Vamos comentar as edições 6 e 7 da excelente HQ italiana de fantasia Dragonero. É uma história em duas partes, desenhadas por um “novo” e excelente arista: Francesco Rizzato. O roteiro é de Stefano Vietti. Então vamos lá…
Ian e Gmor saem numa missão, mas no caminho se deparam com uma caravana de Zágharos, nomades que trabalham capturando feras e lutadores para se ennfrentar em arenas itinerantes. Mas essa não é uma caravana qualquer, pois é liderada por um maléfico elfo sombrio de nome Zehfir.
Para ajudá-los nessa missão, surge a misteriosa curandeira Eryana, que também tem seus segregos a revelar.
Nessa aventura, vemos Gmor e Ian separados, cada qual tendo que lidar com seus problemas. Devo dizer que Gmor é um personagem incrível que vai cativando o leitor a cada nova aventura. Sua aparência externa de monstro esconde alguém que possui mais humanidade que a maioria dos humanos que cruzam o caminho dos aventureiros. Todavia, Gmor conserva a essência de um honrado guerreiro Orc.
O mundo de Dragonero, também, não para de surpreender. Sempre há mais regiões, facções e conceitos que vão sendo introduzidos, dando uma sensação de que a ambientação foi muito bem trabalhada e que os autores tiveram o cuidado de não expor tudo de uma só vez.
Um prato cheio para os amantes de uma boa fantasia!
Mais um episódio da história do varliedarto Ian, do orc Gmor e da elfa Sera.
Certamente uma HQ que vai agradar os fãs de fantasia, ou mesmo jogadores de RPG.
Nesta edição (publicação original na itália em de 2013), temos os desenhos de Gianluca Pagliarini que não deixa muito a dever ao artista de edições anteriores e do início da saga Giuseppe Matteoni.
Diferente de outras edições, nessa temos um pouco menos de ação e problemas acontecendo. Logo depois de Gmor fazer uma surpresa (bem engraçada) para Sera, Ian se lembra que é a época da reunião anual dos batedores. Então conhecemos mais um aspecto interessante da ambientação. A sociedade que cuida de compartilhar e espalhar informações sobre estradas, condição nos territórios, etc. Uma estrutura auxiliar ao império. É interessante ver batedores vindos de várias regiões do mundo, suas preocupações e costumes.
Outro ponto interessante é que surge durante a viagem um carroção dos retornados, no qual mortos vivos são transportados para serem colocados na cidade dos mortos, um conceito bem bizarro e que não tinha aparecido até então.
Ian está preocupado com as transformações que vem sentindo desde que enfrentou e matou um dragão na edição #1 – Sangue de Dragão. Na ocasião tanto Ian como sua espada foram banhadas pelo sangue do animal e como resultado a espada o absorveu ficando preta. Ele vai buscar conselho com o Mago Alben, mas o tipo de conselho que o mago dá não é bem o que Ian gostaria de ouvir.
É muito legal também o fato de Ian e Gmor terem uma casa “bucólica”, um refúgio, e que as histórias tenham esse tempo de respiro/descanso, não ficando apenas restritas a aventuras e desafios, um depois do outro.
Resolvi reunir o três últimos livros desta saga numa única resenha. É… Faço coisas esquisitas, mas a razão é que estou tentando escrever esse texto sem dar spoilers e concluir de uma só vez essa série de resenhas.
Algo que unifica essas três obras é o sofrimento prolongando vivenciado por Ciri, Geralt e Yennefer ao mesmo tempo em que mais e mais personagens e diferentes narradores e pontos de vista são introduzidos na história.
É claro que o interesse do leitor está centrado em Ciri e Geralt, mas ele precisará ler muita história relacionada e paralela que ocorre com outros personagens secundários, ou mesmo que só aparecem de passagem na trama, para descobrir o que acontece com os protagonistas no final.
