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Categoria: Dicas de Escrita Page 1 of 10

Planejamento de romances – parte 3

Se queremos planejar é útil ter à mão um kit de ferramentas. Vamos ver mais algumas abordagens conceituais para o ritmo geral da sua história? A pirâmide de Freytag e as dicas do escritor Dean Koontz podem funcionar como abordagens complementares para estruturar sua narrativa. Mas além das ferramentas estruturais, é essencial refletir sobre o significado mais profundo da história que você deseja contar.

A pirâmide de Freytag

Gustav Freytag foi um escritor alemão do século 19 que analisou dramaturgia grega e a obra de Shakespeare e criou a figura de uma pirâmide para explicar como uma história funciona. Ele expandiu o conceito de Aristóteles de trama ao adicionar à estrutura básica de início, meio e fim, dois novos componentes: ascensão da ação e o seu declínio.

A base da pirâmide é a Exposição, o início da história. Aqui delineamos informações importantes sobre o contexto da história. Informações sobre a personagem protagonista ou eventos ocorridos antes do início da história.

Uma vez a história começa, é importante impor tensão, fazendo a ação crescer e criando o caminho sobre o qual a história vai seguir. Trata-se da introdução de um incidente (inciting incident*). É como se déssemos partida ao motor de um veículo. É o que faz a história mover-se para alguma direção. É quando a história começa a “esquentar”, ou seja, a ascenção da ação.

* Inciting incident (ou incidente incitante): é o evento que dá início ao conflito principal da história. É o que faz a vida da personagem mudar de rumo.

Chegamos ao meio da história, na qual deve haver a superação de diversos obstáculos. Esses irão culminar no maior de todos, o Clímax da história. É hora de confrontar o antagonista. Deve ser o momento mais tenso, quando a protagonista está contra a parede e precisa mostrar a que veio.

Depois disso, a ação começa a desacelerar, conduzindo a história para o seu desfecho. Nessa fase, a protagonista geralmente precisa lidar com as consequências diretas do que ocorreu após o clímax.

Chega-se ao desfecho, ou epílogo, o qual é o fim da história. Hora de mostrar desembaraço de algumas questões pendentes, segredos, ou indicar o que vai acontecer com a protagonista (ou outros personagens relevantes) depois do fim história. Felizes para sempre?

Como escritora(or), certamente você não estará feliz para sempre, ainda… Então, vamos continuar trabalhando esse tema, com mais algumas dicas e informações para ajudar na construção de suas histórias.

Dicas do escritor Dean Koontz

Dean Koontz é um autor de diversos best sellers e escreveu dois livros sobre escrita: – Writing popular fiction – Escrevendo ficção popular (1972) e – How to write best selling fiction – Como escrever ficção “best seller” (1981).

Das obras dele, podemos extrair uma fórmula estrutural para conceber tramas envolventes para histórias. Vejamos o que ele propõe:

1. Coloque sua personagem protagonista dentro de um problema terrível o quanto antes.

O problema depende do gênero da sua história, mas seria o pior dilema que você possa imaginar para sua protagonista. Pode ser uma situação de vida ou morte, ou então a escolha muito ruim de um par romântico que leva para uma situação desastrosa. É importante ser algo de muito peso, ou muito terrível, para sua protagonista.

Esse problema deve ser capaz de se sustentar durante toda a história. Mas cuidado, mesmo se o problema for bom, você arrisca perder os leitores se você não proporcionar meios para que se conectem, se importem, com sua personagem.

2. Tudo que sua personagem faz para tentar resolver o problema piora as coisas…

Evite facilitar as coisas para sua personagem. As complicações que surgirem precisam fazer sentido. E devem crescer aos poucos. Isso me lembra muito filmes de comédia em que as complicações vão aumentando cada vez mais, a ponto de gerar um incômodo ao espectador. Lembro de alguns filmes do Ben Stiller com essa característica.

3. (…) até que a situação pareça sem solução. A última barreira deve parecer intransponível.

