Neon Azul – Eric Novello

Não tinha uma expectativa clara quanto a esse livro, mas posso dizer que fui surpreendido, muitas vezes, durante a leitura. Neon Azul é o nome de um bar em torno do qual ocorrem várias histórias relacionadas. De início, a coisa toda pareceu um pouco confusa, não estava claro que seriam diversas narrativas com pontos de vistas diferentes. O Neon Azul é apresentado por um mendigo, que adotou o local para ser um ponto de obter esmolas. Achei legal uma história contada do ponto de vista de um mendigo, não é algo comum de se ver e fiquei imaginando até onde iria a narrativa. Com a primeira mudança de ponto de vista, ficou claro que não iria muito longe, afinal, ele não era mesmo o protagonista do livro, mas sim o próprio estabelecimento, o Neon Azul.

Então, no segundo capítulo, apertamos o botão de reset e começamos tudo de novo, só que não. O romance não é apenas uma colagem de contos, ou mesmo uma antologia em torno do mesmo tema, mas uma espécie de mosaico no qual cada capítulo vai explicando um pouco mais da história. Uma boa parte dos personagens, que aparecem em cada narrativa, vão revelando aspectos interessantes dos demais. E próximo ao final, o leitor vai ganhando uma visão de quebra-cabeças que vai se montando e dando um sentido ampliado ao conjunto.

A variação de personagens e temas tratados na narrativa é bastante interessante mostrando que o autor tem habilidade para expor e construir, num curto espaço, uma nova personagem e também situação de conflito que enfrenta.

Sabia que a obra vinha com a classificação de fantasia urbana, mas demorou um pouco até que o aspecto fantástico se revelasse. O aspecto fantástico inclusive é sutil e aparece com mais força em duas das narrativas.

É um livro recheado de personagens vívidos e algumas situações bizarras. Há presença de uma atmosfera noir, em torno do bar/boate/piano bar, mas é notável a surpresa que traz cada um dos personagens que entra em cena a cada mudança de capítulos. É como ler vários livros dentro de um, e ainda sim, tendo-se a impressão de unidade devido aos sutis cruzamentos entre as tramas das personagens.

Enfim, foi o primeiro livro que li do autor, me surpreendeu muito em relação à qualidade da prosa, forma peculiar de descrever situações e psique de seus personagens, além de acrescentar uma atmosfera misteriosa (sem um mistério propriamente dito) sobre qual será o próximo personagem e que novidade ele irá trazer.

Não que isso seja uma coisa ruim, mas ao final da leitura, ficou para mim uma sensação de querer saber mais sobre um dos personagens, o misterioso dono da boate conhecido apenas como O Homem. Então, se você busca uma história onde os arcos se fecham e tudo fica bem explicado, pode não ser o livro para você. Fora isto, gostei bastante e recomendo.

Site do autor:

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Promessa de Fogo (Abismo livro 1) – Thiago D’evecque

Um livro de um autor independente que li como parte da campanha #LeiaNovosBR. Ele também tem um outro romance chamado Limbo, que possuiu uma
premissa bastante interessante.

Promessa de Fogo conta a história de Alícia, uma jovem guerreira que vive com  o pai numa vila de interior chamada Timóteo. As coisas mudam para ela quando assassinos realizam ataques insistentes a sua vila, causando sofrimento e destruição. A partir disso ela inicia uma jornada de vingança e de auto descoberta, que infelizmente, não vemos ser concluída neste primeiro livro. Falar mais sobre a trama certamente entregaria alguns spoilers, para ficarmos livres deles, falemos de outros temas.

É um livro relativamente curto, o autor possui uma prosa fluida e de fácil entendimento. Porém, tende em alguns momentos para uma prosa floreada (purple prose), excesso de figuras de linguagem estranhas e um pouquinho de infodumps.

Apresenta uma ambientação interessante, com presença de dinossauros, demônios e magia, mas isso por si só não sustenta a trama que apresenta alguns problemas de desenvolvimento. Um deles é que nenhum arco importante é fechado nesse primeiro livro, deixando tudo muito em aberto e configurando um final pouco satisfatório. Um ponto negativo da ambientação é que, em alguns momentos, elementos são colocados na trama, como num tipo de colagem que faz referências a outras obras de ficção, como o Exterminador do Futuro e Robocop, mas sem que esses elementos
se integrem bem ao restante da ambientação. Por outro lado, alguns trechos são muito bem descritos, com por exemplo o momento em que as montarias (uma espécie de dinossauro) são apresentadas.

A coisa que gostei muito no livro foi a capa. Na verdade, algo que acabou me motivando a adquiri-lo.

