemos textos mais adultos e outros mais juvenis, enquanto na “Duendes” resolvemos focar no público adulto, e uma forma de fazer isso foi determinar que os contos sejam dark fantasy. Também preferi desta vez fazer uma coletânea aberta e não com autores convidados, porque sempre vem coisa muito interessante de onde não se espera. Por fim, aprendi que meus gostos podem diferir muito dos do público, e que eu tenho de ser isenta na hora de escolher e editar o material. Não é porque eu não gosto de determinada coisa em um conto que ele é ruim ou que não irá agradar ao leitor! Tenho que pensar na excelência do texto, mas também devo pensar nele como um produto. Ou parte de um produto, que é a coletânea.

O que você tem lido? Você tem algum tipo de objetivo de leitura? Eu por exemplo, espero um dia ler todos os livros do escritor Michael Moorcock, mas ainda faltam muitos… 🙂

Eu leio muito desde sempre, mas, curiosamente, não leio tanto assim o gênero fantástico. É mais comum ler insólitos e fantasia urbana do que fantasia épica. Também leio muitos livros ambientados no passado, principalmente Antiguidade e Idade Média. Não tenho um objetivo, exatamente, mas gostaria de ler mais ficção épica para jovens e adultos, pois é com isso que trabalho. E revisitar Basile e outros precursores dos contos de fadas para retomar meu trabalho de mediação nessa linha.

Qual foram as lições que aprendeu escrevendo a trilogia do Castelo das Águias?

Aprendi a lidar com frustrações, principalmente a de ver que o leitor pode entender do meu texto algo dimetralmente oposto ao que eu queria dizer. A ter paciência para esperar o retorno. A cortar algumas coisas que adorei escrever porque não cabem no texto (mas como eu escrevo contos com elas depois, nem dói tanto). A trabalhar, principalmente nas cenas de clímax, num estado mental em que conseguisse captar a emoção trazida pela cena e traduzi-la em palavras sem convertê-la em algo frio. Aprendi tantas coisas, e continuo a aprender sempre que alguém me dá um feedback sobre meus livros, como você mesmo fez aqui.

Esse ano perdemos Ursula K. Le Guin. Na minha leitura da trilogia do Castelo das Águias senti algo que remetia ao universo de Terramar. Isso foi só uma impressão minha, ou houve alguma influência de Terramar na criação de Athelgard? O que tinha em mente ao criar as bases de seu universo ficcional?

SIM! A ideia da Magia da Forma e do Pensamento e o sistema de aprendizado da Magia através da Arte ganharam corpo a partir do sistema descrito nos livros de Terramar. Vou colar um link aqui, que remete para o site da Draco, onde falo sobre as minhas principais influências.

https://blog.editoradraco.com/2012/10/top-5-ana-lucia-merege/

Sei que seu próximo projeto no universo de Athelgard é “O Escudo da Coragem” e que concluiu o primeiro manuscrito há pouco tempo. Parabéns por isso! Você já consegue nos adianta uma sinopse? Pode falar um pouco sobre o livro?

Nesse livro, um menino de 12 anos, chamado Orlando (que aparece aos 8 em “A Ilha dos Ossos”), é lançado por engano numa aventura. Ele se vê no meio de rapazes e homens feitos, num torneio completamente diferente daqueles que conhece, e tem que disputar várias provas onde a coragem e o caráter estão acima da destreza com as armas. É um livro para o mesmo público de “Anna e a Trilha Secreta”, mas não conta uma viagem xamânica e sim uma jornada de herói. É bem cheio de aventura e emoção, espero que crianças e adultos gostem de ler.

Tem alguma previsão de lançamento?

Se tudo der certo será lançado este ano na Bienal de São Paulo.
<ATUALIZADO, livro já lançado:>

Você pretende retornar a escrever romances/séries em Athelgard? Por exemplo, para contar uma história sobre Maeloc ap Kieran em sua juventude, ou já como adulto?