Em alguns momentos, esses “desvios” funcionam, pois, o leitor acaba gostando de alguns personagens e situações, mas em outros momentos, em que a identificação não ocorre, essa estrutura narrativa torna-se um obstáculo à leitura. Percebi a vontade de saltar alguns trechos dos livros e acredito que isso possa acontecer com outros leitores. Mesmo com isso, vale a pena? Sim!
A presença de personagens como Jaskier ou do anão Yarper Zigrin são sempre bem vindas. Regis, Milva, Cahir e Angoulême também são personagens novos e muito interessantes. Algumas tramas relacionadas à grande guerra entre Nilfgaard e os reinos do norte vão acompanhar esses livros. Como isso afeta os humanos, os não humanos, principalmente elfos, anões e as dríades de Brokilon.
O leitor irá encontrar os seguintes elementos na leitura: Tramas politicas, espionagem entre reinos, companhias de mercenários, batalhas e perseguições, muitos personagens que morrem, descrições sanguinolentas e cruas, passagens bem humoradas, locais interessantes, criaturas estranhas, discussões banais e discussões filosóficas, texto de história passada e futura, pontos de vista diversos e registrados em diferentes formatos, etc.
O papel de Ciri e seu significado na ordem das coisas vai sendo revelado aos poucos, e alguns antagonistas muito interessantes vão marcando presença, tais como: o mago Vilgefortz, o espadachim Bonhart, o nilfgaardiano Stephen Kellen, o rei dos elfos, o imperador Emyr, entre outros.
No último livro, como já se é esperado, ocorre o grande climax e reunião entre Geralt, Ciri e Yennefer. Mas mesmo depois disso, há ainda muita história para acontecer. É como um epílogo gigantesco que tem algumas partes boas e outras, nem tanto.
O final da saga é estranho. Não posso dizer que gostei muito do final, mas a série como um todo é muito boa. Desde o princípio o autor brinca com diversas lendas de nosso mundo, no último livro, a bola da vez foram as lendas arturianas.
Mesmo com algumas barrigas, a série é muito bem escrita, tem personagens interessantes, bons momentos de suspense e prende a atenção, quase sempre.
O livro eleva a tensão de seus predecessores, seguindo uma forma narrativa com vários pontos de vista. Uma estrutura peculiar. Por um lado, pelas variações adotadas não cansa o leitor, por outro exige mais do mesmo, que precisa preencher algumas lacunas.
É sempre bom destacar a boa qualidade da prosa que junta o humor a um contexto violento e rude.
Foi o livro da série, até então, que estabeleceu um ritmo de leitura acelerado, do tipo que o leitor não quer parar, com equilíbrio entre momentos descontraídos e tensos.
O livro tem várias passagens memoráveis, como o passeio de Ciri no burgo, o banquete na Ilha de Thanedd e toda a sequência que se passa na Frigideira, um deserto cheio de perigos.
Não é o objetivo aqui detalhar informações sobre a trama, até para não dar spoilers. Talvez, ajudar quem não leu nenhum livro, ou apenas alguns deles a se decidir se vale continuar investindo na leitura da série.
Para quem não leu nenhum, ou apenas viu a série no streaming, esse quarto livro funciona como uma espécie de clímax/reviravolta que renova a o interesse e torna praticamente impossível não continuar lendo a série.
Para quem leu o primeiro, ou os dois primeiros, vale lembrar que a partir do terceiro livro o autor adota um novo formato narrativo, ainda que não totalmente linear, tratando do destino de Ciri e os personagens que gravitam ao seu redor como Geralt, Yennefer e Jaskier.
Para quem leu o terceiro, o quarto é como uma segunda metade da história, mais tensa, e que além de aprofundar o mundo, suas questões políticas e personagens, trás algumas importantes reviravoltas.
Enfim, ao concluir a leitura deste quarto livro, temos a sensação de que realmente valeu a pena o conjunto da leitura, criando-se grande expectativa em relação aos próximos livros da série.
Esta é a história de desertos que avançavam cobrindo cidades. A história de um mundo à beira da destruição. Da gente desse mundo, de sua alienação e da violenta guerra em que se perdeu.