A despeito desses probleminhas de trama e ambientação, o principal problema do livro e principal razão pela qual não gostei muito dele foi o fato de eu não conseguir empatizar com as protagonistas. (Gostei das montarias, por outro lado) Entenda que isso pode ser um aspecto ligado a um gosto pessoal, então, se não for um leitor tão chato quanto eu, pode ser que você goste do livro (já vi vários comentários positivos em outras resenhas). Então deixo a minha sugestão de dar uma chance ao autor e conhecer sua obra, que pode não ter me fisgado, mas certamente tem seus méritos.

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Entrevista com Diego Guerra – autor de O Teatro da Ira e O Gigante da Guerra.

Diego Guerra é formado em Produção Editorial pela Anhembi Morumbi e em roteiro pela Academia Internacional de Cinema. Trabalha como designer e é fã de literatura fantástica e romances históricos. Passou os últimos quinze anos escondendo suas obras nas gavetas, mas resolveu que já estava pronto para contar suas aventuras. Autor da série online Chamas do Império, que foi selecionado pelo catálogo da Editora Draco.

Fale um pouquinho sobre você, para seus leitores o conhecerem um pouco mais. Se puder, conte algo além do que já divulga na sua biografia.

Uau, vamos ver. Eu sou formado em produção editorial. Em um momento da minha vida alguém me convenceu de que eu nunca seria um escritor, então eu resolvi que trabalharia com o livro dos outros para me satisfazer, assim, meio sem querer, acabei bandeando para o lado da arte e me tornei designer, mas o objetivo principal sempre foi escrever, o resto eu fiz para pagar as contas.

No fim acho que não me desviei muito do meu caminho. Tenho uns amigos que queriam ser cantores, pintores, mil coisas e acabaram em um emprego completamente diferente. Acho que no fim eu acabei meio por teimosia na mesma área. A verdade é que não me vejo fazendo nada diferente e já pensei muito nisso.

Quando percebeu que queria escrever um romance, e ainda, por que o gênero de fantasia?

Percebi que queria escrever histórias assim que aprendi a ler. Deixava meus pais loucos, juntava todos os trocados para comprar livros. Minha família era muito pobre na época e a maioria dos livros que eu lia tinham sido herança dos meus tios e não eram para a minha idade. Ao mesmo tempo, eu colecionava artigos científicos e teorias bizarras… e gostava de inventar histórias para todas as coisas. Na verdade não escolhi a fantasia, eu fui descobrir o que eu estava fazendo muito mais tarde e até tentei escrever outras coisas por um tempo. Me disseram que eu tinha que escrever “coisas sérias” e eu tentei escrever crônicas, tentei romances existencialistas, mas não sou eu. Na fantasia eu me sinto mais à vontade.

Quais são suas principais referências na literatura?

Olha, como leitor eu me dediquei a tudo um pouco. Sou grande fã de realismo mágico, sobretudo Borges, Saramago e J.J. Veiga, mas nunca esqueci aquele sentimento de assombro que tinha com os romances de aventura como os livros do Stevenson ou Júlio Verne. Acho que tudo me tocou um pouco e fui mudando conforme lia. Ouvi um “click”, mesmo, quando li Bernard Cornwell, Yoshikawa e Dickens, foi quando eu comecei a encontrar o que eu queria escrever. Sei que eles parecem não conversar entre si, mas acho que como autor foram as obras que mais me influenciaram. Em algum momento também conheci Tolkien – não tem como ser escritor de fantasia sem ter ao menos conhecido Tolkien – mas acho que o que eu faço fica muito distante dele. Talvez me identifique mais com Michael Moorcock.

Legal, o Moorcock foi um dos que me fisgou para o gênero. Ainda tenho o projeto de ler todos os livros dele, acho que já estou na metade.

Moorcock é incrível, na minha opinião é um cara tão importante quanto Tolkien para o gênero. Tolkien era um acadêmico, sua obra é uma perfeição a parte, mas o Moorcock teve grande contribuição na disseminação e atualização da fantasia… Antes todos queriam ser Tolkien. Depois do Moorcock, as pessoas começaram a procurar histórias diferentes. No meu panteão, ambos dividem o trono.

Bacana, eles realmente merecem! O que você tem lido?

No momento tenho lido muitos livros teóricos, estou terminando a leitura do “Gigante Enterrado” do Ishiguro, “O Poder da Espada” do Abercrombie e “Como Funciona a Ficção” do James Wood.

Nossa, a trilogia da Primeira Lei, de Abercrombie “estourou a minha cabeça”!