Pretendo mostrar Maeloc ainda criança num livro “intermediário” entre a série já escrita e uma segunda série de livros em que Maeloc será jovem e depois adulto. Só que tenho outros projetos fora das histórias de Athelgard, como os Contos da Clepsidra, que às vezes me chamam para as praias do Mediterrâneo… 🙂 Além disso, os livros do Maeloc precisam ser bem elaborados para ficarem coesos, coerentes e interessantes para o leitor. Ainda não escrevi nada dele, fora uma ou duas participações em contos.

E quanto ao passado remoto de Athelgard, você já abordou isso em algum de seus contos? Qual deles se passa no momento mais ao passado?

“A Voz do Sangue”. Atualizei a cronologia no blog do Castelo, onde vocês podem ver as sinopses:

http://castelodasaguias.blogspot.com.br/2014/02/cronologia-dos-livros-e-contos.html

Você vive o dilema de se ver “presa” ao seu universo ficcional? No sentido de que, talvez, ele deixe de crescer e se expandir caso você resolva escrever novos livros/séries fora dele?

Olha, pode acontecer. Fiquei meses sem visitar Athelgard quando estava muito envolvida com os Contos da Clepsidra. Mas acho que escrever tem a ver tanto com foco e objetivo quanto com meu prazer como escritora. Enquanto Athelgard estiver viva dentro de mim, eu voltarei a ela. E ter leitores falando sobre isso pode reavivar esse universo quando ele estiver meio apagado.

Você escreveu um conto chamado “O Beijo de Rudra” que se passa no universo “Tempos de Sangue” de Eduardo Kasse. Como foi escrever dentro de um universo ficcional de outro autor?

Na verdade, os livros do Eduardo falam de imortais, pessoas que viveram por séculos ou milênios em lugares distintos daqueles em que se passam os livros da série Tempos de Sangue. Eu contei a história de uma dessas imortais, numa ambientação própria – tinha apenas que seguir a premissa de que ela atravessaria milênios com aquela, digamos, maldição, e que teria de haver um motivo para isso acontecer.

Mais desafiador em termos de imersão foi escrever com o Eduardo, em dupla, o conto “A Caverna de Zakynthos“, em que aparecem meus personagens Balthazar e Lísias e um dos imortais dele, o grego Diodoros. Um teve que entender os personagens e o universo do outro para que a história pudesse fluir. Foi uma dinâmica muito interessante e vamos fazer de novo, dessa vez na Roma Antiga!

Fale um pouco da sua visão sobre o cenário, em expansão, da Literatura Fantástica aqui no Brasil. O que tem visto de interessante? Alguma coisa, em especial, a deixou animada?

Acho que o período iniciado por volta de 2009, 2010 vem sendo ótimo para a LitFan. Apareceram muitas editoras, autores, podcasts, grupos de discussão se formando em redes sociais e fora delas… A possibilidade de publicação em e-book e em plataformas como o Wattpad, além dos blogs e zines que já existiam, permitiu a muita gente boa mostrar sua cara.

O que me deixa animada, além do excelente trabalho e do crescimento que noto em alguns autores, é justamente essa efervescência, essa vontade de produzir, realizar, fazer acontecer. É verdade que ainda existem muitos percalços, fora as famosas “tretas” comuns a todo meio profissional, mas eu acho que no geral o saldo é positivo. E vou continuar fazendo minha parte!

Fala-se um pouco sobre a valorização e crescimento de narrativas que exploram um toque de brasilidade, seja pelo uso de elementos de nosso folclore ou de nossa cultura e língua. Você acha que ainda haverá espaço no futuro para brasileiros que optam por escrever dentro do referencial europeu, ou asiático? Ou ainda, para universos ficcionais que não se aproximem explicitamente de referências culturais externas?

