Se queremos planejar é útil ter à mão um kit de ferramentas. Vamos ver mais algumas abordagens conceituais para o ritmo geral da sua história? A pirâmide de Freytag e as dicas do escritor Dean Koontz podem funcionar como abordagens complementares para estruturar sua narrativa. Mas além das ferramentas estruturais, é essencial refletir sobre o significado mais profundo da história que você deseja contar.
A pirâmide de Freytag
Gustav Freytag foi um escritor alemão do século 19 que analisou dramaturgia grega e a obra de Shakespeare e criou a figura de uma pirâmide para explicar como uma história funciona. Ele expandiu o conceito de Aristóteles de trama ao adicionar à estrutura básica de início, meio e fim, dois novos componentes: ascensão da ação e o seu declínio.
A base da pirâmide é a Exposição, o início da história. Aqui delineamos informações importantes sobre o contexto da história. Informações sobre a personagem protagonista ou eventos ocorridos antes do início da história.

Uma vez a história começa, é importante impor tensão, fazendo a ação crescer e criando o caminho sobre o qual a história vai seguir. Trata-se da introdução de um incidente (inciting incident*). É como se déssemos partida ao motor de um veículo. É o que faz a história mover-se para alguma direção. É quando a história começa a “esquentar”, ou seja, a ascenção da ação.
* Inciting incident (ou incidente incitante): é o evento que dá início ao conflito principal da história. É o que faz a vida da personagem mudar de rumo.
Chegamos ao meio da história, na qual deve haver a superação de diversos obstáculos. Esses irão culminar no maior de todos, o Clímax da história. É hora de confrontar o antagonista. Deve ser o momento mais tenso, quando a protagonista está contra a parede e precisa mostrar a que veio.
Depois disso, a ação começa a desacelerar, conduzindo a história para o seu desfecho. Nessa fase, a protagonista geralmente precisa lidar com as consequências diretas do que ocorreu após o clímax.
Chega-se ao desfecho, ou epílogo, o qual é o fim da história. Hora de mostrar desembaraço de algumas questões pendentes, segredos, ou indicar o que vai acontecer com a protagonista (ou outros personagens relevantes) depois do fim história. Felizes para sempre?
Como escritora(or), certamente você não estará feliz para sempre, ainda… Então, vamos continuar trabalhando esse tema, com mais algumas dicas e informações para ajudar na construção de suas histórias.
Dicas do escritor Dean Koontz
Dean Koontz é um autor de diversos best sellers e escreveu dois livros sobre escrita: – Writing popular fiction – Escrevendo ficção popular (1972) e – How to write best selling fiction – Como escrever ficção “best seller” (1981).
Das obras dele, podemos extrair uma fórmula estrutural para conceber tramas envolventes para histórias. Vejamos o que ele propõe:
1. Coloque sua personagem protagonista dentro de um problema terrível o quanto antes.
O problema depende do gênero da sua história, mas seria o pior dilema que você possa imaginar para sua protagonista. Pode ser uma situação de vida ou morte, ou então a escolha muito ruim de um par romântico que leva para uma situação desastrosa. É importante ser algo de muito peso, ou muito terrível, para sua protagonista.
Esse problema deve ser capaz de se sustentar durante toda a história. Mas cuidado, mesmo se o problema for bom, você arrisca perder os leitores se você não proporcionar meios para que se conectem, se importem, com sua personagem.
2. Tudo que sua personagem faz para tentar resolver o problema piora as coisas…
Evite facilitar as coisas para sua personagem. As complicações que surgirem precisam fazer sentido. E devem crescer aos poucos. Isso me lembra muito filmes de comédia em que as complicações vão aumentando cada vez mais, a ponto de gerar um incômodo ao espectador. Lembro de alguns filmes do Ben Stiller com essa característica.
3. (…) até que a situação pareça sem solução. A última barreira deve parecer intransponível.
Torne as coisas tão difíceis de forma que sua protagonista precise de superar ou se desdobrar para conseguir resolver. É preciso ter cuidado para esse solução final mal colocada não ser um ponto de frustração para o leitor. É preciso que o triunfo da protagonista seja algo convincente.
4. Finalmente, sua protagonista vence contrariando todas as más perspectivas.
Recompense seu leitor com um desfecho conquistado pela força, caráter ou inteligência de sua protagonista. Considere o que suas ações, nesse momento crítico, sejam guiadas pelo que ele aprendeu sobre si durante toda história. É preciso ter cuidado com finais do tipo Deus ex machina, termo que surgiu na dramaturgia grega para descrever um tipo de histórias no qual, no final, para se chegar a uma solução, literalmente um Deus descia no palco preso a uma corda para resolver os conflitos dos mortais com seus poderes superiores.
Dean Koontz escreveu:
“O herói ou heroína devem constantemente estar empenhados na superação de alguma barreira que cresce logicamente a partir de suas próprias ações e tentar resolver o seu principal problema.”
Trama x Tema
Já falamos um pouco de história, trama e estruturas. Uma boa história deve responder a duas perguntas:
O que acontece?
O que isso significa?
O que acontece é a trama. O que significa é o tema.
Por exemplo, meu livro O Velho e a Devoradora de Almas conta a história de um velho, uma pessoa comum, que perde tudo depois de um ataque de dragões e que pega carona com um grupo de heróis numa jornada rumo ao desconhecido.
O livro tem vários temas, mas fala de ficar velho, ir perdendo aos poucos, amigos, parentes, e até a si próprio, suas capacidades, crenças, etc. É também um livro sobre amizade e transformação, sobre confrontar seu lado sombrio. Sobre sofrimento, paixões ordinárias e sobre escravidão.
Outro exemplo, em O Senhor dos Anéis, a trama é sobre a jornada para destruir o anel. Mas os temas são amizade, poder, sacrifício e esperança.
Leitores podem se lembrar de algo da trama da sua história, mas, em geral, muito pouco. Por outro lado, devem matutar por dias a respeito do(s) tema(s).
E você? Já pensou nos temas por trás da sua história? Que mensagem quer deixar com ela?