Eu comecei a ler o Abercrombie porquê muita gente compara o meu livro com este, mas ainda estou bem no começo. Gostei do ritmo e tive uma boa impressão dos personagens… Mas ainda é cedo para dar um veredito.

Sobre a belíssima ilustração da capa de O Teatro da Ira (resenha) feita pelo ilustrador Camaleão. Como foi o processo de criação? Você participou? Ou foi algo que ocorreu através da editora?

Puxa, isso foi uma novela à parte… Sou designer, como vc sabe, é gosto muito de trabalhar com capas… Então eu fiz o projeto gráfico e contratei um ilustrador excelente para desenvolver a ilustração da batalha da ponte… Infelizmente o cara pisou na bola, e desapareceu. Levou 6 meses para eu recuperar o sinal que eu tinha pago. Nesse meio tempo, eu tentei resolver a capa de outra forma, inclusive fiz uma ilustração eu mesmo:

http://diggs.com.br/2016/02/05/teatro-da-ira-design-de-capa/

Só que, como vocês podem ver, meu traço era muito juvenil para a história… Quando eu apresentei pra Draco eles sugeriram outro ilustrador. Não tinha ideia de quem seria e nessa altura do campeonato apenas confiei no editor. Uns meses depois recebi esse presentão que foi uma capa do Camaleão. Até hoje não entendo como isso foi possível. O trabalho dele é incrível.

Li uma postagem sua falando sobre dificuldades para escrever a continuação de Teatro da Ira. Isso continua? Fale um pouquinho sobre isso.

Olha, eu nunca pensei que existiria essa dificuldade… Eu planejei os romances do Chamas do Império de forma semi-independente, montando arcos e deixando algumas pontas soltas para as possíveis continuações. Tem sempre um desejo de fazer melhor, sem menosprezar o primeiro e dando espaço para o próximo. E acho que tenho sido muito exigente comigo mesmo, para não decepcionar os leitores. Corrigir as coisas de acordo com o feedback que recebi do Teatro, também é uma preocupação.

Uma vez li um artigo do Asimov relatando a dificuldade de escrever sexto (ou quinto) livro da série Fundação. Para ler o segundo, leu o primeiro 2 vezes, o terceiro, o primeiro e segundo, mais vezes ainda, e assim progressivamente… até que ele disse que estava quase enlouquecendo.

Pois é. Eu sinto um pouco disso. Até porquê eu faço MUITOS tratamentos. Então, tem até isso, a história que eu tenho na minha cabeça às vezes é diferente da história que chegou aos leitores. Daí preciso sempre consultar para saber se aquilo aconteceu oficialmente ou foi só um tratamento que ficou para trás.

Mas está progredindo, certo?

Muito mais lentamente do que eu gostaria, mas sim, temos algum progresso e tem sido divertido ver a evolução da história.

Muitos de meus livros tem fortes relações com jogos de RPG (de mesa). De onde veio sua inspiração para Chamas do Império? Sua ideia é escrever uma série? Tem mais ou menos noção do tamanho?

A origem do Chamas do Império é uma história que eu escrevi em um universo inspirado em RPG de mesa… No decorrer daquela história dois personagens conversavam sobre um antigo Império que abraçava todos os reinos daquela região e foi por conta dessa linha de diálogo que eu comecei a imaginar como seria um Império tão vasto. Foi assim que nasceu as Chamas do Império.

Para escrever acabei me baseando bastante no Império Romano, nessa hora a obra de Edward Gibbon foi importantíssima, mas como queria escrever uma história de guerra, também fui atrás de livros da Segunda Guerra para me inspirar em algo mais moderno… No fim, a gente acaba sempre escrevendo sobre nós mesmos e sobre a nossa época, não é? Então eu acabei acrescentando questões que me interessam, como a escravidão, o preconceito e a luta de classes.

Aquela história inicial serviu apenas para me fazer questionar sobre a origem das coisas e me fez construir um universo muito mais rico, mas a verdade é que ela já não faz sentido algum para mim hoje.

Eu tenho ideia para muitos livros envolvendo os personagens do Chamas do Império, mas a verdade é que tenho outros projetos que quero escrever também, então resolvi fechar um arco importante da história antes de dar uma pausa e trabalhar nestes outros projetos um pouco. Estou falando em 3 ou 4 livros, com a mesma estrutura de arcos intercalados. Depois disso… veremos.

Achei que seu epílogo em forma de nota histórica agigantou seu romance. É uma inspiração vinda de Bernard Cornwell?