Eu acho que tem espaço para tudo! Acho que nossa bagagem – a bagagem do leitor e escritor brasileiro – tem muitas vezes uma carga forte europeia, pois foi e ainda é a cultura dominante, e além disso a literatura fantástica que conhecemos tem raízes em mitos e contos maravilhosos que se cristalizaram principalmente fora do país. Contos de fadas, literatura arturiana e por aí vai. Que a gente vá agregando elementos do nosso folclore, que valorize a mitologia dos povos nativos e a riquíssima herança africana, além de partir por regiões menos exploradas, eu acho maravilhoso, e espero que isso cresça cada vez mais, mas apostaria que quem gosta de épicos medievais, fantasia passada no Oriente ou na Antiguidade continuará a escrever e a ter seu lugar. Podemos, isso sim – e eu espero que isso aconteça – continuar a trabalhar em cenários de matriz europeia sendo, contudo, menos eurocêntricos. É isso, principalmente, que eu espero nos próximos tempos.

Fica meu agradecimento a autora por nos conceder essa entrevista. Espero que tenham gostado!

Para conhecer mais sobre o trabalho da autora, visite:

Entrevista com Diego Guerra – autor de O Teatro da Ira e O Gigante da Guerra.

Diego Guerra é formado em Produção Editorial pela Anhembi Morumbi e em roteiro pela Academia Internacional de Cinema. Trabalha como designer e é fã de literatura fantástica e romances históricos. Passou os últimos quinze anos escondendo suas obras nas gavetas, mas resolveu que já estava pronto para contar suas aventuras. Autor da série online Chamas do Império, que foi selecionado pelo catálogo da Editora Draco.

Fale um pouquinho sobre você, para seus leitores o conhecerem um pouco mais. Se puder, conte algo além do que já divulga na sua biografia.

Uau, vamos ver. Eu sou formado em produção editorial. Em um momento da minha vida alguém me convenceu de que eu nunca seria um escritor, então eu resolvi que trabalharia com o livro dos outros para me satisfazer, assim, meio sem querer, acabei bandeando para o lado da arte e me tornei designer, mas o objetivo principal sempre foi escrever, o resto eu fiz para pagar as contas.

No fim acho que não me desviei muito do meu caminho. Tenho uns amigos que queriam ser cantores, pintores, mil coisas e acabaram em um emprego completamente diferente. Acho que no fim eu acabei meio por teimosia na mesma área. A verdade é que não me vejo fazendo nada diferente e já pensei muito nisso.

Quando percebeu que queria escrever um romance, e ainda, por que o gênero de fantasia?

Percebi que queria escrever histórias assim que aprendi a ler. Deixava meus pais loucos, juntava todos os trocados para comprar livros. Minha família era muito pobre na época e a maioria dos livros que eu lia tinham sido herança dos meus tios e não eram para a minha idade. Ao mesmo tempo, eu colecionava artigos científicos e teorias bizarras… e gostava de inventar histórias para todas as coisas. Na verdade não escolhi a fantasia, eu fui descobrir o que eu estava fazendo muito mais tarde e até tentei escrever outras coisas por um tempo. Me disseram que eu tinha que escrever “coisas sérias” e eu tentei escrever crônicas, tentei romances existencialistas, mas não sou eu. Na fantasia eu me sinto mais à vontade.

Quais são suas principais referências na literatura?

Olha, como leitor eu me dediquei a tudo um pouco. Sou grande fã de realismo mágico, sobretudo Borges, Saramago e J.J. Veiga, mas nunca esqueci aquele sentimento de assombro que tinha com os romances de aventura como os livros do Stevenson ou Júlio Verne. Acho que tudo me tocou um pouco e fui mudando conforme lia. Ouvi um “click”, mesmo, quando li Bernard Cornwell, Yoshikawa e Dickens, foi quando eu comecei a encontrar o que eu queria escrever. Sei que eles parecem não conversar entre si, mas acho que como autor foram as obras que mais me influenciaram. Em algum momento também conheci Tolkien – não tem como ser escritor de fantasia sem ter ao menos conhecido Tolkien – mas acho que o que eu faço fica muito distante dele. Talvez me identifique mais com Michael Moorcock.

Legal, o Moorcock foi um dos que me fisgou para o gênero. Ainda tenho o projeto de ler todos os livros dele, acho que já estou na metade.