Torne as coisas tão difíceis de forma que sua protagonista precise de superar ou se desdobrar para conseguir resolver. É preciso ter cuidado para esse solução final mal colocada não ser um ponto de frustração para o leitor. É preciso que o triunfo da protagonista seja algo convincente.

4. Finalmente, sua protagonista vence contrariando todas as más perspectivas.

Recompense seu leitor com um desfecho conquistado pela força, caráter ou inteligência de sua protagonista. Considere o que suas ações, nesse momento crítico, sejam guiadas pelo que ele aprendeu sobre si durante toda história. É preciso ter cuidado com finais do tipo Deus ex machina, termo que surgiu na dramaturgia grega para descrever um tipo de histórias no qual, no final, para se chegar a uma solução, literalmente um Deus descia no palco preso a uma corda para resolver os conflitos dos mortais com seus poderes superiores.

Dean Koontz escreveu:

“O herói ou heroína devem constantemente estar empenhados na superação de alguma barreira que cresce logicamente a partir de suas próprias ações e tentar resolver o seu principal problema.”

Trama x Tema

Já falamos um pouco de história, trama e estruturas. Uma boa história deve responder a duas perguntas:

O que acontece?

O que isso significa?

O que acontece é a trama. O que significa é o tema.

Por exemplo, meu livro O Velho e a Devoradora de Almas conta a história de um velho, uma pessoa comum, que perde tudo depois de um ataque de dragões e que pega carona com um grupo de heróis numa jornada rumo ao desconhecido.

O livro tem vários temas, mas fala de ficar velho, ir perdendo aos poucos, amigos, parentes, e até a si próprio, suas capacidades, crenças, etc. É também um livro sobre amizade e transformação, sobre confrontar seu lado sombrio. Sobre sofrimento, paixões ordinárias e sobre escravidão.

Outro exemplo, em O Senhor dos Anéis, a trama é sobre a jornada para destruir o anel. Mas os temas são amizade, poder, sacrifício e esperança.

Leitores podem se lembrar de algo da trama da sua história, mas, em geral, muito pouco. Por outro lado, devem matutar por dias a respeito do(s) tema(s).

E você? Já pensou nos temas por trás da sua história? Que mensagem quer deixar com ela?

Planejamento de romances – parte 2

Na parte 1, vimos que antes de considerar métodos e ferramentas de planejamento, uma abordagem interessante pode ser saber primeiro o gênero de história que queremos escrever.

Um próximo ponto importante é fazemos a distinção entre história e trama (plot).

História vs Trama

Histórias, como a vida biológica complexa, começam de um embrião, ou semente. Um exercício interessante é o do resumo de elevador. Você encontra um colega, ou vizinho, no elevador e quer contar sobre seu novo livro. Tem que ser um resumo bem rápido, pois ele vai descer logo.

Exemplo (Harry Potter): É sobre um órfão que descobre que é um bruxo e vai estudar numa escola de magia. Ele precisa solucionar um mistério e enfrentar um poderoso bruxo das trevas.

O que constrói a história em seus detalhes é a trama.

É um fenômeno comum o surgimento de histórias que reproduzem um estilo de vida dos autores. Muitos autores vivem num mundo de rotinas repetitivas. Acordam, tomam café da manhã, pegam transporte para ir ao trabalho, trabalham, retornam para casa, dormem e o ciclo se repete. Já li muitas histórias que começam justamente assim escritas em plataformas como o Wattpad. Fulando acordou, desceu as escadas, abriu a geladeira e pegou uma maça para comer. Depois, tinha que ir para a escola, etc.

O que vemos nesse tipo de narrativa é uma sequência de ações não relacionadas. Isso tende a ser entediante do ponto de vista dramático.

Uma simples ação, pode ou não ser interessante. Depende da escolha do narrador. 

Por exemplo:

Fiz uma torrada para o café da manhã.

Essa ação, informação, não causa muito interesse, concordam?