Minha primeira ideia era escrever um livro com notas de rodapé. Eu ia acrescentar as anotações sobre a paisagem, as pessoas, sempre do ponto de vista de um autor fictício do mundo. Quando comecei a fazer isso, porém, achei que estava ficando muito cansativo.

Acho que uma das minhas questões favoritas é “onde está a verdade?” Se você reparar, o Teatro da Ira é cheio de meias-verdades. Cada um tem a sua versão da história. As Notas Históricas foi um jeito de mostrar isso de forma clara, mas sim, Bernard Cornwell me mostrou como fazer isso. Enquanto as notas históricas dele tentam desvendar onde foi que ele “mentiu”, as minhas servem para mostrar que todos estão mentindo.

Pretende participar do NaNoWriMo 2017? Escreveria o primeiro esboço de um romance novamente em apenas um mês?

Olha, eu participei do NaNoWriMo 2015 e escrevi o Gigante da Guerra. Foi uma experiência devastadora, de várias formas… Não sei se faria novamente, mas se o fizesse, dificilmente o faria com Chamas do Império. Os romances são longos demais para isso.

Falando sobre outros livros, você comentou numa outra entrevista que é um pouco pessimista quanto ao ser humano e que isso aparece um pouco em suas obras. Você se vê escrevendo um romance que transmita uma mensagem otimista?

Sabe aquelas notícias sobre “Nasa anuncia que o mundo vai acabar nesta quinta feira?” Isso pra mim é otimismo. Falando sério. Eu adoraria. Gostaria mesmo de conseguir escrever algo que transmitisse algo bom para as pessoas, mas sempre que tento algo assim me parece falso. É um ponto fora da minha zona de conforto. Quem sabe um dia?

Seu romance, O Gigante da Guerra, tem alguma relação o universo de Chamas do Império?

Ah! O gigante da Guerra!  Sim e não. Ele se passa no mesmo universo, mas acontece anos antes e numa região diferente do Império… Então temos as mesmas raças, a mesma sociedade, mas vemos a história toda por um outro prisma. Você não precisa conhecer um para entender o outro.

O Gigante da Guerra se passa uns vinte anos antes, no fim da Guerra das Almas… Com o Império em seu pior momento. Conta a história de dois jovens que não tem nada de aventureiros ou heroicos, tentando sobreviver tomando decisões muito difíceis. Acho que é uma fantasia mais perto do realismo mágico.

 

Li um artigo seu sobre Viver de Escrever. É um pouco raro encontrar autores brasileiros, em especial da literatura de gênero, que vivem de escrever. Isso é uma aspiração sua? Como vê esse caminho?

Acho que viver de escrever é ter mais tempo para escrever e isso é algo que todo autor deve desejar. Seria ótimo não ter que espremer a produção literária entre um boleto pago e outro, mas sei que isso é raro, praticamente impossível, então toco a vida. Não vou deixar de escrever, isso não vai acontecer, mas gostaria de ter tempo para que as coisas andassem mais rápido.

É um ciclo. Existe uma forma de sair deste ciclo, mas é complicado. Uma vez tive o prazer de conversar com o Ulisses Tavares, um autor da velha guarda que me explicou como ele vive como autor. O segredo era (pausa dramática): ele tinha na época 140 livros publicados.

UAU, 140!

Destes 140 livros, alguns vendiam bem, outros vendiam mal… mas eram 140 livros. Sempre tinha alguma coisa para receber. É a mesma lógica de uma editora, a tal da Cauda Longa. Ganhar um pouco de cada livro. Bom, para mim faltam só 139 agora.

[risos] Ótima perspectiva! Isso sim é otimismo. Bem, novamente, agradeço demais. Foi um ótimo bate papo!

Eu que agradeço. Acho ótimo falar com outro colega escritor. É sempre divertido.


Então pessoal, espero que tenham gostado. Abaixo separei alguns links úteis:

 

 

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O Castelo das Águias – Ana Lúcia Merege

Título: O Castelo das Águias
Série: Athelgard
Autor: Ana Lúcia Merege
Editora: Draco
Número de Páginas: 192

Mais um livro de fantasia no meu projeto de leitura de autores nacionais. É narrado por Anna de Bryke, uma jovem que aceita ser Mestra de Sagas, algo como uma professora de história, em uma escola de magia que tem como sede um lugar fantástico: O Castelo das Águias.

Conhecemos, aos poucos, a vida num pedacinho de Athelgard do ponto de vista inocente e um pouco inseguro da meio-elfa, Anna. Ela foi criada numa tribo de elfos e possui um padrão cultural bem diferente do existente nas cidades da Terras Férteis. Explorar esse choque cultural é um modo interessante de conhecer a ambientação e construir a personagem.

