Entrevista com Joseph Delaney, autor da série As Aventuras do Caça-Feitiço

Uma das séries que li e mais gostei ultimamente é a das Aventuras do Caça-Feitiço. Então, veio também o interesse de saber um pouco mais sobre o autor. Encontrei essa aqui no site oficial, que saiu no The Book Collector em 2010.

Qual foi o primeiro livro que gerou um grande impacto em você e colocou-o no caminho para se tornar um autor?

Foi “O Senhor dos Anéis” e me trouxe um gosto verdadeiro pelo gênero de fantasia. Por muitos anos eu fiquei tentando e falhando em ser o próximo Tolkien! Fui rejeitado por editoras por mais de 96 vezes.

Poderia nos contar um pouco sobre sua história. O que você fazia antes de se tornar um autor em tempo integral?

Eu trabalhava como professor, minhas disciplinas eram Inglês, Cinema e Estudos Midiáticos. Antes disso, quando tinha uns vinte anos, trabalhei como engenheiro, quando havia terminado meu papel como aprendiz, assim como Tom Ward na série do Caça-Feitiço.

Como, quando e porque decidiu tornar-se um autor?

Eu leio muito e sempre que lia um livro de que gostava mesmo eu pensava “Eu queria ter escrito isso!”

Seu primeiro livro publicado era de Ficção Científica. Levou muito tempo até conseguir vê-lo materializado?

Meu primeiro livro foi publicado por uma editora pequena e independente. Foi muito legal ser editado, mas as vendas foram relativamente pequenas. Mas foi legal ver meu trabalho disponível em livrarias.

Quando veio a ideia para a série do Caça-Feitiço?

Eu tinha que ter uma ideia rapidamente e verifiquei meus cadernos. Isso era no ano 2000 e eu voltei olhando até 1983 quando achei uma ideia de história sobre um homem que lidava com ogros (boggarts). E desenvolvi isso criando o livro O Aprendiz, o primeiro da série.

Dali em diante eu busquei inspiração no folclore de Lancashire que fui modificando para criar meu mundo ficcional.

Como é sua rotina de trabalho? Você possui algum regime em particular?

Quando eu era professor, costumava acordar cedo, antes do trabalho e escrever das 6:15 às 7.30, todas as manhãs. Desta forma, eu conseguia escrever um livro em um ano – que rapidamente foi rejeitado! Agora eu escrevo para cumprir prazos, mas meu dia de trabalho é errático. Algumas vezes eu trabalho por apenas algumas horas; em outras ocasiões consigo trabalhar a maior parte do dia. Sou tudo menos um escritor de  9 às 17. A maior parte da minha escrita é feita sem segurar uma caneta ou digitar no computador. Eu posso estar assistindo a um filme  ou sentado na estação de trens, mas aí estarei escrevendo dentro da minha cabeça.

Você adota um estilo de escrita livre, ou traça um plano e vai unindo os pontos?

Não, a maior parte vai surgindo na medida em que avanço. Algumas vezes, eu começo final do livro, ou no meio. O título costuma vir apenas no final. Meu método de escrita é um processo de descoberta. Geralmente, não sei o que vai acontecer até que eu escrevo.

Quais escritores mais influenciaram seu trabalho e por que?

Tolkien e Frank Herbert foram as maiores influências sobre o meu trabalho. Ambos criaram mundos ficcionais detalhados e atiçaram minha imaginação.

Seus livros são cheios de mitos e folclore. Eles vieram de um conhecimento íntimo, ou de meses de pesquisa?

Eu adquiri algum conhecimento depois de muitos anos vivendo em Lancashire. Eu prefiro que as coisas que surgem por acaso do que buscá-las, mas faço um pouco de pesquisa quando necessário. Entretanto, quando estive escrevendo “A Batalha” fugi deste hábito e realizei muita pesquisa sobre as bruxas de Pendle. Então, ao perceber que ficaria preso a datas e fatos, joguei fora 90%. Era a coisa certa a se fazer: então eu inventei Grimalkin, a bruxa assassina do clã Malkin e taquei o Maligno no livro. Adorei escrever e ainda é meu livro favorito da série por que eu o associo com uma época feliz.