Você não vai acreditar no que aconteceu quando eu fiz uma torrada para café da manhã.

 A ação é a mesma, mas a narrativa já se torna mais interessante…

Já falamos antes, sobre criação de personagens, ambientação, etc. Mas ter uma boa ambientação e bons personagens, por si só, não irá gerar uma boa história. O que vamos precisa também, e construir uma boa trama.

Trama

Podemos definir assim: São os principais eventos/ações da história apresentadas numa sequência interrelacionada. Isto é, como você conta o que aconteceu (estrutura, ritmo, ordem de apresentação).

O grande autor inglês E. M. Forster define essa diferença assim:

“O rei morreu e depois a Rainha morreu é uma história. O rei morreu e depois a Rainha morreu de tristeza é uma trama.”

Isto implica relações causais entre estes dois eventos. Ou seja, a construção de uma trama é também um exercício de lógica.

É importante criar tramas consistentes, pois nós, como seres humanos, somos “programados” para identificar e reconhecer padrões. Extrair significado do mundo que nos cerca. Se não vemos significado, perdemos o interesse e vamos largar o livro para ir fazer alguma outra coisa mais interessante.

Componentes técnicos da trama

1. Cadeia de causalidade

A trama eficiente funciona por causa e consequência — não apenas por sequência.

? História fraca: “O personagem acorda. Depois vai trabalhar. Depois encontra um dragão.”
? Trama forte: “O personagem acorda atrasado, e por isso pega um atalho desconhecido — onde encontra um dragão.”


2. Conflito

A trama gira em torno de desejos e obstáculos. Toda boa trama responde à pergunta:

“O que o protagonista quer e o que o impede?”

Sem conflito, não há movimento.


3. Viradas (Turning Points)

São momentos de grande impacto que mudam a direção da narrativa, como:

  • Revelações
  • Decisões drásticas
  • Reviravoltas
  • Mudanças de status

Esses pontos mantêm a trama dinâmica.


4. Clímax e resolução

Toda trama bem construída culmina em um ponto máximo de tensão (clímax), seguido de uma resolução que mostra as consequências das escolhas feitas.


5. Subtramas

Histórias mais complexas incluem subtramas (românticas, políticas, pessoais) que:

  • Espelham ou contrastam com a trama principal
  • Aprofundam personagens
  • Criam respiros narrativos

Estruturas de trama populares

  • Três atos: Apresentação ? Conflito ? Resolução
  • Herói com mil faces (Monomito): Jornada do herói
  • Sete pontos de Snyder (Save the Cat): Modelos para gerar empatia e viradas rítmicas
  • Trama em espiral: Revelações acumulativas em vez de progressão linear

Exemplo aplicado: Olhos Negros (fantasia sombria)

  • História: No meu primeiro romance, o pano de fundo gira em torno de necromantes que planejam por décadas tomar o poder no reino de Lacoresh, disfarçados entre o povo, nobreza, ordem dos magos e clero.
  • Trama: O leitor descobre a verdade junto aos personagens, em pedaços. A ordem dos eventos é manipulada para criar mistério e tensão psicológica, revelando os horrores aos poucos. No livro, não aparece o assunto necromantes antes da metade, o foco é numa investigação na relação entre os três personagens principais enquanto se envolvem numa investigação sobre o misterioso nascimentos de bebês com olhos totalmente negros.

Dica prática para escritores:

Comece com um mapa de eventos da história (cronologia interna).
Depois escolha o ponto ideal para começar a narrativa e crie ganchos, viradas e escalada.
Isso é construir trama.

Na sequência, vamos abordar métodos e ferramentas mais a fundo, considerando gêneros específicos.

Planejamento de romances – parte 1

Além de escrever, trabalho com planejamento no meu emprego regular. Estou muito ciente das limitações do planejamento. O que aprendi é que planejamento é uma ferramenta para melhorar nossas chances de alcançar objetivos e para funcionar melhor, deve ser flexível. Me lembra aquela famosa frase de John Lennon: “A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”.