É um livro de fantasia com ritmo tranquilo e possui um clima leve, se comparado a muitas obras de fantasia medieval onde predominam heróis masculinos, guerras ou missões recheadas de conflito e violência. Essa leveza é justamente o ponto forte desta obra, pois apresenta uma visão mais próxima de atividades cotidianas que muitas vezes são deixadas de fora no caso de outras obras do gênero. Não costumo gostar muito de narração em primeira pessoa, mas a autora o faz com habilidade, dando uma voz autêntica à protagonista.

Retrata a jornada de adaptação e integração da protagonista num novo ambiente, em meio a uma disputa política sobre o “monopólio” da criação de águias guerreiras. É bastante curioso o fato da protagonista não possuir dons mágicos, ou outras capacidades especiais. Sendo assim, enfrenta muitos desafios usando de seu conhecimento histórico e também de alguma intuição, compaixão e sagacidade. Justamente por não ser uma personagem fisicamente poderosa, um aspecto interessante da obra e ver como ela trabalha em conjunto com outros personagens na solução dos problemas.

Sobre o cenário, vemos um tipo de magia bastante curiosa, que leva um pouco de tempo para se revelar. O conhecimento mágico do Mestre das Águias, e de seus discípulos, permite transformar temporariamente as águias em versões mais ferozes e belicosas, e ainda, comandá-las durante conflitos.  Estas águias vem sendo usadas pelas cidades aliadas das Terras Férteis como uma forma de reforçar suas guarnições.

É um livro curto, e que possui uma certa quantidade de personagens e informações sobre o mundo, que acabam ficando um pouco superficiais. Por outro lado, abre-se a oportunidade para conhecer mais sobre esse mundo nas sequências, visto que o belo mapa do mundo foi pouco explorado até então.

O livro continua em: A Ilha dos Ossos e A Fonte Âmbar. Espero ter a chance de lê-los, em breve.

Enfim, é um livro de fantasia com ritmo próprio, com um mergulho profundo na personalidade de sua protagonista, que possui romance, escrito de modo competente e que nos introduz ao mundo mágico de Athelgard.

Já está no mercado há um bom tempo, mas se ainda não o conhece, é uma boa pedida.

Conheça o site da autora:

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O Teatro da Ira (Chamas do Império) – Diego Guerra

Chamas do Império: o Teatro da Ira. São Paulo: Editora Draco, 360 páginas, capa Diggs (o próprio autor) e Camaleão.

“A coragem é o único caminho; o medo o único pecado”

Primeira coisa, uma das coisas me motivou a adquirir esse livro foi a arte de capa. Um trabalho belíssimo do ilustrador Camaleão. Ele saiu de minha fila de leitura, relativamente rápido, pois há muito tempo queria entrar numa série de leituras de livros de fantasia e ficção científica de novos autores brasileiros.

O Teatro da Ira é uma fantasia que segue a linha brutal, lembrando um pouco o tom da trilogia da Primeira Lei de Joe Abercrombie, com uma temática e linguagem adulta. Não se fixa num único protagonista, mas está centrado em torno do mercenário Jhomm Krulgar, um sujeito forte e bruto que vive à sombra de acontecimentos terríveis em sua juventude. Devo dizer que gostei bastante do personagem, o fato de ter sido criado com cães e sua natureza selvagem, lembrando um pouco personagens como Conan.

E até queria que ele estivesse mais presente… A inclusão de um elenco complementar de personagens, dos quais a trama dependia para avançar, chegou a me afastar um pouco da obra, em alguns momentos. A primeira metade do livro é constituída pela apresentação desses personagens, em alguns casos, aparentemente desconexos da trama, mas aos poucos as peças vão se juntando. Do meio até o final, a narrativa ganha um ritmo mais forte, fazendo o leitor querer virar as páginas.

O mundo criado por Diego possui magia, mas ela se manifesta de uma maneira não tradicional. Temos a personagem Thalla, filha de um rico comerciante e capaz de entrar nos sonhos das pessoas, influenciando suas motivações, uma coisa análoga ao que vimos no filme Inception. O outro tipo de magia mostrado é uma espécie de ilusionismo praticada por um mambembe errante chamado Ethron. Dão o nome a esta especialidade de teatro coen, presente na trama, e que acredito ter motivado a escolha do título do livro.

Falando sobre a composição do mundo, sabemos que há um império, mas que este enfrenta dificuldades para manter-se unificado. Há uma guerra ativa em sua fronteira norte, e ameaça de rebeliões nas províncias sulistas. Isto também é de importância para a trama, pois todos os personagens acabam convergindo para a cidade de Illioth, uma importante capital no sul de onde vem uma ameaça de rebelião.

