Dungeoneers 1 é uma HQ em cores, 28 páginas, inspirada na experiência de muitos anos do autor jogando RPGs de mesa, como por exemplo, Dungeons & Drangons. Tem história e desenhos de Marcio Fiorito, Cores de Renato Spiller e PH Gomes, letras de Deyvison Manes e produção gráfica de Priscilla Serradourada.
Financiada com grande êxito pelo Catarse, a incrível arte de Marcio Fiorito é ponto de destaque da HQ: temos um ótimo design de personagens, belas cenas de ação e ambientes detalhados do modo impressionante! Todos estes elementos colaborando para o leitor mergulhar neste cenário de fantasia.
Conta a história de grupo de aventureiros típico dos jogos de RPG, ainda no início de carreira. Quarteto clássico: O guerreiro Brock, a ladina Kaycee, o mago Melrik e clériga, Irmã Lyria. A dinâmica do relacionamento entre os personagens é um aspecto bem desenvolvido na narrativa.
Neste universo, grupos de aventureiros exploradores de masmorras são chamados de Dungeoneers. Este grupo, ainda não tem um nome, mas outros citados são a Companhia Escarlate e os Novos Saqueadores.
A trama principal tem início quando um encapuzado misterioso chamado Corvas, oferece uma boa recompensa para uma simples missão de escolta. É claro que a missão acaba não sendo tão simples assim, e no meio desta, surge Breen, uma jovem com um passado complicado e que talvez, possa trazer problemas para o grupo, no futuro.
Dungeoneers 1, traz um pequeno prólogo, uma história fechada cheia de ação e mistério e um epílogo que deixa em aberto espaço para o desenvolvimento de uma trama de cunho político, nas próximas edições.
Curte RPG ou histórias de fantasia? Ficou curioso? Você pode baixar o prólogo aqui ou mesmo adquirir a HQ enviando uma mensagem diretamente ao autor em seus perfis: @marciofiorito ou @dungeoneers_comic.
Para quem não conhece, o Funktoon é um aplicativo para celulares/tablets dedicado a publicação de HQs nacionais otimizadas para o formato de leitura em celular, ou seja, aproveitar ao máximo a experiência de rolagem de telas no sentido vertical.
Quer dizer que todas histórias na plataforma estão neste formato? Não, mas mesmo as HQs em formato tradicional podem ser lidas, pois o app suporta zoom das imagens.
Segundo editor, Rapha Pinheiro, desde o lançamento já houve mais de 2 milhões de visualizações por mais de 60 mil usuários. Participam da plataforma como autores mais de 2200 pessoas.
Em 2023, houve uma diminuição nas ações de divulgação da plataforma, mas mesmo com as redes sociais inativas ela continua gerando cerca de 500 leituras por dia. Conversei rapidamente com o Rapha Pinheiro e ele disse que a equipe está elaborando um plano novo de divulgação e crescimento para 2024.
Como usar o FUNKTOON?
Para quem vai baixar o Funktoon (também conhecido como Picolé), ou experimentar o acesso pelo navegador, recomendo ler o tutorial da plataforma que é bem divertido, e no formato de “HQ scroll” (rolagem de tela). Aqui você vai aprender a usar todas as funcionalidades de uma forma lúdica.
Bem, mas a plataforma em si não é a atração principal, e sim a grande coleção de histórias que abriga. Desde material profissional até HQs independentes feitas por artistas iniciantes e também experientes.
Existem publicações “premium”, liberadas para os assinantes, em geral, títulos da Guará. Além disso, há também um espaço para as HQs mais lidas (Bombando), material selecionado pela equipe de curadores e é claro, o espaço para os independentes.
Vamos falar das primeiras obras que chamaram minha atenção nesses primeiros dias como usuário.
Iraúna do Olhar Âmbar
Essa HQ do artista Pieri é uma das joias dessa plataforma. Conta a história de Irene (ou Nera, ou Iraúna) uma jornalista que fez um trato com uma entidade sobrenatural ganhando uma matilha de cães fantasmas (de Honduras).
Irene é uma personagem bem cativante e se envolve em casos relacionados ao sobrenatural. A HQ tem narrativa visual muito bem elaborada, construída através do traço característico e lindo do artista. É o tipo de HQ que te faz entrar na história porque o artista domina a linguagem visual.
Essa HQ, de Thiago Krening, conta a história da Carol, uma jovem que sai de casa e vai morar num edifício onde convive com personagens muito peculiares. A narrativa visual é competente, com destaque para a paleta de cores e design dos personagens.
Sério, essa é uma das melhores HQs que li em um bom tempo. Literalmente de tirar lágrimas dos olhos. Uma história muito comovente e com excelente narrativa visual. Fala sobre a relação entre pai, filho e neta. O filho e o pai tem uma relação abalada e não se falavam há algum tempo, tanto que o pai desconhecia a existência da netinha.
Como o filho agora está doente e ele precisa contar com a ajuda de seu pai para cuidar de sua filha durante seu tratamento. Além de desenvolver a trama em cima do relacionamento familiar, a HQ também aborda o tema do racismo. Se ainda não leu, vai lá correndo ler essa obra prima.