Então nosso plano agora é tirar um tempo para refletir sobre o planejamento de histórias com um certo tamanho: romances. Estes tem quarenta mil palavras ou mais, mas o planejamento é aplicável a histórias menores, talvez, exceto muito pequenas como ficções relâmpago, afinal, é mais fácil e rápido escrever uma destas do que investir tempo em planejamento.

A abordagem “clássica” seria despejar sobre vocês as técnicas de estruturação de histórias, mas não vamos fazer isso… ainda. No meu trabalho, muitas vezes, vejo as pessoas querendo colocar a “mão na massa”, sem antes refletir e sequer traçar objetivos, muitas vezes levando à frustração e resultados limitados. Então me ocorreu que é melhor traçar seu objetivo primeiro, e depois, escolher a metodologia ou ferramentas que melhor se aplicam a este objetivo.

Então, a primeira decisão a se tomar tem a ver com aspectos gerais da história. O fato é que para bem, ou para o mal, a literatura está dividida em gêneros. São convenções que facilitam para o leitor encontrar novas histórias de que possivelmente vai gostar. Temos, romance, aventura, horror, fantasia, ficção científica, romance histórico, policial/mistério, etc.

Sim, determinados gêneros literários exigem ou favorecem métodos de planejamento específicos, justamente devido a suas convenções estruturais, expectativas do público e elementos técnicos. Vamos usar o exemplo do romance policial/mistério, mas a lógica se aplica também a gêneros como ficção científica, romance histórico, thrillers, etc.


Por que o gênero policial/mistério exige um planejamento específico?

O mistério e a investigação são gêneros altamente estruturados, onde:

  • Pistas precisam ser plantadas de forma sutil.
  • Reviravoltas devem ser críveis e surpreendentes.
  • O final precisa fazer sentido retrospectivamente.
  • O leitor é convidado a resolver o mistério junto com o protagonista.

Isso exige planejamento cuidadoso, especialmente no controle da informação: o que o leitor sabe, o que o detetive sabe e o que o criminoso sabe.


Método recomendado: Planejamento Reverso (Reverse Engineering)

Esse método é ideal para histórias de mistério, crimes, assassinatos ou conspirações.

Etapas:

  1. Comece pelo final
    • Quem cometeu o crime?
    • Como e por quê?
    • Como o detetive descobre isso?
  2. Construa o crime e o encobrimento
    • Detalhe o plano do criminoso.
    • Considere o álibi, pistas falsas e possíveis testemunhas.
  3. Espalhe as pistas (foreshadowing)
    • Insira pistas verdadeiras disfarçadas de irrelevantes.
    • Adicione falsas pistas (red herrings) para confundir.
  4. Planeje a investigação passo a passo
    • Cada capítulo revela algo, aumenta a tensão ou complica o mistério.
    • Pense em obstáculos, entrevistas, perseguições, revelações.
  5. Organize a linha do tempo dos eventos (antes e depois do crime)
    • Uma cronologia clara é essencial para não cometer inconsistências.

Ferramenta útil para mistério/policial:

Quadro de Investigação (Estilo Detetive)

  • Use um mural ou software para mapear:
    • Suspeitos
    • Motivos
    • Ligações entre eles
    • Provas e pistas
  • Ajuda o escritor a visualizar a complexidade do caso.

Visto isso, podemos ir para as próximas partes. Vamos explorar diferença entre história e trama, e dicas e métodos específicos para os gêneros com os quais tenho mais contato e experiência, Fantasia e Ficção Científica. Até lá!

Vale a pena escrever ficção relâmpago? Confira 8 dicas sobre escrever neste formato.

Há alguns anos, descobri uma modalidade de texto ficcional que passei a apreciar: a ficção relâmpago. Também conhecida como flash fiction, trata-se de histórias curtas, com tamanho aproximado de 300 a 1.000 palavras.

Ou seja, uma ficção bem curtinha.