Outro aspecto da construção de mundo, vem da existência de uma raça não-humana, os dhäeni (ou eldani, como eram chamados nas eras passadas). Em relação a estes, o livro discute o tema da escravidão e do que ocorre com um povo que foi escravo por muito tempo após sua abolição. O preconceito que permanece e a própria visão subserviente que possa ter se instalado naquela cultura. Os dhäeni, além de ex-escravos, são mágicos por natureza, realizando magia através de canções. Eles possuem o interessante conceito de unidade com o todo através do canto da Grande Canção. A pessoa que salva a vida de Krulgar, quando jovem, é um dhäeni chamado Khirk. É uma figura interessante, pois cometeu um tipo de crime contra sua cultura e perdeu a sua voz, tornando-se assim, um fahin, um dhäen que não consegue cantar em consonância com a Grande Canção. Há outros personagens dhäen que mostram a relação desumanizada, ainda cultivada pelos humanos em relação aos seres desta raça. O livro tem boas sequências de ação, em especial, algumas batalhas que ocorrem no meio do livro.

Mas deixa algumas pontas soltas, que talvez venham a ser explicadas nas sequências. O autor possui um prosa fluida, no geral, trabalhando bem sequências de ação e diálogo, mas achei que peca um pouco nas sequências descritivas, em especial em aproveitar-se disso para informar o leitor sobre a história e outros aspectos do mundo. Tais informações poderiam ser mais condensadas, ao meu ver, o que deixaria o ritmo de leitura mais fluido e ágil.

Quanto à finalização, acredito ser a melhor parte do livro. O escritor entrega um final convincente, com uma boa reviravolta, deixando o caminho aberto para outras obras. O que gostei, em especial, foi do capítulo do epílogo, no qual constrói uma perspectiva histórica da narrativa e é irônico notar como os historiadores criam uma versão não que não adere aos fatos narrados na estória (usando a forma antiga aqui para diferenciar de história). Já vinha suspeitando, durante a leitura de influências de Bernard Cornwell neste livro e o epílogo ajuda a pensar assim. Será mesmo? Seria uma boa questão para uma possível entrevista com o autor.

O balanço geral é que é um livro de fantasia épica bem construído, com alguns personagens interessantes, uma trama bacana, construção de mundo que evita um pouco os pontos comuns do gênero e que é uma obra notável considerando o cenário do gênero no Brasil. Fica minha recomendação.

Site do autor:
https://chamasdoimperio.wordpress.com/
Twitter:
https://twitter.com/ChamasdoImperio

Ilustração (completa) por Camaleão:
http://camaleao.artstation.com/projects/zNkGZ

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Joe Abercrombie – Mini Biografia, Obras e Entrevistas

Esse é um dos autores de fantasia mais excepcionais que conheci ultimamente. Eu já resenhei aqui, alguns de seus livros. Quando encontro alguém bom assim, fico com muita vontade de compartilhar e divulgar, então resolvi fazer uma pesquisa baseada em várias fontes e entrevistas para falar um pouco mais sobre ele. Então, vamos lá!

Um pouco de sua biografia

Abercrombie nasceu em Lancaster, no condado de Lancashire, noroeste da Inglaterra, mesma região natal de Joseph Delaney (postagem anterior). Nos seus anos de estudante, jogava muito videogame e RPGs de mesa, rolando dados e desenhando mapas de lugares que não existem. Sempre sonhou em conseguir redefinir o gênero de fantasia e assim, começou a escrever uma trilogia épica contando as desventuras do bárbaro Logen Nove Dedos. Mas sua primeira tentativa foi mal sucedida.

Ele mudou-se para Londres para tentar ganhar a vida. Anos depois, em 2002, sentou-se novamente para reescrever as desventuras de Nove Dedos. Desta vez, o resultado foi muito mais interessante.

Completou o primeiro volume O Poder da Espada (The Blade Itself) em 2004. Livro que foi rejeitado por muitas agências literárias da Inglaterra, até que em 2005, foi aceito pela Gillian Redfearn of Gollancz. Um ano depois, foi publicado como primeiro volume da Trilogia da Primeira Lei. Agora, já publicada em mais de treze países.

Em 2008, Joe foi finalista do prêmio John W. Campbell como melhor escritor estreante. No mesmo ano, contribuiu para a série da BBC Worlds of Fantasy ao lado de autores como  Michael Moorcock, Terry Pratchett and China Miéville.