Moorcock é incrível, na minha opinião é um cara tão importante quanto Tolkien para o gênero. Tolkien era um acadêmico, sua obra é uma perfeição a parte, mas o Moorcock teve grande contribuição na disseminação e atualização da fantasia… Antes todos queriam ser Tolkien. Depois do Moorcock, as pessoas começaram a procurar histórias diferentes. No meu panteão, ambos dividem o trono.

Bacana, eles realmente merecem! O que você tem lido?

No momento tenho lido muitos livros teóricos, estou terminando a leitura do “Gigante Enterrado” do Ishiguro, “O Poder da Espada” do Abercrombie e “Como Funciona a Ficção” do James Wood.

Nossa, a trilogia da Primeira Lei, de Abercrombie “estourou a minha cabeça”!

Eu comecei a ler o Abercrombie porquê muita gente compara o meu livro com este, mas ainda estou bem no começo. Gostei do ritmo e tive uma boa impressão dos personagens… Mas ainda é cedo para dar um veredito.

Sobre a belíssima ilustração da capa de O Teatro da Ira (resenha) feita pelo ilustrador Camaleão. Como foi o processo de criação? Você participou? Ou foi algo que ocorreu através da editora?

Puxa, isso foi uma novela à parte… Sou designer, como vc sabe, é gosto muito de trabalhar com capas… Então eu fiz o projeto gráfico e contratei um ilustrador excelente para desenvolver a ilustração da batalha da ponte… Infelizmente o cara pisou na bola, e desapareceu. Levou 6 meses para eu recuperar o sinal que eu tinha pago. Nesse meio tempo, eu tentei resolver a capa de outra forma, inclusive fiz uma ilustração eu mesmo:

http://diggs.com.br/2016/02/05/teatro-da-ira-design-de-capa/

Só que, como vocês podem ver, meu traço era muito juvenil para a história… Quando eu apresentei pra Draco eles sugeriram outro ilustrador. Não tinha ideia de quem seria e nessa altura do campeonato apenas confiei no editor. Uns meses depois recebi esse presentão que foi uma capa do Camaleão. Até hoje não entendo como isso foi possível. O trabalho dele é incrível.

Li uma postagem sua falando sobre dificuldades para escrever a continuação de Teatro da Ira. Isso continua? Fale um pouquinho sobre isso.

Olha, eu nunca pensei que existiria essa dificuldade… Eu planejei os romances do Chamas do Império de forma semi-independente, montando arcos e deixando algumas pontas soltas para as possíveis continuações. Tem sempre um desejo de fazer melhor, sem menosprezar o primeiro e dando espaço para o próximo. E acho que tenho sido muito exigente comigo mesmo, para não decepcionar os leitores. Corrigir as coisas de acordo com o feedback que recebi do Teatro, também é uma preocupação.

Uma vez li um artigo do Asimov relatando a dificuldade de escrever sexto (ou quinto) livro da série Fundação. Para ler o segundo, leu o primeiro 2 vezes, o terceiro, o primeiro e segundo, mais vezes ainda, e assim progressivamente… até que ele disse que estava quase enlouquecendo.

Pois é. Eu sinto um pouco disso. Até porquê eu faço MUITOS tratamentos. Então, tem até isso, a história que eu tenho na minha cabeça às vezes é diferente da história que chegou aos leitores. Daí preciso sempre consultar para saber se aquilo aconteceu oficialmente ou foi só um tratamento que ficou para trás.

Mas está progredindo, certo?

Muito mais lentamente do que eu gostaria, mas sim, temos algum progresso e tem sido divertido ver a evolução da história.

Muitos de meus livros tem fortes relações com jogos de RPG (de mesa). De onde veio sua inspiração para Chamas do Império? Sua ideia é escrever uma série? Tem mais ou menos noção do tamanho?