Neste artigo, vamos explorar como essas histórias breves podem beneficiar os escritores, seja para praticar, divulgar ou expandir suas ideias.


O que é ficção relâmpago?

Escrevi meu primeiro conto curto há muitos anos, mas não sabia que ele se enquadrava nesse formato. Na época, minha ideia de classificação era simples: contos (textos pequenos) e romances (textos longos). Hoje, com o mercado literário mais segmentado e formas variadas de publicação e premiação, a ficção relâmpago é reconhecida como uma categoria distinta.

Por exemplo, no Brasil tivemos a newsletter Faísca, que publicou muitas histórias nesse formato — incluindo uma de minha autoria, Tetas de Ouro. Infelizmente, a Faísca não está mais em circulação. Já no exterior, revistas como Apex Magazine e Flash Fiction Magazine continuam a publicar regularmente textos curtos. [ATUALIZADO]: Descobrimos a Revista Cascártica que aceita ficções relâmpago e paga!

Para escritores iniciantes, essas publicações podem ser uma vitrine valiosa. Mas os benefícios da ficção relâmpago vão muito além disso. Como venho escrevendo nele há algum tempo, percebi algumas coisas que quero compartilhar com você. Confira a seguir oito motivos para apostar nesse formato:


1. Histórias curtas, impacto rápido

Uma boa ficção relâmpago deixa uma impressão duradoura em pouco tempo. Seu formato breve é perfeito para criar experiências intensas sem exigir grande compromisso de leitura.


2. Trabalhe com limitações

Esse gênero exige concisão. Com poucas palavras, é necessário escolher bem as ideias, personagens e conflitos. Essa restrição é um excelente exercício para refinar suas habilidades como escritor.


3. Pratique com rapidez

Em algumas horas é possível criar um esboço inicial e, com revisões, finalizar o texto em poucos dias. O formato é ideal para testar ideias e exercitar sua escrita sem a pressão de projetos longos.


4. Finalização mais acessível

Completar uma história curta gera a satisfação de ter algo concluído. Enquanto romances podem levar anos, uma ficção relâmpago pode ficar pronta em até poucos dias.


5. Elementos básicos bem trabalhados (exercitar foco)

Mesmo no formato compacto, é possível estruturar uma boa história: protagonista, conflito e antagonista. No entanto, é preciso ser direto, evitando elencos grandes, múltiplas locações ou subtramas complexas.


6. Geração de ideias para projetos maiores

A ficção relâmpago pode ser um trampolim criativo. Um projeto pessoal que iniciei, escrevendo uma história curta por dia, resultou na coletânea Tempestade de Ficção — 20 Ficções Relâmpago de Fantasia. Esse processo não apenas gerou 20 histórias, mas também 20 mundos distintos.

O legal é que essa série cresceu ao longo dos anos e já tem 4 volumes. E tudo isso veio de um método experimental que desenvolvi. Eu dei até um nome para isso: resolução de equação literária aleatória. (Vou falar mais sobre esse processo em outro artigo)


7. Oportunidades de publicação

Você pode submeter suas histórias para revistas como Revista Literatura Fantástica ou Taquion FC, participar de concursos ou criar sua própria publicação. Por exemplo, minha ficção relâmpago, Nunca desisto! pode ser lida da edição#1 da Táquion FC. Mas sempre confira as diretrizes antes de enviar seus textos.

Meu livro de contos mais popular, Contos Insólitos de Ficção (Quase) Científica, inclui contos de tamanhos variados e algumas ficções relâmpago.


8. Feedback facilitado

Por serem curtas, essas histórias são ideais para receber opiniões em plataformas como Wattpad ou Webnovel, ou mesmo de seus leitores beta. O compromisso do leitor é menor, o que aumenta as chances de feedback rápido.


Conclusão

Escrever ficção relâmpago é uma forma divertida e eficaz de desenvolver criatividade, concisão e habilidades narrativas. É também um formato prático para escritores em qualquer nível.