Tem muita HQs de “tirinhas” na plataforma, um ótimo exemplo é O Verão de Lena. História muito gostosa de ler e tem algo que faz lembrar da tira Radical Chic de Miguel Paiva.
Criada pela quadrinista Lark, Escritório dos Pássaros é uma HQ de tiras cômicas, muito divertida, que trata de uma companhia criada por um gato na qual os pássaros são os empregados. O humor é ótimo e a temática explora bem questões problemáticas do mundo corporativo e relações de trabalho.
Essa é uma HQ de fantasia de autor independente, que não me pegou pela parte técnica, mas sim pelo humor, narrativa inusitada e meio non-sense. É uma boa aventura que lembra a lógica dos mangás sh?nen.
Antes de ir, deixo aqui o convite para conhecer minha sprite comic, Masmorra do Infinito. Uma HQ de tiras que explora sentimentos de nostalgia em relação videogames da década de 1980 e 90, pixelart e jogos de RPG de tabuleiro.
Como tem muita coisa na plataforma, não vou conseguir falar tudo num único artigo. Mas uma ótima pedida para saber mais é acessar a Coluna do Editor, produzida pelo Rapha Pinheiro.
Faz pouco tempo que escrevemos sobre Caxinã, de Vinícius Lobo. Hora de conhecermos Ilha dos Ratos, a terceira HQ do autor. Nessa obra, Lobo mostra um trabalho mais maduro, tanto no roteiro, arte e narrativa visual que resultou numa obra-prima.
A chegada na ilha
Ilha dos Ratos é uma mistura de fábula, crítica social e história de investigação no estilo Noir. Lobo conta a história épica dos camundongos e ratazanas acompanham os humanos numa embarcação que os leva a um novo território, a farta e paradisíaca Ilha dos Ratos. Ali, os ratos constroem uma cidade próspera que atinge seu ápice envolta em fartura e felicidade. Porém, logo o crescimento desordenado e veloz da população leva a uma crise de profunda escassez de alimentos, evidenciando um problema na organização social dos roedores, a divisão de classes.
Período de fartura
Em meio a essa crise, roedores começar a buscar alimentos em outros lugares da ilha, tomada pelos humanos, enquanto uma série de desaparecimentos misteriosos começa a acontecer. É aí que entram os dois detetives, Hopper e Byers (homenagem a Stranger Things?).
A dupla de detetives foi bem construída e começa a investigar o desaparecimento de Laurindo. No início, a investigação aponta para o problema das excursões para procurar comida, mas acaba se esbarrando numa trama mais pesada e que quando revelada irá exigir grande sacrifício da dupla de detetives. Vale dizer que a história conta bom boas sequências de ação, tiroteio e pancadaria.
Além da trama e personagens, muito bem construídos, vemos uma crítica social na obra. Segundo o próprio autor, usar ratos no lugar de humanos, permitiu que abordasse alguns assuntos pesados com certo toque de leveza, e também explorar algumas metáforas. A obra aborda com maior ou menor profundidade temas como a lealdade, desigualdade, egoismo, religião, racismo, entre outros temas.
Na parte da arte da HQ, vê se os contrastes do preto e branco muito bem utilizados, excelente narrativa visual e cenários muito bem construídos, com destaque para a parte arquitetônica.
Fica aqui a recomendação para a leitura dessa excelente HQ.
Sobre o autor
Vinícius Lobo é autor de quadrinhos desde 2019, quando publicou “Um Apelo à Vadiagem”, história baseada em sua decepção com sua primeira relação profissional com a Arquitetura e Urbanismo. Continuou desenhando durante a pandemia, publicando outra obra, “Caxinã”, que refletia sobre a relação fetichista do Brasil com o militarismo durante a crise sanitária. Em 2021, terminou a “Ilha dos Ratos”, financiada coletivamente. Lobo se dispõe a pensar o mundo cotidiano de forma crítica, mesmo que não expresse diretamente. Suas histórias são construídas a partir de sua relação coma a realidade, quase sempre inconformado, mas sempre esperançoso na mudança.
As histórias têm um humor peculiar que vem desde a concepção dos personagens, às referências a outros personagens e também brinca com a linguagem visual de antigas edições de gibis e folhetins.
“O lado” do Gato Preto traz tiras que fazem referências e reflexões sobre o nosso cotidiano. Falam de problemas do nosso tempo e constroem o humor baseando-se em acontecimentos e temas de um contexto social que, muitas vezes, não é tão engraçado assim, tais como, a mentalidade autoritária, escassez cultural e contrastes que vivemos na sociedade polarizada, com falta de diálogo e prisão das mentalidades às suas bolhas de conteúdos.
Já “no lado” da Ovelha Negra, temos uma coleção maior de personagens muito interessantes, que expressam um humor próprio das obras do autor, que em alguns casos é não convencional. E no centro da revista, uma surpresa para o leitor, uma incrível viagem interdimensional. Só lendo para ver como é!
O traço sintético do autor conduz o leitor para as piadas e/ou reflexões de cada uma das tiras. Um trabalho autoral que vale ser conhecido.