A origem do Chamas do Império é uma história que eu escrevi em um universo inspirado em RPG de mesa… No decorrer daquela história dois personagens conversavam sobre um antigo Império que abraçava todos os reinos daquela região e foi por conta dessa linha de diálogo que eu comecei a imaginar como seria um Império tão vasto. Foi assim que nasceu as Chamas do Império.

Para escrever acabei me baseando bastante no Império Romano, nessa hora a obra de Edward Gibbon foi importantíssima, mas como queria escrever uma história de guerra, também fui atrás de livros da Segunda Guerra para me inspirar em algo mais moderno… No fim, a gente acaba sempre escrevendo sobre nós mesmos e sobre a nossa época, não é? Então eu acabei acrescentando questões que me interessam, como a escravidão, o preconceito e a luta de classes.

Aquela história inicial serviu apenas para me fazer questionar sobre a origem das coisas e me fez construir um universo muito mais rico, mas a verdade é que ela já não faz sentido algum para mim hoje.

Eu tenho ideia para muitos livros envolvendo os personagens do Chamas do Império, mas a verdade é que tenho outros projetos que quero escrever também, então resolvi fechar um arco importante da história antes de dar uma pausa e trabalhar nestes outros projetos um pouco. Estou falando em 3 ou 4 livros, com a mesma estrutura de arcos intercalados. Depois disso… veremos.

Achei que seu epílogo em forma de nota histórica agigantou seu romance. É uma inspiração vinda de Bernard Cornwell?

Minha primeira ideia era escrever um livro com notas de rodapé. Eu ia acrescentar as anotações sobre a paisagem, as pessoas, sempre do ponto de vista de um autor fictício do mundo. Quando comecei a fazer isso, porém, achei que estava ficando muito cansativo.

Acho que uma das minhas questões favoritas é “onde está a verdade?” Se você reparar, o Teatro da Ira é cheio de meias-verdades. Cada um tem a sua versão da história. As Notas Históricas foi um jeito de mostrar isso de forma clara, mas sim, Bernard Cornwell me mostrou como fazer isso. Enquanto as notas históricas dele tentam desvendar onde foi que ele “mentiu”, as minhas servem para mostrar que todos estão mentindo.

Pretende participar do NaNoWriMo 2017? Escreveria o primeiro esboço de um romance novamente em apenas um mês?

Olha, eu participei do NaNoWriMo 2015 e escrevi o Gigante da Guerra. Foi uma experiência devastadora, de várias formas… Não sei se faria novamente, mas se o fizesse, dificilmente o faria com Chamas do Império. Os romances são longos demais para isso.

Falando sobre outros livros, você comentou numa outra entrevista que é um pouco pessimista quanto ao ser humano e que isso aparece um pouco em suas obras. Você se vê escrevendo um romance que transmita uma mensagem otimista?

Sabe aquelas notícias sobre “Nasa anuncia que o mundo vai acabar nesta quinta feira?” Isso pra mim é otimismo. Falando sério. Eu adoraria. Gostaria mesmo de conseguir escrever algo que transmitisse algo bom para as pessoas, mas sempre que tento algo assim me parece falso. É um ponto fora da minha zona de conforto. Quem sabe um dia?

Seu romance, O Gigante da Guerra, tem alguma relação o universo de Chamas do Império?

Ah! O gigante da Guerra!  Sim e não. Ele se passa no mesmo universo, mas acontece anos antes e numa região diferente do Império… Então temos as mesmas raças, a mesma sociedade, mas vemos a história toda por um outro prisma. Você não precisa conhecer um para entender o outro.

O Gigante da Guerra se passa uns vinte anos antes, no fim da Guerra das Almas… Com o Império em seu pior momento. Conta a história de dois jovens que não tem nada de aventureiros ou heroicos, tentando sobreviver tomando decisões muito difíceis. Acho que é uma fantasia mais perto do realismo mágico.

 

Li um artigo seu sobre Viver de Escrever. É um pouco raro encontrar autores brasileiros, em especial da literatura de gênero, que vivem de escrever. Isso é uma aspiração sua? Como vê esse caminho?