As paisagens do Condado, acredito, são baseadas em Lancashire. Como você captura fisicamente as paisagens quando escreve? Vem de memórias de infância, ou você carrega um caderno para tomar nota de passagens descritivas?

Recorro principalmente às memórias de infância. As vezes é um erro voltar e consultar anotações porque as coisas mudam — às vezes para pior.

Os livro (devo admitir que li apenas os dois primeiros até agora) sem uma característica cinematográfica em alguns pontos. Ao escrever, você visualiza de modo análogo a um storyboard de filme? Ou você diria que é um processo mais orgânico?

Eu tento visualizar a narrativa e escrever o que eu vejo. Em relação a descrições sou minimalista deixando muito trabalho para o leitor. E relação a ação, acho difícil e tenho que trabalhar como um coreógrafo com uma trupe de dançarinos. Diálogo é provavelmente a parte mais madura da minha escrita – é certamente o que me vem com maior facilidade

Neste aspecto, você acha que filmes influenciam seu trabalho?

Eu ensinei Estudos Cinematográficos por muitos anos, então sim, eu acho que a análise da estrutura de filmes  e sua ação devem influenciar o modo como escrevo.

A aparência das capas mudaram desde que a série começou. Você sentiu alguma reação dos fãs antigos? Muitos não gostam das mudanças!

Sim, alguns se chatearam por que queriam colecionar a série toda com o mesmo tipo de capas. Outros leitores já preferem as capas novas. Por esta razão, o último livro, “O Sacrifício” voltou a ter o antigo estilo de capa.

Poderia nos dar alguma notícia do filme? Ouvi dizer que está em pré-produção.

Ele esteve em pré-produção por cerca de três anos, ao menos. A licença foi renovada e acho logo haverá um novo diretor que poderão ainda levar um ano para desenvolver o novo script antes de filmar.

Está nervoso quanto a ver seus personagens na telona? Sente um pouco de apreensão quanto ao uso dos personagens?

Eles sempre existirão, do modo que eu gostaria nos livros, e minha paixão são livros. Como escritor você deve deixar a coisa acontecer e esperar que o filme seja bom e tão fiel à série quanto possível.

[Obs: não vejam esse filme, não tem nada a ver com os livros… Os caras viajaram.]

Quando escreveu o primeiro, pensava em continuações?

Eu pensava em três livros e me planejava para isso. Ideias vieram, ao escrever “O Aprendiz”, já mostrando que haveriam mais o que escrever. O Caça-Feitiço disse ao Tom: “Nunca confie numa mulher!” Eu precisava escrever “O Segredo” para explicar por que ele disse tal coisa!

Você se surpreendeu com o sucesso da série?

Sim, muito. Foi vendido e traduzido para mais de 25 países. Nunca pensei que isso aconteceria.

Quando você percebeu que iria escrever livros o dia todo?

Quando os Americanos compraram a série. Fiz as contas e percebi que poderia parar de ensinar no final de 2004. Ainda assim, isso foi uma aposta arriscada para um jovem com filhos. Mas meus filhos tinham crescido então eu tomei o risco e deu tudo certo. É muito mais fácil escrever em horário integral do que ter que lidar com as pesadas demandas ligadas a lecionar.

Quais são os planos para a série?

Tenho contrato para nove livros, mas acho que provavelmente serão dez.

[Oh, ele estava enganado, foram mais que dez]

Também haverão spin-offs. ‘Spook’s Stories: Witches’ e o Bestiário estarão disponíveis em breve. Escreverei um romance sobre Alice em 2011 e não excluiria um livro para contar a história de Grimalkin.

[Realmente aconteceu e é muito bom!]

Que outros projetos estão no horizonte?

Estou nos estágios iniciais de desenvolvimento de uma série de ficção científica.

Há planos para edições de colecionador?

Não no momento.

Você coleciona livros? Qual é o mais estimado de sua biblioteca?

Embora eu possua muito livros, eu não os coleciono. Para mim, um livro é uma espécie de sonho dentro da sua cabeça. Quando você morre, não dá para levar sua coleção de livros, mas talvez consiga levar seus sonhos e memórias.

Qual o seu livro para uma ilha deserta?

O Senhor dos Anéis.

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