Esta é a história de uma mulher que fazia curas e de sua amiga, que dirigia um bordel. E de como elas enfrentaram tudo isso. Também é a história do tigre e da menina. Mas para conhecer todas elas, você terá de aceitar o chamado para olhar o futuro. E mergulhar no abismo.
Se há algo que o leitor pode esperar deste livro é encontrar algum grau de surpresas ao longo da leitura.
Viajantes do Abismo, Editora Avec, 380 páginas, foi um dos 5 finalistas do prêmio Jabuti 2020.
Narra a saga de Elissa Till, uma curandeira que vai se vendo carregada de sua vida comum para se envolver com uma trama política nacional cujos desdobramentos têm consequências globais.
É um livro que mescla elementos de fantasia e ficção científica numa roupagem de steampunk. É também uma distopia pré-apocalíptica.
Por outro lado, e aqui começam as surpresas, é uma história dirigida/orientada à personagem. A história começa com a Elissa tendo que lidar com uma desilusão amorosa ao mesmo tempo em que questões políticas locais começam a delinear parte do pano de fundo da história. Ao elemento de conflito político, logo se soma a uma crise ecológica global que começa a dar sinais graves de que realmente é um assunto sério.
No sentido de ser dirigida pelas impressões e sentimentos da protagonista, o início da história segue um pouco sem rumo, até que eventos externos carregam a protagonista para sua atuação no contexto do conflito político e depois entrar numa busca de solução para o grave problema ecológico global.
Não é uma história que segue certas fórmulas que encontramos na maioria das histórias de fantasia ou FC e isso tem implicações positivas e negativas. Do lado positivo, temos algumas supresas e complicações que surgem ao longo da leitura. Do lado negativo, é possível perceber algumas incoerências entre a própria proposta de funcionamento do mundo fictício e a forma que a trama se desenvolve. Em alguns momentos, chegando a beirar a suspensão de descrença, aquela atitude que temos diante de uma obra de ficção de saber que é “faz de conta”, mas ainda assim se permitir acreditar na ficção em prol do divertimento, ou mesmo, de se identificar com personagens, situações e questões e querer saber o que vai acontecer.
Pois bem, do meio para o final, a trama vai se tornando mais interessante chegando a um desfecho satisfatório.
Outro aspecto que podemos analisar na obra é o seu lastro de brasilidade. Isso não chega a ser a questão mais importante considerando qualquer obra de ficção escrita por brasileiros. Uma boa história é sempre boa história, usando elementos da cultura brasileira ou não. Mas sabemos que muitos leitores buscam por isso. E neste quesito, Viajantes do Abismo cumpre bem a introdução de elementos regionais, como o coronelismo, população desassistida em relação ao estado, políticos desconectados das necessidades da população, viseira em relação a problemas ecológicos/climáticos, polarização na política, uso da linguagem para criar topônimos e termos fictícios dentro da sonoridade lusófona, etc.
É um texto ambicioso em relação à complexidade que dá à trama e relacionamento entre os personagens, envolvendo várias camadas: pessoal, política e ambiental, mas que, talvez pelo tamanho da obra, ou pela estratégia usada para estruturar e amarrar tantos elementos, termina deixando algumas pontas soltas. E deixar pontas soltas, não é necessariamente algo ruim. Nesse sentido, a autora usou o artifício de um segundo epílogo (cena pós-créditos) que funciona muito bem para fechar a história de uma forma bem mais satisfatória que o primeiro epílogo.
Não é uma obra perfeita ou “redondinha”, mas que certamente vale ser lida, especialmente pelos amantes da fantasia e FC que procuram livros que expressem suas questões dentro do referencial tupiniquim. Além do mais, talvez o principal ponto forte da obra, tenha sido a capacidade de introduzir na trama um conflito ambiental que nos faz pensar bastante no quanto nós mesmos como humanidade ficamos divididos por conflitos políticos “banais”, ou levados pelo escapismo, enquanto o futuro de nosso planeta está por um fio. Estamos também indo para o Abismo?