Acho que viver de escrever é ter mais tempo para escrever e isso é algo que todo autor deve desejar. Seria ótimo não ter que espremer a produção literária entre um boleto pago e outro, mas sei que isso é raro, praticamente impossível, então toco a vida. Não vou deixar de escrever, isso não vai acontecer, mas gostaria de ter tempo para que as coisas andassem mais rápido.

É um ciclo. Existe uma forma de sair deste ciclo, mas é complicado. Uma vez tive o prazer de conversar com o Ulisses Tavares, um autor da velha guarda que me explicou como ele vive como autor. O segredo era (pausa dramática): ele tinha na época 140 livros publicados.

UAU, 140!

Destes 140 livros, alguns vendiam bem, outros vendiam mal… mas eram 140 livros. Sempre tinha alguma coisa para receber. É a mesma lógica de uma editora, a tal da Cauda Longa. Ganhar um pouco de cada livro. Bom, para mim faltam só 139 agora.

[risos] Ótima perspectiva! Isso sim é otimismo. Bem, novamente, agradeço demais. Foi um ótimo bate papo!

Eu que agradeço. Acho ótimo falar com outro colega escritor. É sempre divertido.


Então pessoal, espero que tenham gostado. Abaixo separei alguns links úteis:

 

 

Joe Abercrombie – Mini Biografia, Obras e Entrevistas

Esse é um dos autores de fantasia mais excepcionais que conheci ultimamente. Eu já resenhei aqui, alguns de seus livros. Quando encontro alguém bom assim, fico com muita vontade de compartilhar e divulgar, então resolvi fazer uma pesquisa baseada em várias fontes e entrevistas para falar um pouco mais sobre ele. Então, vamos lá!

Um pouco de sua biografia

Abercrombie nasceu em Lancaster, no condado de Lancashire, noroeste da Inglaterra, mesma região natal de Joseph Delaney (postagem anterior). Nos seus anos de estudante, jogava muito videogame e RPGs de mesa, rolando dados e desenhando mapas de lugares que não existem. Sempre sonhou em conseguir redefinir o gênero de fantasia e assim, começou a escrever uma trilogia épica contando as desventuras do bárbaro Logen Nove Dedos. Mas sua primeira tentativa foi mal sucedida.

Ele mudou-se para Londres para tentar ganhar a vida. Anos depois, em 2002, sentou-se novamente para reescrever as desventuras de Nove Dedos. Desta vez, o resultado foi muito mais interessante.

Completou o primeiro volume O Poder da Espada (The Blade Itself) em 2004. Livro que foi rejeitado por muitas agências literárias da Inglaterra, até que em 2005, foi aceito pela Gillian Redfearn of Gollancz. Um ano depois, foi publicado como primeiro volume da Trilogia da Primeira Lei. Agora, já publicada em mais de treze países.

Em 2008, Joe foi finalista do prêmio John W. Campbell como melhor escritor estreante. No mesmo ano, contribuiu para a série da BBC Worlds of Fantasy ao lado de autores como  Michael Moorcock, Terry Pratchett and China Miéville.

De 2009 a 2011 publicou mais três livros do mundo da Primeira Lei, Best Served Cold, The Heroes e Red Country, todos ainda inéditos no Brasil.

Foi em 2014 que começou a publicar sua nova série, a Trilogia do Mar Despedaçado. Os primeiros dois livros, Meio Rei e Meio Mundo, já foram publicados no Brasil e Meia Guerra, ainda é um lançamento muito aguardado…

Em 2015, venceu o Prêmio Locus na categoria melhor romance Young Adult com Meio Rei.

No Brasil, seis de seus livros foram publicados pela editora Arqueiro.

Obras

Algumas capas nacionais e internacionais da maior parte das obras do autor.

Joe por Joe

Para essa seção, selecionei trechos de diversas entrevistas e bate-papos dos quais o autor participou ao longo dos anos.

Escrita

Você sente que se desenvolveu como autor durante a escrita de seus 5 primeiros livros? Em que mudou/se desenvolveu? Acha que ainda tem o que aprender?

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