Espero que vocês tenham gostado deste artigo! Deixe suas perguntas nos comentários. No próximo texto, vou detalhar meu método de “resolução de equação literária aleatória“. Até lá!

Desafiando convenções mágicas: Sete dicas poderosas para subverter expectativas

Imagem de Freepik

A magia, um elemento intrínseco à ficção, oferece uma plataforma única para escritores que desejam desafiar as expectativas e criar narrativas envolventes e inovadoras. Já exploramos em outros artigos, todo o pensamento sobre magia e sistemas de magia. Mas considerando o desgaste que tantas obras de fantasia geram pela repetição de esteriótipos, é interessante pensar em subverter as convenções mágicas tradicionais. Isto pode abrir novos horizontes e surpreender os leitores. Aqui estão sete dicas poderosas para ajudar a alcançar esse feito:

1. Desconstrua o Herói Mágico Tradicional:

  • Ao invés de seguir a tradição do herói mágico imbatível, explore personagens que são falíveis, imperfeitos e que enfrentam desafios inesperados. Desmistificar a figura do herói permite que a magia seja um componente mais humano e acessível.
  • Neil Gaiman, autor de “American Gods” e “Lugar Nenhum“, aconselha os escritores a encontrar sua própria voz ao lidar com a magia. Em vez de seguir tendências, explore o que torna sua abordagem única. Gaiman também sugere que, embora seja importante estabelecer regras para a magia em seu universo, manter uma certa dose de mistério é desejável. Deixe algumas partes do sistema mágico inexplicadas, incentivando a imaginação do leitor e adicionando um toque de mistério.
  • Desafie a Jornada do Herói! Subverter as expectativas da jornada do herói é uma forma de questionar a narrativa tradicional de que o poder mágico automaticamente transforma um protagonista em um herói. Mostre os altos custos e as consequências emocionais da busca pelo conhecimento mágico.

2. Explore as Consequências Éticas da Magia:

  • Mergulhe nas complexidades éticas do uso da magia. Em vez de apresentar poderes mágicos como soluções fáceis, destaque as implicações morais das escolhas mágicas. Isso adiciona profundidade à narrativa e desafia a visão convencional da magia como uma panaceia.
  • Em “Os Magos” de Lev Grossman, a magia é explorada através do conceito do desencanto mágico. Os personagens principais, ao descobrirem e praticarem a magia, percebem que ela não é a solução para todos os seus problemas. A magia não proporciona automaticamente uma vida melhor ou mais significativa. Em vez disso, os personagens enfrentam novos desafios e dilemas morais, demonstrando que a magia, assim como qualquer poder, tem suas próprias complicações éticas.
  • A magia, longe de ser apenas um elemento fantasioso, pode se tornar uma ferramenta poderosa para examinar questões éticas e morais, proporcionando aos leitores uma reflexão profunda sobre o uso e abuso do poder mágico.

3. Magia com Custos Significativos:

  • Introduza a ideia de que toda magia vem com um preço. Seja físico, emocional ou espiritual, os personagens devem ponderar cuidadosamente antes de recorrer à magia. A noção de sacrifício acrescenta camadas de complexidade à trama e desafia a percepção de magia como um recurso ilimitado.
  • Em “Elantris” de Brandon Sanderson, a magia é retratada como uma bênção e uma maldição. A cidade de Elantris, anteriormente cheia de magia, é agora habitada por seres em um estado de morte-viva. O custo da magia neste mundo é a transformação terrível dos que a utilizam.
  • Além disso, Sanderson explora o conceito de “dor investida” em seu sistema de magia. A magia é obtida convertendo a dor física em energia mágica, destacando como a obtenção de poder mágico não é isenta de sofrimento pessoal. Esse custo físico e emocional adiciona complexidade à narrativa e lembra aos personagens e leitores que a magia tem suas próprias demandas.