De 2009 a 2011 publicou mais três livros do mundo da Primeira Lei, Best Served Cold, The Heroes e Red Country, todos ainda inéditos no Brasil.

Foi em 2014 que começou a publicar sua nova série, a Trilogia do Mar Despedaçado. Os primeiros dois livros, Meio Rei e Meio Mundo, já foram publicados no Brasil e Meia Guerra, ainda é um lançamento muito aguardado…

Em 2015, venceu o Prêmio Locus na categoria melhor romance Young Adult com Meio Rei.

No Brasil, seis de seus livros foram publicados pela editora Arqueiro.

Obras

Algumas capas nacionais e internacionais da maior parte das obras do autor.

Joe por Joe

Para essa seção, selecionei trechos de diversas entrevistas e bate-papos dos quais o autor participou ao longo dos anos.

Escrita

Você sente que se desenvolveu como autor durante a escrita de seus 5 primeiros livros? Em que mudou/se desenvolveu? Acha que ainda tem o que aprender? (mais…)

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Entrevista com Joseph Delaney, autor da série As Aventuras do Caça-Feitiço

Uma das séries que li e mais gostei ultimamente é a das Aventuras do Caça-Feitiço. Então, veio também o interesse de saber um pouco mais sobre o autor. Encontrei essa aqui no site oficial, que saiu no The Book Collector em 2010.

Qual foi o primeiro livro que gerou um grande impacto em você e colocou-o no caminho para se tornar um autor?

Foi “O Senhor dos Anéis” e me trouxe um gosto verdadeiro pelo gênero de fantasia. Por muitos anos eu fiquei tentando e falhando em ser o próximo Tolkien! Fui rejeitado por editoras por mais de 96 vezes.

Poderia nos contar um pouco sobre sua história. O que você fazia antes de se tornar um autor em tempo integral?

Eu trabalhava como professor, minhas disciplinas eram Inglês, Cinema e Estudos Midiáticos. Antes disso, quando tinha uns vinte anos, trabalhei como engenheiro, quando havia terminado meu papel como aprendiz, assim como Tom Ward na série do Caça-Feitiço.

Como, quando e porque decidiu tornar-se um autor?

Eu leio muito e sempre que lia um livro de que gostava mesmo eu pensava “Eu queria ter escrito isso!”

Seu primeiro livro publicado era de Ficção Científica. Levou muito tempo até conseguir vê-lo materializado?

Meu primeiro livro foi publicado por uma editora pequena e independente. Foi muito legal ser editado, mas as vendas foram relativamente pequenas. Mas foi legal ver meu trabalho disponível em livrarias.

Quando veio a ideia para a série do Caça-Feitiço? (mais…)

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O que o Google consegue nos contar sobre a trajetória de 7 anos de um modesto blog literário?

Agora que (finalmente) estou com um tempo regular na minha agenda para me dedicar ao blog novamente, fiquei pensando em coisas legais para escrever. Uma coisa que me ocorreu foi analisar o que eu já fiz até então, 94 resenhas, 4 biografias de escritores, 2 traduções de entrevistas, etc. E me veio a pergunta. O que escrevi que fez mais sucesso ao longo desses anos? Ah, o super Google Analytics me ajudou a responder essa questão. Aqui está a resposta:

1. Livros 7,83%

Legal, gostei de saber disso e faz sentido, pois um dos meus objetivos com o blog é dar um pouco de visibilidade a eles.

2. Resenha: A Casa dos Muitos Caminhos – Diana Wynne Jones 3.95%

Uau, acho que é um dos livros que mais gostei dos que já resenhei aqui. Vale muito a pena ler essa série que começa com O Castelo Animado.

3. Post: Artistas, Ilustradores e Fantasia 3,38%

Era para ser uma seção… Mas acabou como um único post. Fez sucesso, né? Acho que voltarei a fazer postagens.

4. Entrevista: Alan Dean Foster 1,76%

Essas entrevistas são muito legais e tem várias curiosidades, como por exemplo, o fato de ter sido ele a escrever a novelização original de Star Wars e uma sequência que acabou não virando filme.

5. Resenha: The Broken Sword / A Espada Quebrada – Poul Anderson 1,63%

Esse livro é um dos clássicos da fantasia. Está na lista “must read” que comecei a construir aqui há alguns anos.

6. Postagem interna: O Oráculo Esquecido ficou esquecido mesmo? 1,53%

Nossa, havia mesmo uma grande expectativa dos leitores quanto ao desfecho da saga de Kyle e seus companheiros iniciada em Olhos Negros. Felizmente, consegui terminar e publicar em 2014, dezessete anos depois que comecei a escrever a saga. UFA!

7. Resenha: O Planeta dos Dragões – Jack Vance 1,42%

Um grande exemplo de romance planetário. Muito interessante mesmo!

8. Resenha: O Orador do Mortos de Orson Scott Card 1,35%

Ah, o segundo livro da série O Jogo do Exterminador. Eu curti muito essa série. Tivemos o filme (que como sempre) não ficou a altura do livro.

9. Meu livro (inglês): Keel The Demonslayer. 1,34%

Tive poucas vendas da versão gringa do meu livro. Mas valeu como experimento.

 

Essa coisa de análise de dados é mesmo fascinante. Veja só o que o Google diz sobre os últimos dois anos?

1. Diana Wynne Jones continuou imperando, 5,56%

2. Artistas, ilustradores e fantasia: 4,31%

3. Livros 4,27%

4. Resenha: Shiroma Matadora Ciborgue – Roberto de Sousa Causo 2,61%

Esse livro é uma FC nacional muito bacana. Vale comprar e ler, viu? Inclusive descobri que já resenhei 7 obras do escritor.

5. Resenha: The Way Of Kings – Brandon Sanderson 2,60%

Cara, tô esperando demais a continuação dessa série! Quando será? Oathbringer ainda está em revisão…

7. Olhos Negros vence o Wattys 2015 2,02%

Nossa, fiquei muito feliz com isso. O livro ainda é um ilustre desconhecido, mas está valendo… Aos poucos ele chega lá, kkk.

Caramba, e como o tempo passa. Vamos em frente, modestamente indo a onde a maioria dos blogs já foi e voltou. Daqui uns dez anos vemos de novo como as coisas correram, kkk.

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Homem-Café premiado, projeto da HQ e o fim do inverno

Temos algumas novidades excitantes para compartilhar!

O conto, A Morte do Homem-Café, foi agraciado com o Prêmio Drummond Wattys. Fiquei imensamente feliz por este reconhecimento. Foi tudo tão corrido esses dias que demorei um pouco para escrever um artigo aqui a respeito. Uma coisa legal do prêmio Drummond é que as obras podem ser indicadas por outros autores. Neste sentido, deixo meu sincero agradecimento a RoZaneMartha por ter me indicado!

Para continuar no clima de boas notícias, aqui vem mais duas… Sabe aquela coisa do Game of Thrones de: “O Inverno está chegando…”? Pois é, estou vivendo uma fase de: “O inverno acabou”. É que, depois de 5 anos sonhando com isso, consegui ajustar minha carga horária de trabalho para 6 horas diárias. Isso também está coincidindo com um período que meus filhos estão ficando maiores e mais independentes… O resultado é que agora estou com inéditas 2 a 3 horas por dia para trabalhar nos meus projetos literários e de ilustração.

O primeiro fruto disso é que terminei de escrever,  semana passada, a primeira versão do roteiro de adaptação para quadrinhos do Homem-Café. Estou trabalhando neste projeto com um artista de primeira linha e espero poder contar novidades em breve. O roteiro está bem legal, ainda estamos trabalhando em ajustes, mas posso adiantar que ele vai contar a história do Homem-Café, desde sua origem, de uma maneira bem mais detalhada e rica do que foi possível fazer neste pequeno conto.

Vocês vão poder conhecer mais sobre ele, sua origem, sua família, como recebeu os poderes, sua relação com Coffee-Break e Café com Leite, ver detalhes de suas principais batalhas e até a introdução de alguns vilões e novos personagens. Estou muito animado com o projeto. Em breve, trarei mais notícias.

Um grande abraço e até a próxima!

Ainda não leu o conto? Acesse agora mesmo através do Wattpad:

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Meio Mundo – Joe Abercrombie

No segundo livro da série Mar Despedaçado, Jon Abercrombie renova o elenco de personagens, trazendo dois novo protagonistas, os jovens Thorn Bathu e Brand. O livro tem uma estrutura bem parecida com o primeiro. Yarvi ainda tem um importante papel na trama, mas o foco desse segundo livro se alterna entre a dupla de jovens guerreiros.

Thorn é uma aspirante a guerreira muito durona, que treinou duro e tem como ambição de vingar a morte de seu pai, mas antes disso, se vê acusada injustamente de um assassinato.

Sua vida acaba caindo nas mãos do perspicaz Príncipe Yarvi (já mais maduro do que vimos em Meio Rei), e partem numa jornada em busca de aliados contra o Rei Supremo. Junto com eles segue Brand, um jovem guerreiro que odeia matar. (mais…)

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