4. Inverta Estereótipos Mágicos:

  • Dê uma reviravolta em estereótipos clássicos associados à magia. Se normalmente magos são retratados como anciãos sábios ou jovens aprendizes. Invertendo esses estereótipos, você desafia as expectativas do leitor e mantém a narrativa fresca. Surpreenda os leitores ao apresentar reviravoltas inesperadas ou reinterpretar elementos mágicos tradicionais.
  • Terry Pratchett, mestre da sátira, é conhecido por virar estereótipos de fantasia de cabeça para baixo em sua série “Discworld”. Em “Direitos Iguais Rituais Iguais”, por exemplo, Pratchett subverte a ideia de que apenas os homens podem se tornar magos. A protagonista, Eskarina Smith, desafia as convenções de gênero ao demonstrar um talento inato para a magia.
  • Além disso, Pratchett brinca com a imagem clássica do mago sábio e barbudo com o personagem “Rincewind”, entre outros, transformando magos em figuras cômicas e muitas vezes incompetentes. Ao inverter esses estereótipos, Pratchett oferece uma visão única e humorística do mundo da magia.

5. Aplique Limitações Inovadoras:

  • Estabeleça limitações únicas para a magia em seu universo. Talvez certos feitiços só possam ser lançados em determinadas condições, ou a magia tenha efeitos imprevisíveis. Essas limitações incentivam soluções criativas e afastam a magia da previsibilidade.
  • Recorremos Novamente a Brandon Sanderson, conhecido por seus sistemas de magia meticulosamente elaborados. Na série “Mistborn” os usuários de Alomancia podem ingerir e queimar metais para desencadear poderes específicos. No entanto, Sanderson introduz limitações únicas, como a dependência da quantidade de metal disponível e a necessidade de treinamento para usar adequadamente esses poderes.

6. Introduza o Conceito de que a “Magia Falha”:

  • Adote a ideia de que a magia nem sempre funciona conforme o esperado. Erros mágicos podem levar a resultados inusitados, oferecendo oportunidades para humor, surpresa e reviravoltas na trama. A imprevisibilidade da magia adiciona uma dose de realismo e caos ao seu mundo fictício.
  • Em Discworld, de Terry Pratchett, a magia muitas vezes não segue as expectativas tradicionais. Um exemplo notável é a Universidade Invisível, onde a magia é frequentemente caótica e imprevisível. Os feiticeiros, apesar de suas habilidades, muitas vezes lutam com encantamentos que saem pela culatra e criaturas mágicas incontroláveis.
  • Pratchett usa a falha da magia como uma fonte constante de humor e como uma maneira de satirizar os tropos de fantasia tradicionais. Ao fazer isso, ele destaca que mesmo em um mundo onde a magia é real, ela está longe de ser perfeita.

7. Envolva a Magia em Mistério:

  • Deixe partes do sistema mágico não explicadas. Manter um certo grau de mistério em torno da magia incentiva a imaginação do leitor e mantém a sensação de maravilha. Nem tudo precisa ser totalmente compreendido; deixe espaço para o inexplicável.
  • J.R.R. Tolkien introduz elementos inexplicáveis em seu universo mágico. O próprio “Um Anel” é um objeto com um poder obscuro e embora seu funcionamento específico (e os demais anéis que ele controla) não seja completamente explicado, sua natureza sinistra e a ameaça que representa são fundamentais para a trama.
  • Outro exemplo está na figura de Tom Bombadil, um personagem misterioso que habita a Velha Floresta. A natureza exata de seus poderes e origens permanece inexplicada, adicionando uma pitada de enigma ao mundo de Tolkien.

Encontrar um equilíbrio entre a fundamentação do uso da magia e sistemas mágicos em sua obra é algo delicado. É preciso investir na fundamentação, mas é também um desafio, não cair no ponto comum e replicar sistemas de magia já usado em obras consagradas. Lembre-se, como diz Ursula K. Le Guin, autora de “A Wizard of Earthsea”, a magia deve ser uma extensão do personagem e da narrativa, não um elemento isolado. Concentre-se nas experiências e na evolução dos personagens em relação à magia.

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